20 dezembro, 2008

O bilhete














Escrevi-te um bilhete. O ultimo.
Tenho dentro do meu peito um cenário de guerra.
Angustia, inquietação, saudade, medo, ansiedade.
Bulldozers e empilhadoras arrasam-me o bafiento sentido das minhas veias escavadas pelo sangue que gelou na altura da partida.
O ultimo bilhete.

Atravessei campos de batalha, escalei grades nos cenários mais recônditos,
formulei desejos de vingança, apostei cara contra coroa, perdi e ganhei, voltei a perder.
Sufoquei.
Arrastei-me por veredas e caminhos sinuosos, num interior desfeito de amargura, sem luz nem direcção.
O ultimo bilhete.

Sem comiseração, sem drama nem angustia, qual quimera, sem jeito nem despeito nem dor.
A lança que trespassou o medo, a boca do leão no rugido final.
O ultimo bilhete como recado, estalo denso e grotesco.
Aquele que te lançou no panteão negro dos caídos.

1 comentário:

Nani disse...

Tão definitivo ...