16 agosto, 2008










A rapariga... valha-me Deus, era pouco mais que nada.

Desdentada, cabelo puxado ao lado e pequenez no tamanho e na limpeza… talvez por isso tenha reparado nela.

Mas mantinha aquele ar de auxiliar de acção administrativa/sectorial, calça de ganga afunilada sobre bota de cano alto, mais a camisinha desbotada e desabotoada sob peito escondido em costelas flutuantes, e um lencinho de cetim... Toda uma personagem de fantasia.

Ar enfático, ponderação ruminante, sabedoria solta em cérebro brando, de meninges apertadas como pé 43 em sapato 39.

Sorria (?) para a criança que trazia a tiracolo com meio cigarro encostado a dois únicos dentes que lhe sobravam da boca escarlate.

As gengivas escurecidas não conheciam escova nem os dentes mortiços e únicos, um belo par de “marjoretes” ostentando “cavalguices” desenfreadas em urros estridentes.

A limpeza não abundava, dentista nem pensar, trocando o tempo que tinha por visitas a centros comerciais, compra de bugigangas insubstituíveis, no meio dos muitos interesses e dos cigarros que fuma a correr por entre os dentes que não tem.

Procurava nela a cor, a saia e o cabelo e esquecia a montra do sorriso amarelo num espaço aberto e cinzento que inquieta a alma.

Balbuciavam-se pequenas frases com a força necessária para navegar noutros mares que não os revoltos, ler outros livros que não os de guerra, ouvir musica em vez do telejornal, mas cruzava e descruzava com 549 pessoas e não via nenhuma nem ninguém, apenas o espelho da vidraça, o fumo desprotegido e a respiração ofegante por meia dúzia de passos dados e a repentina transformação do tempo, de memórias tatuadas em encontros fortuitos.

Os genes misteriosos que a preenchiam, mortiços e desinteressantes, não faziam parar o trânsito mas apenas a carruagem ínfima do comboio das 5.

A um pequeno passo da loucura, viveu em velocidade desenfreada por entre espaços de tempo e tempo sem espaço.

Conta-se que alguma coisa se apoderou dela mais do que devia... e a vida foi-se por um fio.

3 comentários:

antonia disse...

Que medo...hein JP?

Paula disse...

A vida pode ser assustadora... quando as opções que fazemos são erros atrás de erros. Quando a palavra dignidade perdeu há muito o seu significado...Juventude, vícios, miséria... um ciclo aterrador de facto!

Parabéns à genialidade do autor que soube criar arrepios nos leitores, nesta passagem de um quotidiano que por vezes está mais perto de nós do que julgamos!

E o livro?... Vá lá! Quero ler! Queremos ler!

Abraço de esperança!

ana v. disse...

Eh lá... estás a escrever cada vez melhor!!

Gostei muito.
Beijo