Mensagens

A mostrar mensagens de Dezembro, 2008

UM SEGREDO FECHADO

Quero ter de novo a minha Fada comigo.

A Fada do dentinho, da amizade, do carinho, da solidão, da alegria e desespero, do agora ou do depois, tanto faz.
Quero é a minha Fada de volta.

Devolvam-ma. Libertem-na.
Preciso dela. Das sua diatribes, dos conselhos, das cócegas no ouvido, dos murros na consciência, das partidas que me pregava.

Quando miúdo, os dias com ela eram uma azáfama de maluqueira.
Os meus amigos não acreditavam que eu tinha uma Fada, mas quando a invocava… zás….
Pózinhos de pirilim-pim-pim pelos ares e … zás….!... Ficavam atónitos de tanta magia.

Coloridos cobriam-nos. Mantos de sol e rasgadas cores destapavam o chão e voávamos para bem longe… até onde a imaginação permitia.

Hoje é tudo plástico.
Pessoas plásticas, atitudes plastificadas, cartões de plástico, sorrisos plásticos, corpos de plástico.

Já não se faz magia.

Da minha Fada, não guardo muros de vergonha, nem curvas traiçoeiras, cínismos ou tratos de polé.
Suavizava com alegria, amaciava o coração, debitava palavras de ânimo…
Imagem
Hoje da minha janela vejo a cidade, o rio colorido com embarcações desassossegadas,
o vinte sete que já não passa, um corredor de bicicletas, e o cambalear dos bêbedos.

Do jardim, vejo o abraçar do fim do dia e de mãos dadas com a noite abraço a madrugada.
Ainda canta a música atrás de mim e o cheiro das rosas que espreitam por entre o relvado que se espraia pela casa.

A ponte engalanada pelo fim de ano na espera do fogo de artificio que se lança em beijos e esboços de corpos, arrastados pelo tudo… ou pelo nada.

Ao cair da noite, o sopro de paixão e a brisa que se apaga num sopro... como a paixão.

Hoje na cidade abandonada de dias envoltos em nuvens de pó, sombrias, conheço as viagens do silêncio. Viagens de circum-navegação por ti, dias a fio, noites infinitas.
E fico ancorado em mim enquanto o teu corpo desce ao cais do desejo.

E de novo a cidade que respira em céu aberto com luz difusa, como silêncios.
Os meus silêncios, vazios, abismos absurdos.

E leio junto à lareira. Um pomar pela vid…
Imagem
Queria resistir, mas fazias-me perder o norte.
Esforçava-me, juro que me esforçava mas paralisava, incerto modo de reagir perante futuro sem vislumbre.

Era noite fria de solidão, um espaço ténue entre ele e a razão.
Tentava em esforço balbuciar palavra, fruto do desejo e sentimento, que fizesse voltar atrás, aos seus braços.

Ainda me percorre a alma e agita o coração em constantes atropelos e labaredas incessantes.
Flutua alegre, não me sai do corpo, beija-me a pele.

Atiça-me como vulcão e esbanja memórias perdidas em mim.
Despe-me com intensidade, cruza-me o olhar e enrola-se entre os dedos.

Fragância suave, envolvente, caprichoso, doce.

Derrama sonetos com canela e suavidade de toque, este
... perfume que me invade.

FELIZ NATAL

Imagem
Agarra-te a eles na consoada.

Dá-lhes aletria, filhós, rabanadas. Aconchega-os no peito e adoça-lhes
a alma e aquece o coração.

Que não resistam aos teus nem aos mimos dos outros.
Que sejam solidários e capazes, que saltem e brinquem.

Que aguardem pelo Pai Natal, (quem sabe ele chega finalmente), de barba branca, rosadinho e gordito como manda a tradição.

Cuidado com as gomas e o açúcar nos dentes mais o presépio que o musgo seca.
Se os vires agitados pela manhã de 25 na ânsia do sapatinho, enrosca-te com eles na cama e conta-lhes historias de fadas e duendes e príncipes cavaleiros com donzelas a dorsel.

Dá-lhes o canto e um canto, mais a bota e a bola, o chocolate e a cana de pesca.
Não lhes mostres o odioso, nem o assombro, qual inquietação em corações pequeninos.

Na noite do bacalhau e do peru, afasta-lhes as espinhas e o encolho, na direcção do aperto, que o coração está quente e a saudade aperta.
Parte o bolo-rei, e canta-lhe parabéns pois estamos a 24 e ele festeja neste dia…

O bilhete

Imagem
Escrevi-te um bilhete. O ultimo.
Tenho dentro do meu peito um cenário de guerra.
Angustia, inquietação, saudade, medo, ansiedade.
Bulldozers e empilhadoras arrasam-me o bafiento sentido das minhas veias escavadas pelo sangue que gelou na altura da partida.
O ultimo bilhete.

Atravessei campos de batalha, escalei grades nos cenários mais recônditos,
formulei desejos de vingança, apostei cara contra coroa, perdi e ganhei, voltei a perder.
Sufoquei.
Arrastei-me por veredas e caminhos sinuosos, num interior desfeito de amargura, sem luz nem direcção.
O ultimo bilhete.

Sem comiseração, sem drama nem angustia, qual quimera, sem jeito nem despeito nem dor.
A lança que trespassou o medo, a boca do leão no rugido final.
O ultimo bilhete como recado, estalo denso e grotesco.
Aquele que te lançou no panteão negro dos caídos.

Melodia

Vou-te aprendendo a letra, ritmo e melodia.
Quando já te sei trautear, ficas-me presa na boca, nos ouvidos e no corpo.
Tens som.

Palpitas arrítmica como um baterista e agarramos arcos de violino como trompetes desafinadas.
Aprendo-te sem pauta.
Cantas-me ao coração e assaltas-me a alma como “” maior por “” menor.
Tens música.

Afinas e desafinas o teu com o meu cuidado.
Solfejas com lábios doces regados a pedaços de morango e teclas a espaços entre as brancas e as pretas nos intervalos de mim.
Já te sei ritmo e melodia, a letra vou aprendendo entre acordes e suspiros de uma guitarra.

Compões em “”, espreitas-me em “Sol” e terminas num “”, “Mi”, “”.
Vou-te afinando as cordas do coração, enquanto Oboés, Xilofones e Tambores, percorrem as veias sanguíneas na imensidão do espaço que te habita numa completa Obra Musical.

A tua “Sonata” em mim.
Imagem
Uma rua de cidade.

Igrejas sem fiéis, cafés carregados de fumo e uma visibilidade a três quartos.
Motéis esquisitos para encontros rápidos e a mercearia de esquina onde se vende “um quartilho”, meio pão e um pastel de bacalhau.
Três homens encostados ao balcão debicam quase nada.

Toma-os pouco a pouco a turbulência no Douro, gaivotas que se envolvem no sonho das águas e pescadores com canas no encalço do engodo.

Caminhos de quem não olha nem sente, numa fugaz passagem para qualquer lado.

Gente que filtra outra gente, e duas voltas na chave, uma tranca na porta, um deslizar de ferrolho.

Fazem silêncios de alma, retiram-se da frente e colocam-se à margem.
Muitas das vezes, sobrevivência, quantas vezes, solidão.
Equilíbrio mantido por extremos, um lado de sombra na procura da felicidade... a eterna procura.

Aliviam cargas das memórias e sacodem o fardo das cicatrizes.
Bebericam “minis” como máximo, enjeitam trabalho e sacodem meio bairro com violência doméstica.

Calcorreiam a Cordoaria, deambulam …

Memória...

Vivias numa geometria perfeita de enganos como todos e qualquer um de nós.
Tinhas a perfeição dos predestinados e em aguarelas luminosas espraiavas toda a convicção que mostravas ter, e a leitura que fazias da vida e do mundo que nos engole.

Sombras chinesas pairavam aqui e ali entremeadas por belas luas, desenhadas por anjos de neve.
A tua vida era preenchida por constelações inteiras de amor pelos teus anjos sagrados.

Nuvens de fumo povoavam metros quadrados de talento, e as telas apareciam com contornos de cordilheiras, imagens desemparelhadas, volúpia de ombros tensos, e madrugadas espreitando gulosas por pálpebras semicerradas.

Tínhamos falado de obras por lançar e ritmos de trabalho alucinantes interrompidos a três quartos, depois pela metade, mais tarde por inteiro.
Pintava um, escrevia outro, outros mais falariam e o legado ficava para as nossas constelações estreladas.

Estes golpes de sabre, desferidos pela “puta da vida”, manto negro que nos ensombra, e que nos faz reflectir sobr…