07 novembro, 2008

Brinco contigo porque me vejo excessivamente preocupado, e formatizo, antecipando situações que nem sei existirem.
Conto-te os meus segredos mais íntimos e bebemos copos ao cair da noite, embriagando as ideias que temos, de saltar pé-cá, pé-lá em queda livre, como Ícaro de ocasião.

Brinco, porque desperdiço horas diante do espelho, com perseverança amorosa, pensando no sexo bestial que invento em coreografias por mim treinadas, qual Gary Cooper.

Brinco, com os teus dilemas, as tuas confusões e transfusões, numa fuga desenfreada sem porto nem norte.
Adormeces, corpo pousado entre imperiais e desventuras e olhas-me de soslaio com sorriso traquina e lanças… “E gajas pá?”…

E no entanto és mulher e amiga, numa roupagem de irmã, confidentes na penumbra e assaz perdidos num tempo que já não volta.

Topavas-me o embaraço pelo canto do olho e eu já te conhecia o jeito do nervoso miudinho quando tinhas presa debaixo de olho.

E anos e luas e ventos, marés, sortes e desgraças, as nuvens do Outono febril colocaram-nos na fronteira de um abraço.
E naqueles breves segundos de aragens velhas embrulhadas em muros de betão, letreiros de Néon e um céu pesado como a barriga de um elefante cúmplice de vidas sincronizadas.

E vem uma ventania no teu olhar que varreu a minha memória da tua, corrido a perfume antigo.
Morreu-me o sorriso nos lábios, como uma porta fechada, e restos de lembranças esbatidas, por uma lassidão que te pendeu braços e te deslaça a mortalha do corpo franzino, porque te perdeste de ti.

E do tempo das procuras de girinos com fisgas penduradas em bolsos de ganga e promessas de envelhecimento tardio, a este embate curioso, sentimos a perda dos pontos cardeais em paixões mal resolvidas por entre segredos, e a vontade ébria de me roçar no canto esquerdo da tua boca.

Brinco de novo para dentro de mim e sorrio, porque me preencheste o milímetro quadrado no canto ao fundo do ventrículo esquerdo que chegava a doer como taquicardias flamejantes.

Sem comentários: