13 dezembro, 2008












Uma rua de cidade.

Igrejas sem fiéis, cafés carregados de fumo e uma visibilidade a três quartos.
Motéis esquisitos para encontros rápidos e a mercearia de esquina onde se vende “um quartilho”, meio pão e um pastel de bacalhau.
Três homens encostados ao balcão debicam quase nada.

Toma-os pouco a pouco a turbulência no Douro, gaivotas que se envolvem no sonho das águas e pescadores com canas no encalço do engodo.

Caminhos de quem não olha nem sente, numa fugaz passagem para qualquer lado.

Gente que filtra outra gente, e duas voltas na chave, uma tranca na porta, um deslizar de ferrolho.

Fazem silêncios de alma, retiram-se da frente e colocam-se à margem.
Muitas das vezes, sobrevivência, quantas vezes, solidão.
Equilíbrio mantido por extremos, um lado de sombra na procura da felicidade... a eterna procura.

Aliviam cargas das memórias e sacodem o fardo das cicatrizes.
Bebericam “minis” como máximo, enjeitam trabalho e sacodem meio bairro com violência doméstica.

Calcorreiam a Cordoaria, deambulam na Ribeira e trocam saquinhos da branca no mercado, com vista retorcida num céu sem dono.

São equilibristas sem corpo, mascarados sem dentes, amarfanhados por cortinas de inverno numa embriaguez precoce.

Uma falha na calçada, roupa estendida no beiral, e uma meia porta entreaberta.
Gente sem margem, compondo ossos desalinhados e um olhar de relance no baú da memória onde repousam silenciosas imagens a preto e branco

3 comentários:

tcl disse...

bom retrato este

Paula disse...

Sublime a descrição do ambiente do Porto,das gentes e dos sentires...
A procura da felicidade parece ser a bússola que nos orienta...mas quantas vezes nos leva por falsos caminhos!

Nani disse...

Cafés carregados de fumo ...onde? onde? que saudades de um cigarro sentada... :P