25 novembro, 2008





Estou com sono e de mau humor.
O tempo escurece-me a alma e não apaga o fogo.
Tomei um duche apressado entre o ensaboado e o meio olho aberto.
Comi um iogurte a correr, que de frio me arrefeceu a pele, dei duas voltas à chave com o canhão da fechadura meio zangado pela força imposta.

Cheguei ao café e com o “bom-dia” da praxe sorvi café curto para espevitar meninges e abanar esqueleto.

Cruzo-me no caminho até ao carro com gente resistente a socalcos primaveris, passo apressado, caras rezingonas e um inverno no olhar.
Chego ao consultório meio na lua, tem-te não caias e com um pé cá outro lá.

Às vezes duvido-me.
Sei dos "post-its" que me deixavas na ânsia e no desejo da procura, da vontade de te debicar e o cuidado excessivo no tratamento que te dava.
Atiras-me frases soltas como palavras cruzadas que pretendes entenda, e obrigas-me a penetrar-te memória para te vasculhar antiguidades que te povoam a espaços.

Sou mendigo de ti e tu solidão de mim.
Não me afastes mais.
Faz por te lembrar do meu corpo no abandono, na longitude cansado do teu, entre a liberdade das tuas noites e o resgate dos meus dias.

Acordei afastado de mim, rememorando diatribes nossas que nem sei se aconteceram. Vivo pendurado num misto de sonho e verdade.

Faço um esforço desmesurado, tenho tonturas e vivo entre a espada e a parede, enquanto compões o cabelo desgrenhado, franzindo o olhar numa recolecção de lembranças.

Estou quase lá, do lado direito da loucura na ponta do véu que se levanta para me escancarar portas e janelas e receituários médicos.

Desdobras-te em cuidados quando me debruço sobre varandins, na vã esperança de me saber engolir na voragem do tempo... esse engodo que nos entretém para a vida.

3 comentários:

Paula disse...

Essa capacidade que tem de inventar cenários cinematográficos, enredos, anseios de almas, de empreender viagens mentais até ao mundo mais profundo de um ser humano... é de génio!

Anónimo disse...

Vá lá, quando é que esse livro é editado?...acho que já está muita gente à espera...

Beijinho

Cocas

JMFeijão disse...

Ó Zé,
esta música é das coisas mais bonitas dos últimos anos. Andava com vontade de por no meu blog mas antecipáste-te...
Ainda ponho um destes dias.
Vou começar a ler as tuas crónicas.
Abraço,

Jaime

http://pontadalanca.blogspot.com/