29 agosto, 2008





Vivia-se num mundo de suspeições sobrenaturais.

A população saía de casa, saltitando num pé-coxinho obediente ao primeiro passo.

Era assim há séculos,

Os códigos da aldeia obrigavam a rezas em Domingos de Quaresma, passeios com o gado pelas ruas pintalgadas de tinta branca e a bênção do Padre Zé, omnipresente personagem das peregrinações e romarias.

A Capela brilhava de velas acesas em volta e honra do Senhor, e a música ecoava por entre as árvores frondosas.

Enquanto uns rezavam ao Espírito Santo, outros batiam o pé musical, às escondidas de beatas enfurecidas...

As contas do terço deslizam entre mãos calejadas enquanto percorrem de joelhos três voltas prometidas.

O cobranto, espinhela caída, o mau-olhado e os espíritos que vagueiam, eram discutidos entre ladainhas, enquanto o Padre Zé, espreitava por entre os jeitos e trejeitos da Cristina...... Tina para os amigos...!

Os garotos, filhos de fiéis e outros que se juntavam ao grupo, jogavam à cabra-cega, às escondidas e ao futebol com bolas de trapo e... benza-os-Deus, o Padre Zé estava ocupado, senão.... era "sermão" e "missa cantada".

A D. Alzira da "tasca do Ti-Zé", avantajada em todos os aspectos mais o da coscuvilhice, serve na rua arroz doce e água com gás, para matar a sede a uns e fazer arrotar os possuídos por Belzebu.

Era este o universo do povo da Aldeia, todos os verões mais as festividades natalícias ou o aniversário do Santo.

Quando da presença do Bispo, informou-se que até os porcos, vacas, galinhas e demais animais, deveriam dar 3 voltas à capela, começando pelo lado esquerdo onde batia o sol, sendo abençoados ao sétimo dia com lua nova.

Existe contudo uma sombra por trás do Padre Zé. Chama-se Sebastião. Padre Sebastião.
Patrono, Mestre, nobre de carácter sem ostentação, uma singela humildade, força e perseverança, um magnetismo único e indizível, uma bonança e candura, que nem a ciência conseguirá explicar.

Sentíamos-lhe asas transparentes e uma espécie de hibernação intocável na profundeza do olhar. Quando se cruzava o azul dele com o nosso, arrepiava-nos alma e coração.

As mulheres da Aldeia, são traves mestras das famílias, amparo das almas e porto de abrigo dos arremessos de má-furia de maridos desabrigados por traineiras nocturnas e furtivas.
São elas que carregam os pesos das casas, que estancam o sangue que corre pelas portadas e que evitam entradas de maléficas viroses. Benzem-se a elas, no azeite e adornam paredes com patas de coelho e elefantes com cús virados p´ra lua.

A vida corre branda e costumeira, alojando-se na memória as pedras arrumadas dos caminhos, o riacho que circula vagaroso, as veredas que se encostam umas nas outras e as árvores frondosas com ritmos de sombras harmoniosas, que fazem espairecer qualquer viajante.

Comi as sopas de feijão com couve, pão de milho, bacalhau com batatas a murro e bebi do tinto carrascão, enquanto dois marialvas poisavam versos românticos sobre regaços de moças encantadas.

Este local aprazível com a sua história enraizada no sobrenatural, Aldeia de setenta casas, com serões e noites de vindima, escapadelas no crepúsculo em toques de concertina, gaitas de fole e oboés, mantém a frescura do tijolo burro, a cal que se esboroa nos muros e uma festa de tradição, com benzeduras e vendas de artefactos, para que a vida terrena seja mais feliz, livre de tentações e a prosperidade aconteça, afastando os fantasmas do engulho.

Foi na sedução destes caminhos, destas gentes e destas romarias que me encontrei num olhar. Pelos vistos era assim há seculos...

1 comentário:

Anónimo disse...

Ler-te é como viver no local os episódios... ler este texto é estar lá e sentir o ambiente e o calor das pessoas.
Descobrir a tua escrita tem sido formidável, por diferente.
Continua.

MPC