24 outubro, 2008

Afasta as memórias desfeitas e apaga-as como beatas em cinzeiro de cristal.

Tira os "abat jours" do candeeiro que nos iluminou parte da vida e afasta de vez os retratos "à La Minute" que teimas em manter na cómoda século XVI que me estorva o olhar.

Vai tu e o cabotino do teu irmão, mais a noiva pendurada e a sogra a tiracolo, a arfar do coração que transporta pedras na veia cava superior, mais a vesícula que teima em não saltar.

Transporta as tuas memórias em cartão canelado por caixa de sapatos bicudos, como bicuda era a vida que me davas.

Se passares à minha porta, não pares, nem batas, muito menos telefona, que nesse espaço devo estar no sopro, pé- dentro- pé- fora, de uma cama de solteiro num auspício deslumbrante.

Que o vento me afague as membranas enquanto o sol acaricia a pele, procurando domesticar a minha atenção.

Farei de mim homem coragem, no meio de artroses confusas, cambaleando ternura em desejo manifesto de cama, enrolado em lençóis frios de cetim, enquanto te engasgas em mais uma dose de colagénio.

Esquecerei o teu cheiro, despindo de mim o pelo curto, e farei desencontrar as minhas horas com os teus minutos.

Leva o saco verde alface e enfia o gorro, e não tentes arranhar-me pedindo tréguas, acabando num salto de D. Quixote em Sancho Pança.

Deixa-me a mim com meus discursos, costas arqueadas de rasgos de vida, medindo forças entre aberturas de pernas tardias e beijos na capicua do teu interior.

Não venhas

Nem hoje, nem amanhã, nem o esquálido do teu irmão, o tio da França e o Avô vinhateiro.

Afasta o interesse sorrateiro do olhar e mede a distância entre a corda que esticas e as arestas que não medes.

Vigia-te por dentro e por fora, na vã esperança de um dia te sentires encontrar,
...por ti e para ti.

6 comentários:

Paula disse...
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Paula disse...

Deus! Que saudades!...

Que texto arrasador!
Que crueza amarga de termos pontiagudos, prontos a desferir golpes de conceitos sem piedade num cenário familiar de preconceitos que se auto alimentam em flagelação!

"Deixa-me a mim com meus discursos, costas arqueadas de rasgos de vida, medindo forças entre aberturas de pernas tardias e beijos na capicua do teu interior."

É tempo de voarem individualismos exacerbados e prevalecer apenas a transparência do amor.

Maria A disse...

UM RETRATO

Intenso, e sem leveza.
Incisivo, cortante e amargo. Assim se transforma a vida... às vezes. Longe do "querer", longe do "amar".

Maria

Estrela Cadente disse...

Querido Pedro, gostei muito do que li no eu blog.
Muito bom mesmo.
Fica uma beijoca e um bom fim-de-semana.

antonia disse...
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antonia disse...

Oi JP
Muito lindo!
E o livro? Vai demorar?
Abraços e ótimo domingo!