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A mostrar mensagens de Novembro, 2008

MEUS FANTASMAS DANÇARINOS

Já imaginei separar a raiz em dois.
Já tentei com a mais forte espada cortar tudo pelo caule.

O que nos surpreende negativamente a cada dia que passa por cada hora que vivemos.
Autênticos fantasmas dançarinos que nos envolvem com seus encantos.

Tenho alguma dificuldade em descodificar o tempo, tenho ausências de mim neste ruído que me povoa, como quando me liam pequenos contos de encantar, em que seres se movimentam em focos de luz intensa.

E na minha memória… o que deixo fugir, por este longe e aquele perto.

Uma alma que dança ao som de ritmos suaves, ritmos que se calam quando o meu respirar povoa espaços.
Por vezes sinto o eco das minhas palavras sós.
Uma sonoridade estranha que me entontece e que me faz percorrer calmamente o interior na busca de um sentido.
Um ponto de partida, um ponto de chegada e encruzilhadas enormes, curvas apertadas, rectas infindáveis e rotundas, muitas rotundas.

Esburaco sentimentos para encontrar o equilíbrio em mim.
Um puzzle confuso.
Mente, alma, coração, pel…
Estou com sono e de mau humor.
O tempo escurece-me a alma e não apaga o fogo.
Tomei um duche apressado entre o ensaboado e o meio olho aberto.
Comi um iogurte a correr, que de frio me arrefeceu a pele, dei duas voltas à chave com o canhão da fechadura meio zangado pela força imposta.

Cheguei ao café e com o “bom-dia” da praxe sorvi café curto para espevitar meninges e abanar esqueleto.

Cruzo-me no caminho até ao carro com gente resistente a socalcos primaveris, passo apressado, caras rezingonas e um inverno no olhar.
Chego ao consultório meio na lua, tem-te não caias e com um pé cá outro lá.

Às vezes duvido-me.
Sei dos "post-its" que me deixavas na ânsia e no desejo da procura, da vontade de te debicar e o cuidado excessivo no tratamento que te dava.
Atiras-me frases soltas como palavras cruzadas que pretendes entenda, e obrigas-me a penetrar-te memória para te vasculhar antiguidades que te povoam a espaços.

Sou mendigo de ti e tu solidão de mim.
Não me afastes mais.
Faz por te lembr…
Colecciono postais, fotos e lembranças das viagens que fiz e de lugares que me ocupam a memória.
Espaços que percorri, com neve e calor, com flores e frutos, sabores a vento e marés, trovoadas e céus brilhantes como um sonho de criança.

E comi belos nacos de prosa engalanados com tintos e brancos de paladar muito recomendável, em tascas com bancos de madeira corridos e guardanapos pendentes do pescoço.
Ensaiava uma expressão de regozijo quando sou bombardeado por dois mísseis teleguiados na minha direcção.

Olhei para ela num canto escuro da sala.
Vultos rondavam as mesas não deixando transparecer os ritmos da noite fria na tasca. Havia uma doçura incerta num doce completo sem queixume, numa promessa suave de tempos melhores.

Tinhas ar de sereia em paraíso divino.
Ergui ligeiramente o meu copo na vã esperança de que entendesses o meu olá, uma ligeira troca de olhares por palavras e um trago de vinho.
Aguardo, emendando palavras em mim e aquecendo o vinho.

E viravas-te vezes sem conta na d…
As luzes tinham sido amantes nas margens do rio, numa volúpia dançante com jeitos de bailarina.
O espelho de água reflectia cor, tempo, alma e desejo, devolvendo tudo como só o rio o faz.
O tempo, seco e distante não permitia avanços nem recuos.
Era assim e ali.... Só.

A noite era curta para a lassidão de um abraço apertado que te prometera faz tempo.
Escondi as mãos nas tuas costas e soprei-te para te vampirizar pescoço e coração.
O sangue que te percorria gelou, e fincaste unhas na minha direcção.
Interrompi respiração por um abraço. O rio gritou... as margens transbordaram.

As luzes, como néons brilharam mais e mais, fazendo com que a lua se envergonhasse de tanta cor.

Era colorida a noite e tu jazias nos meus braços, quente, intensa, num aconchego doce que inventei só para ti.
O meu coração é um espaço pequenino, não tem quartos requintados, nem salas, apenas espaços abertos.
Tenho cantos e recantos onde guardo recordações e sobressaltos que vêem aqui parar.

Por vezes apelo aos efeitos da anatomia.
Puxo o amor, afasto desencontros tristes com a alma e serenamente sacudo o pó das janelas.

O meu corpo ressente-se.
Não debito duas palavras e meia, tremo na escrita e cada golfada de ar, transforma-me num moinho de vento.
Fico tempestuoso, enjaulado, absorto, entre o náufrago de ideias e o cavaleiro de armadura na Távola Redonda.

Entro num ritmo frenético a quatro rodas, com luzes e piscas que me incendeiam o olhar e escuto palavras frias que me pedem sentimentos quentes, enquanto me basto e desbasto em ti.

Tento palavras polvilhadas sem parcimónia, portas abertas, e o espelho da vida na passagem do tempo, como sem nada na manga.
Fazes um esforço sublime, anaeróbico sobre o meu corpo num desejo de almas caídas em espaços vagos, como um corpo celeste que vagueia na imens…

CAPICUAS

Vivíamos em três quartos à beira-mar, com paredes caiadas de branco imaculado, como se do nosso palácio se tratasse.
Tocava-te em capicua, e o mar enrolava-nos por entre lençóis, enquanto as minhas mãos gemiam nas tuas e afagavam cabelos enamorados.

O mar fazia torneados de espuma, em línguas afiadas pelo corpo ardente de um desejo macio, suavemente dedilhado como acordes de guitarra portuguesa.

Os dedos dos nossos pés tocavam-se como noz escondida em figos desejosos de tempos de S. Martinho, castanha assada e copos de vinho.

A vadiagem da tua boca que persistia no lóbulo esquerdo, como quebrar de ondas na areia molhada, correndo ao encontro do verdadeiro oceano.

Três quartos e um sótão habitado por nós, tempestuoso renascer como naufrago exaurido, e tu a pores-me os pontos nos iii´s, em poses gramaticalmente erradas.

Tão inevitavelmente como a manhã adora o sol, como o teu peito um abraço e o fogo o calor em que se forja, procuro no espelho do teu rosto a minha alma.

Apeteces-me c…
Brinco contigo porque me vejo excessivamente preocupado, e formatizo, antecipando situações que nem sei existirem.
Conto-te os meus segredos mais íntimos e bebemos copos ao cair da noite, embriagando as ideias que temos, de saltar pé-cá, pé-lá em queda livre, como Ícaro de ocasião.

Brinco, porque desperdiço horas diante do espelho, com perseverança amorosa, pensando no sexo bestial que invento em coreografias por mim treinadas, qual Gary Cooper.

Brinco, com os teus dilemas, as tuas confusões e transfusões, numa fuga desenfreada sem porto nem norte.
Adormeces, corpo pousado entre imperiais e desventuras e olhas-me de soslaio com sorriso traquina e lanças… “E gajas pá?”…

E no entanto és mulher e amiga, numa roupagem de irmã, confidentes na penumbra e assaz perdidos num tempo que já não volta.

Topavas-me o embaraço pelo canto do olho e eu já te conhecia o jeito do nervoso miudinho quando tinhas presa debaixo de olho.

E anos e luas e ventos, marés, sortes e desgraças, as nuvens do Outono febril…

Flying Elephants Presents Part I

Desfrutem...

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