23 novembro, 2008




Colecciono postais, fotos e lembranças das viagens que fiz e de lugares que me ocupam a memória.
Espaços que percorri, com neve e calor, com flores e frutos, sabores a vento e marés, trovoadas e céus brilhantes como um sonho de criança.

E comi belos nacos de prosa engalanados com tintos e brancos de paladar muito recomendável, em tascas com bancos de madeira corridos e guardanapos pendentes do pescoço.
Ensaiava uma expressão de regozijo quando sou bombardeado por dois mísseis teleguiados na minha direcção.

Olhei para ela num canto escuro da sala.
Vultos rondavam as mesas não deixando transparecer os ritmos da noite fria na tasca. Havia uma doçura incerta num doce completo sem queixume, numa promessa suave de tempos melhores.

Tinhas ar de sereia em paraíso divino.
Ergui ligeiramente o meu copo na vã esperança de que entendesses o meu olá, uma ligeira troca de olhares por palavras e um trago de vinho.
Aguardo, emendando palavras em mim e aquecendo o vinho.

E viravas-te vezes sem conta na direcção da porta e perdias o teu no meu olhar enquanto os teus peitos simétricos dançavam boleros quentes em mim.
Sei que poderia ressuscitar em ti, no silêncio vagaroso das bocas que se desnudam em ritmos lúdicos

Se me aconchegasse os braços, nus das tuas mãos na minha pele, as tuas orelhas, os lábios carmesim, o teu lado esquerdo e o olho direito, a tua mão que gesticula no ar, talvez por mais um café, as partes que revejo entre sombras que te envolvem, como passantes sem nexo, e a tua mão que se estende em mim e que acarinho à distância...

...Pensei em três beijos, talvez dois…
… sou subitamente “acordado” por um “café p´rá mesa três e um bife do lombo para a seis…"

E tu lá continuas num informal despojo de ti num inebriante transtorno de mim, enquanto a conta chega e o tempo escassa…

Nessa altura o tempo parou, entrando num parêntesis de nada…!