30 novembro, 2008

MEUS FANTASMAS DANÇARINOS





Já imaginei separar a raiz em dois.
Já tentei com a mais forte espada cortar tudo pelo caule.

O que nos surpreende negativamente a cada dia que passa por cada hora que vivemos.
Autênticos fantasmas dançarinos que nos envolvem com seus encantos.

Tenho alguma dificuldade em descodificar o tempo, tenho ausências de mim neste ruído que me povoa, como quando me liam pequenos contos de encantar, em que seres se movimentam em focos de luz intensa.

E na minha memória… o que deixo fugir, por este longe e aquele perto.

Uma alma que dança ao som de ritmos suaves, ritmos que se calam quando o meu respirar povoa espaços.
Por vezes sinto o eco das minhas palavras sós.
Uma sonoridade estranha que me entontece e que me faz percorrer calmamente o interior na busca de um sentido.
Um ponto de partida, um ponto de chegada e encruzilhadas enormes, curvas apertadas, rectas infindáveis e rotundas, muitas rotundas.

Esburaco sentimentos para encontrar o equilíbrio em mim.
Um puzzle confuso.
Mente, alma, coração, pele e corpo, ao mesmo tempo assustador de emoções e afectos.
São pianos tocados com teclas gastas de um tempo voraz e acordes em notas de sofrimento.
Como trovoadas, bátegas de chuva que caem incessantemente e que gosto de ouvir umas vezes sim, outras não.

E não me revejo em filmes feitos por medida, num marear sem ondulação nem porto de abrigo, indiferente à brisa que me rouba e leva longe a essência dos dias.

Na procura incessante da extensão palpável de carícias, ternuras e afectos que deveriam embalar os meus dias, todos os dias.

25 novembro, 2008





Estou com sono e de mau humor.
O tempo escurece-me a alma e não apaga o fogo.
Tomei um duche apressado entre o ensaboado e o meio olho aberto.
Comi um iogurte a correr, que de frio me arrefeceu a pele, dei duas voltas à chave com o canhão da fechadura meio zangado pela força imposta.

Cheguei ao café e com o “bom-dia” da praxe sorvi café curto para espevitar meninges e abanar esqueleto.

Cruzo-me no caminho até ao carro com gente resistente a socalcos primaveris, passo apressado, caras rezingonas e um inverno no olhar.
Chego ao consultório meio na lua, tem-te não caias e com um pé cá outro lá.

Às vezes duvido-me.
Sei dos "post-its" que me deixavas na ânsia e no desejo da procura, da vontade de te debicar e o cuidado excessivo no tratamento que te dava.
Atiras-me frases soltas como palavras cruzadas que pretendes entenda, e obrigas-me a penetrar-te memória para te vasculhar antiguidades que te povoam a espaços.

Sou mendigo de ti e tu solidão de mim.
Não me afastes mais.
Faz por te lembrar do meu corpo no abandono, na longitude cansado do teu, entre a liberdade das tuas noites e o resgate dos meus dias.

Acordei afastado de mim, rememorando diatribes nossas que nem sei se aconteceram. Vivo pendurado num misto de sonho e verdade.

Faço um esforço desmesurado, tenho tonturas e vivo entre a espada e a parede, enquanto compões o cabelo desgrenhado, franzindo o olhar numa recolecção de lembranças.

Estou quase lá, do lado direito da loucura na ponta do véu que se levanta para me escancarar portas e janelas e receituários médicos.

Desdobras-te em cuidados quando me debruço sobre varandins, na vã esperança de me saber engolir na voragem do tempo... esse engodo que nos entretém para a vida.

23 novembro, 2008




Colecciono postais, fotos e lembranças das viagens que fiz e de lugares que me ocupam a memória.
Espaços que percorri, com neve e calor, com flores e frutos, sabores a vento e marés, trovoadas e céus brilhantes como um sonho de criança.

E comi belos nacos de prosa engalanados com tintos e brancos de paladar muito recomendável, em tascas com bancos de madeira corridos e guardanapos pendentes do pescoço.
Ensaiava uma expressão de regozijo quando sou bombardeado por dois mísseis teleguiados na minha direcção.

Olhei para ela num canto escuro da sala.
Vultos rondavam as mesas não deixando transparecer os ritmos da noite fria na tasca. Havia uma doçura incerta num doce completo sem queixume, numa promessa suave de tempos melhores.

Tinhas ar de sereia em paraíso divino.
Ergui ligeiramente o meu copo na vã esperança de que entendesses o meu olá, uma ligeira troca de olhares por palavras e um trago de vinho.
Aguardo, emendando palavras em mim e aquecendo o vinho.

E viravas-te vezes sem conta na direcção da porta e perdias o teu no meu olhar enquanto os teus peitos simétricos dançavam boleros quentes em mim.
Sei que poderia ressuscitar em ti, no silêncio vagaroso das bocas que se desnudam em ritmos lúdicos

Se me aconchegasse os braços, nus das tuas mãos na minha pele, as tuas orelhas, os lábios carmesim, o teu lado esquerdo e o olho direito, a tua mão que gesticula no ar, talvez por mais um café, as partes que revejo entre sombras que te envolvem, como passantes sem nexo, e a tua mão que se estende em mim e que acarinho à distância...

...Pensei em três beijos, talvez dois…
… sou subitamente “acordado” por um “café p´rá mesa três e um bife do lombo para a seis…"

E tu lá continuas num informal despojo de ti num inebriante transtorno de mim, enquanto a conta chega e o tempo escassa…

Nessa altura o tempo parou, entrando num parêntesis de nada…!

22 novembro, 2008





As luzes tinham sido amantes nas margens do rio, numa volúpia dançante com jeitos de bailarina.
O espelho de água reflectia cor, tempo, alma e desejo, devolvendo tudo como só o rio o faz.
O tempo, seco e distante não permitia avanços nem recuos.
Era assim e ali.... Só.

A noite era curta para a lassidão de um abraço apertado que te prometera faz tempo.
Escondi as mãos nas tuas costas e soprei-te para te vampirizar pescoço e coração.
O sangue que te percorria gelou, e fincaste unhas na minha direcção.
Interrompi respiração por um abraço. O rio gritou... as margens transbordaram.

As luzes, como néons brilharam mais e mais, fazendo com que a lua se envergonhasse de tanta cor.

Era colorida a noite e tu jazias nos meus braços, quente, intensa, num aconchego doce que inventei só para ti.

18 novembro, 2008

O meu coração é um espaço pequenino, não tem quartos requintados, nem salas, apenas espaços abertos.
Tenho cantos e recantos onde guardo recordações e sobressaltos que vêem aqui parar.

Por vezes apelo aos efeitos da anatomia.
Puxo o amor, afasto desencontros tristes com a alma e serenamente sacudo o pó das janelas.

O meu corpo ressente-se.
Não debito duas palavras e meia, tremo na escrita e cada golfada de ar, transforma-me num moinho de vento.
Fico tempestuoso, enjaulado, absorto, entre o náufrago de ideias e o cavaleiro de armadura na Távola Redonda.

Entro num ritmo frenético a quatro rodas, com luzes e piscas que me incendeiam o olhar e escuto palavras frias que me pedem sentimentos quentes, enquanto me basto e desbasto em ti.

Tento palavras polvilhadas sem parcimónia, portas abertas, e o espelho da vida na passagem do tempo, como sem nada na manga.
Fazes um esforço sublime, anaeróbico sobre o meu corpo num desejo de almas caídas em espaços vagos, como um corpo celeste que vagueia na imensidão do espaço,

E bate devagar, compassado, em sessenta por minuto, mais coisa menos coisa, neste espaço pequenino, onde habitam, funcionários de qualquer multinacional de transporte do sangue e do oxigénio.

Valha-me deus que a coisa está preta e o meu corpo ressente-se.

Já não idealizo nem transformo duas palavras e meia por meia de frase, nem adorno pensamentos com flores e serpentinas.

Já não sei o tempo certo do tempo nem a duração do tempo certo, enquanto ele adormece cansado num batimento cadenciado, como relógio recheado de alquimias.

08 novembro, 2008

CAPICUAS




Vivíamos em três quartos à beira-mar, com paredes caiadas de branco imaculado, como se do nosso palácio se tratasse.
Tocava-te em capicua, e o mar enrolava-nos por entre lençóis, enquanto as minhas mãos gemiam nas tuas e afagavam cabelos enamorados.

O mar fazia torneados de espuma, em línguas afiadas pelo corpo ardente de um desejo macio, suavemente dedilhado como acordes de guitarra portuguesa.

Os dedos dos nossos pés tocavam-se como noz escondida em figos desejosos de tempos de S. Martinho, castanha assada e copos de vinho.

A vadiagem da tua boca que persistia no lóbulo esquerdo, como quebrar de ondas na areia molhada, correndo ao encontro do verdadeiro oceano.

Três quartos e um sótão habitado por nós, tempestuoso renascer como naufrago exaurido, e tu a pores-me os pontos nos iii´s, em poses gramaticalmente erradas.

Tão inevitavelmente como a manhã adora o sol, como o teu peito um abraço e o fogo o calor em que se forja, procuro no espelho do teu rosto a minha alma.

Apeteces-me como as sete cores do arco-íris num céu de Outono, em pautas de carinho num cobertor de sonho e fantasia.

E perdemo-nos nos gestos e nas palavras em teias que emaranham timbres no coração.

Tocava-te em capicua e perdíamo-nos em três quartos num sol de verão com nuvens roubadas ao vento, em traje camaleónico que te equipa a alma.

07 novembro, 2008

Brinco contigo porque me vejo excessivamente preocupado, e formatizo, antecipando situações que nem sei existirem.
Conto-te os meus segredos mais íntimos e bebemos copos ao cair da noite, embriagando as ideias que temos, de saltar pé-cá, pé-lá em queda livre, como Ícaro de ocasião.

Brinco, porque desperdiço horas diante do espelho, com perseverança amorosa, pensando no sexo bestial que invento em coreografias por mim treinadas, qual Gary Cooper.

Brinco, com os teus dilemas, as tuas confusões e transfusões, numa fuga desenfreada sem porto nem norte.
Adormeces, corpo pousado entre imperiais e desventuras e olhas-me de soslaio com sorriso traquina e lanças… “E gajas pá?”…

E no entanto és mulher e amiga, numa roupagem de irmã, confidentes na penumbra e assaz perdidos num tempo que já não volta.

Topavas-me o embaraço pelo canto do olho e eu já te conhecia o jeito do nervoso miudinho quando tinhas presa debaixo de olho.

E anos e luas e ventos, marés, sortes e desgraças, as nuvens do Outono febril colocaram-nos na fronteira de um abraço.
E naqueles breves segundos de aragens velhas embrulhadas em muros de betão, letreiros de Néon e um céu pesado como a barriga de um elefante cúmplice de vidas sincronizadas.

E vem uma ventania no teu olhar que varreu a minha memória da tua, corrido a perfume antigo.
Morreu-me o sorriso nos lábios, como uma porta fechada, e restos de lembranças esbatidas, por uma lassidão que te pendeu braços e te deslaça a mortalha do corpo franzino, porque te perdeste de ti.

E do tempo das procuras de girinos com fisgas penduradas em bolsos de ganga e promessas de envelhecimento tardio, a este embate curioso, sentimos a perda dos pontos cardeais em paixões mal resolvidas por entre segredos, e a vontade ébria de me roçar no canto esquerdo da tua boca.

Brinco de novo para dentro de mim e sorrio, porque me preencheste o milímetro quadrado no canto ao fundo do ventrículo esquerdo que chegava a doer como taquicardias flamejantes.