08 novembro, 2008

CAPICUAS




Vivíamos em três quartos à beira-mar, com paredes caiadas de branco imaculado, como se do nosso palácio se tratasse.
Tocava-te em capicua, e o mar enrolava-nos por entre lençóis, enquanto as minhas mãos gemiam nas tuas e afagavam cabelos enamorados.

O mar fazia torneados de espuma, em línguas afiadas pelo corpo ardente de um desejo macio, suavemente dedilhado como acordes de guitarra portuguesa.

Os dedos dos nossos pés tocavam-se como noz escondida em figos desejosos de tempos de S. Martinho, castanha assada e copos de vinho.

A vadiagem da tua boca que persistia no lóbulo esquerdo, como quebrar de ondas na areia molhada, correndo ao encontro do verdadeiro oceano.

Três quartos e um sótão habitado por nós, tempestuoso renascer como naufrago exaurido, e tu a pores-me os pontos nos iii´s, em poses gramaticalmente erradas.

Tão inevitavelmente como a manhã adora o sol, como o teu peito um abraço e o fogo o calor em que se forja, procuro no espelho do teu rosto a minha alma.

Apeteces-me como as sete cores do arco-íris num céu de Outono, em pautas de carinho num cobertor de sonho e fantasia.

E perdemo-nos nos gestos e nas palavras em teias que emaranham timbres no coração.

Tocava-te em capicua e perdíamo-nos em três quartos num sol de verão com nuvens roubadas ao vento, em traje camaleónico que te equipa a alma.

1 comentário:

cocas disse...

..."Apeteces-me como as sete cores do arco-íris num céu de Outono, em pautas de carinho num cobertor de sonho e fantasia."...
...pois, os teus textos é que apetecem...e muito...

Beijinho