31 dezembro, 2008

UM SEGREDO FECHADO




Quero ter de novo a minha Fada comigo.

A Fada do dentinho, da amizade, do carinho, da solidão, da alegria e desespero, do agora ou do depois, tanto faz.
Quero é a minha Fada de volta.

Devolvam-ma. Libertem-na.
Preciso dela. Das sua diatribes, dos conselhos, das cócegas no ouvido, dos murros na consciência, das partidas que me pregava.

Quando miúdo, os dias com ela eram uma azáfama de maluqueira.
Os meus amigos não acreditavam que eu tinha uma Fada, mas quando a invocava… zás….
Pózinhos de pirilim-pim-pim pelos ares e … zás….!... Ficavam atónitos de tanta magia.

Coloridos cobriam-nos. Mantos de sol e rasgadas cores destapavam o chão e voávamos para bem longe… até onde a imaginação permitia.

Hoje é tudo plástico.
Pessoas plásticas, atitudes plastificadas, cartões de plástico, sorrisos plásticos, corpos de plástico.

Já não se faz magia.

Da minha Fada, não guardo muros de vergonha, nem curvas traiçoeiras, cínismos ou tratos de polé.
Suavizava com alegria, amaciava o coração, debitava palavras de ânimo e compreensão, que uniam o que o silêncio afastava.

A minha Fada, sabia-me das dores, dos vazios, das feridas que lambia como curandeiro afectivo, e que ela reconhecia como intimo desejo de me resolver.

Era linda a Fada.
Sardas que condiziam com a cor do cabelo, uma ligeira covinha no cantinho da boca, um sorriso milimetricamente desenhado e um olhar de sereia.

Se me perguntassem o que queria… respondia…. Que queria a minha Fada de volta.
Para o meu ombro, o meu aconchego, mesmo com poucos poderes.

Talvez ainda consiga resgatar do meu antigo quarto, no baú das recordações, a varinha e a tiara do cabelo.

Caso consiga e ela desperte…

Será um segredo fechado.

29 dezembro, 2008



















Hoje da minha janela vejo a cidade, o rio colorido com embarcações desassossegadas,
o vinte sete que já não passa, um corredor de bicicletas, e o cambalear dos bêbedos.

Do jardim, vejo o abraçar do fim do dia e de mãos dadas com a noite abraço a madrugada.
Ainda canta a música atrás de mim e o cheiro das rosas que espreitam por entre o relvado que se espraia pela casa.

A ponte engalanada pelo fim de ano na espera do fogo de artificio que se lança em beijos e esboços de corpos, arrastados pelo tudo… ou pelo nada.

Ao cair da noite, o sopro de paixão e a brisa que se apaga num sopro... como a paixão.

Hoje na cidade abandonada de dias envoltos em nuvens de pó, sombrias, conheço as viagens do silêncio. Viagens de circum-navegação por ti, dias a fio, noites infinitas.
E fico ancorado em mim enquanto o teu corpo desce ao cais do desejo.

E de novo a cidade que respira em céu aberto com luz difusa, como silêncios.
Os meus silêncios, vazios, abismos absurdos.

E leio junto à lareira. Um pomar pela vidraça, o apito do comboio na encruzilhada em que se move. Duas linhas, uma, troca de linha, estação, apeadeiro, destino.

O nosso destino no apito de um comboio. A partida e a chegada.
A música que canta atrás de mim, e o cheiro das flores a envolver um abraço na madrugada, enquanto corpos se enlaçam, enredados.

22 dezembro, 2008







Queria resistir, mas fazias-me perder o norte.
Esforçava-me, juro que me esforçava mas paralisava, incerto modo de reagir perante futuro sem vislumbre.

Era noite fria de solidão, um espaço ténue entre ele e a razão.
Tentava em esforço balbuciar palavra, fruto do desejo e sentimento, que fizesse voltar atrás, aos seus braços.

Ainda me percorre a alma e agita o coração em constantes atropelos e labaredas incessantes.
Flutua alegre, não me sai do corpo, beija-me a pele.

Atiça-me como vulcão e esbanja memórias perdidas em mim.
Despe-me com intensidade, cruza-me o olhar e enrola-se entre os dedos.

Fragância suave, envolvente, caprichoso, doce.

Derrama sonetos com canela e suavidade de toque, este
... perfume que me invade.

20 dezembro, 2008

FELIZ NATAL



















Agarra-te a eles na consoada.

Dá-lhes aletria, filhós, rabanadas. Aconchega-os no peito e adoça-lhes
a alma e aquece o coração.

Que não resistam aos teus nem aos mimos dos outros.
Que sejam solidários e capazes, que saltem e brinquem.

Que aguardem pelo Pai Natal, (quem sabe ele chega finalmente), de barba branca, rosadinho e gordito como manda a tradição.

Cuidado com as gomas e o açúcar nos dentes mais o presépio que o musgo seca.
Se os vires agitados pela manhã de 25 na ânsia do sapatinho, enrosca-te com eles na cama e conta-lhes historias de fadas e duendes e príncipes cavaleiros com donzelas a dorsel.

Dá-lhes o canto e um canto, mais a bota e a bola, o chocolate e a cana de pesca.
Não lhes mostres o odioso, nem o assombro, qual inquietação em corações pequeninos.

Na noite do bacalhau e do peru, afasta-lhes as espinhas e o encolho, na direcção do aperto, que o coração está quente e a saudade aperta.
Parte o bolo-rei, e canta-lhe parabéns pois estamos a 24 e ele festeja neste dia.

Não se cheguem à lareira, e aquietem-se de melancolias engalanadas em prendas de laçarotes afivelados.
Escrevam amiúde pedidos e desejos em cartões de boas festas com votos desenhados a relevo.

Neste tempo de espaço perdido no tempo da vida, aperto o cachecol e relembro com paixão e inquieta angustia a consoada em família, quando menino.

Coloco-me na distância exacta do escrito atrás, e povoo pensamentos de épocas longínquas, como figurante e narrador simultâneo.

Um abraço e um beijo engalanado num barrete vermelho e renas saltitantes, com sacos repletos de prendas coloridas que vos aqueçam o coração e vos faça vida mais feliz com saúde a rodos.

FELIZ NATAL

JP

O bilhete














Escrevi-te um bilhete. O ultimo.
Tenho dentro do meu peito um cenário de guerra.
Angustia, inquietação, saudade, medo, ansiedade.
Bulldozers e empilhadoras arrasam-me o bafiento sentido das minhas veias escavadas pelo sangue que gelou na altura da partida.
O ultimo bilhete.

Atravessei campos de batalha, escalei grades nos cenários mais recônditos,
formulei desejos de vingança, apostei cara contra coroa, perdi e ganhei, voltei a perder.
Sufoquei.
Arrastei-me por veredas e caminhos sinuosos, num interior desfeito de amargura, sem luz nem direcção.
O ultimo bilhete.

Sem comiseração, sem drama nem angustia, qual quimera, sem jeito nem despeito nem dor.
A lança que trespassou o medo, a boca do leão no rugido final.
O ultimo bilhete como recado, estalo denso e grotesco.
Aquele que te lançou no panteão negro dos caídos.

19 dezembro, 2008

Melodia






Vou-te aprendendo a letra, ritmo e melodia.
Quando já te sei trautear, ficas-me presa na boca, nos ouvidos e no corpo.
Tens som.

Palpitas arrítmica como um baterista e agarramos arcos de violino como trompetes desafinadas.
Aprendo-te sem pauta.
Cantas-me ao coração e assaltas-me a alma como “” maior por “” menor.
Tens música.

Afinas e desafinas o teu com o meu cuidado.
Solfejas com lábios doces regados a pedaços de morango e teclas a espaços entre as brancas e as pretas nos intervalos de mim.
Já te sei ritmo e melodia, a letra vou aprendendo entre acordes e suspiros de uma guitarra.

Compões em “”, espreitas-me em “Sol” e terminas num “”, “Mi”, “”.
Vou-te afinando as cordas do coração, enquanto Oboés, Xilofones e Tambores, percorrem as veias sanguíneas na imensidão do espaço que te habita numa completa Obra Musical.

A tua “Sonata” em mim.

13 dezembro, 2008












Uma rua de cidade.

Igrejas sem fiéis, cafés carregados de fumo e uma visibilidade a três quartos.
Motéis esquisitos para encontros rápidos e a mercearia de esquina onde se vende “um quartilho”, meio pão e um pastel de bacalhau.
Três homens encostados ao balcão debicam quase nada.

Toma-os pouco a pouco a turbulência no Douro, gaivotas que se envolvem no sonho das águas e pescadores com canas no encalço do engodo.

Caminhos de quem não olha nem sente, numa fugaz passagem para qualquer lado.

Gente que filtra outra gente, e duas voltas na chave, uma tranca na porta, um deslizar de ferrolho.

Fazem silêncios de alma, retiram-se da frente e colocam-se à margem.
Muitas das vezes, sobrevivência, quantas vezes, solidão.
Equilíbrio mantido por extremos, um lado de sombra na procura da felicidade... a eterna procura.

Aliviam cargas das memórias e sacodem o fardo das cicatrizes.
Bebericam “minis” como máximo, enjeitam trabalho e sacodem meio bairro com violência doméstica.

Calcorreiam a Cordoaria, deambulam na Ribeira e trocam saquinhos da branca no mercado, com vista retorcida num céu sem dono.

São equilibristas sem corpo, mascarados sem dentes, amarfanhados por cortinas de inverno numa embriaguez precoce.

Uma falha na calçada, roupa estendida no beiral, e uma meia porta entreaberta.
Gente sem margem, compondo ossos desalinhados e um olhar de relance no baú da memória onde repousam silenciosas imagens a preto e branco

10 dezembro, 2008

Memória...

Vivias numa geometria perfeita de enganos como todos e qualquer um de nós.
Tinhas a perfeição dos predestinados e em aguarelas luminosas espraiavas toda a convicção que mostravas ter, e a leitura que fazias da vida e do mundo que nos engole.

Sombras chinesas pairavam aqui e ali entremeadas por belas luas, desenhadas por anjos de neve.
A tua vida era preenchida por constelações inteiras de amor pelos teus anjos sagrados.

Nuvens de fumo povoavam metros quadrados de talento, e as telas apareciam com contornos de cordilheiras, imagens desemparelhadas, volúpia de ombros tensos, e madrugadas espreitando gulosas por pálpebras semicerradas.

Tínhamos falado de obras por lançar e ritmos de trabalho alucinantes interrompidos a três quartos, depois pela metade, mais tarde por inteiro.
Pintava um, escrevia outro, outros mais falariam e o legado ficava para as nossas constelações estreladas.

Estes golpes de sabre, desferidos pela “puta da vida”, manto negro que nos ensombra, e que nos faz reflectir sobre as eternas correrias, e “se” ou “o que” vale a pena.

Agora que só nos resta a memória urge preservá-la.
Misturar passado com história, presente com serenos futuros e árvores que se continuarão a plantar, dando assim continuidade a novos ramos, novas folhas.

Uma serenidade absoluta que nos deixas, no intervalo da confusão dos dias úteis.
Estes, sem duvida, os mais úteis de todos, aqueles em que nos cruzávamos com as nossas crianças, as constelações estreladas que seguirão o seu rumo.

Eu por mim, preservo a memória dos momentos, das conversas tertúlianas, deste livro que não chegamos a compor e de quando comprávamos o jornal na hora certa do dia certo na “Teresa dos Jornais”.

Até sempre.

Taraio, pintor, recentemente falecido.