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A mostrar mensagens de 2009

Tanto ou quase nada...!

Tanto ou quase nada


Quantas vezes escrevo sem te escrever, por outras em que te vejo sem te olhar.
E quantas vezes um abraço um afago e o peito que me estala.
Saber dos meus olhos escuros que se espreitares consegues ler.

Vou desarrumando o passado e despenteando o presente e escrevo porque me apetece implodir, esquartejando o edifício das palavras, as frases e as pontuações, parágrafos imensos.
Caminho nelas inconsciente ou semi-cego.

Ensarilho os meus sentimentos com recordações e visões pessoalissimas das coisas.
Coisas tão minhas, coisas tão próprias. Conduzir, correr, ser abanado pela brisa marítima e sorrir, a adrenalina e a análise das expressões, os gestos e as feições, à laia de quem procura um dente são no labirinto de uma boca.

Os toques nas coisas, as pequenas coisas ou pequenos nadas.
Gosto de te ver e sentir nos pontos cardeais, preenchendo o milímetro quadrado por um quarto de meio metro de lado.
Um final de tarde de cor alaranjado ou arroxeado ou simplesmente um fin…

Um dia, beijo-te a meio de uma frase...!

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Um dia, beijo-te a meio de uma frase...


E é nestas teias de palavras que me solto, que sou mais "eu".

E escrevo nos gestos intimos dos meus sonhos, na alegria que sobra depois de arrastada a dor.

Mudou a hora

Independentemente disso, nada mais mudou. As mesmas caras, as mesmas casas, as luzes dos candeeiros toscos, os riscos do meu carro estacionado cem metros à frente.

A tua sombra pensada por mim inebriando os sentidos.

Um dia, beijo-te a meio de uma frase...

A voz que oiço, a tua voz que me canta, num açoite de memória. Quem diria que apenas uma voz pela calada da noite, tomando formas e gestos de fada.

Mudou a hora e nada mais...

Já passaram quinze minutos desde que comecei e apenas a voz, mais a minha caligrafia paciente de monge copista.

Um carreirinho de carros na direcção da Foz, o "Sétima Vaga" com esplanada aberta e um cenário de luz e cor.

Ris comigo, e eu gosto de "te rir", apesar das amarras que te esventram a casa e escancaram janelas e …

Já me sinto muito grande para este corpo...!

Katie Melua

Já me sinto muito grande para este corpo, ou será a alma que se quer desprender?

Oiço longe o meu grito, e ele chega-me como "boomerang" em ondas aflitas.

Dobro a esquina neste empedrado que me amortece a alma, para fugir dele, mas acabo por o devorar no medo das noites silenciosas, sonhando sombras de rebuçados coloridos.

Baloiças suavemente por dentro de mim, como um brinquedo guardado na imaginação fértil que te povoa.

E é Novembro, e afinal tu não estás aqui.
Mentiste mais uma vez, preferindo mil vezes mais, viver na sombra do que em mim.

Já me sinto muito grande para este corpo e sinto a alma a desprender.

Cicatrizo as feridas abertas lambendo-as até à exaustão. Tenho a vida feita pânico com a tua ausência.
A minha língua forrada de palavras mas a boca adormecida. Eu não falo e tu não brincas baloiçando por dentro do meu corpo jovem que te ampara o desassossego.

Empecilhas-me o tédio e alteras inesperadamente a química do meu organismo, qual medicamento toma…

PALAVRAS RABISCADAS

Queen - Bohemian Rhapsody


Prendes-te com atilhos e laços nos rebordos de mim e não desatas nós, nem por sombras...
Escreves papelinhos coloridos que espalhas pelos meus bolsos e desenhos vários colados com pedaços de baton nos espelhos em que me vejo.

Pintas com tinta da china e pastel, enrolas-te em telas açucaradas e deixas que te prove às colheradas.
Alinhas o teu no meu corpo e defines fronteiras de sabor em lábios sedentos de paixão.

Sorris nervosa a cada pedaço meu por cada pedaço teu e não te cansas quando te conduzes no meu olhar

Congelo memórias de sorrisos timidos na parcimónia quando te deitas em mim... e era eu o teu local de culto, o teu espaço preferido, faça chuva ou faça sol.

Afrouxo-te os impetos que considero desiguais e devoro a distância entre nós.
E todo eu pintor, todo eu arquitecto, todo eu engenheiro, contorno cordilheiras, cobrindo-te de papel cavalinho ou folhas A-4, como anjos disfarçados na neve.

Reconheço-te em sorrisos, discursos fluentes, em paradigmas …

5 revelações

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A Paula  do "Modos de Olhar" invadiu-me o espaço com o desafio de completar as 5 frases que se seguem...

Eu já tive... a ideia de que andava tudo louco, e ainda não perdi a esperança disso ser verdade... (lol)

Eu nunca... mais alinho nestas coisas... (lol)

Eu sei... que mais vale tarde que nunca, que a verdade vem sempre acima como o azeite, que confio demais nas pessoas e que me gasto em coisas que sei não valerem o esforço.

Eu quero ...ver os meus filhos bem, felizes e com saude, e homens bem formados .

Eu sonho ... com um mundo sem falsidades, sem cinismo, sem guerra e sem fome, e mais tolerante ... (sei que estou a pedir o impossivel... mas quem sabe se forçando...lol )


E... segundo diz, tenho que passar a 10, e estes valem a pena ...!
searas de versos

falamos depois sff

as nove no meu blogue

um toque

delirios-e-devaneios

angelblue

viver outra vez

tanto de mim

thepassarocaknowsbest

Diabinhos fora

De novo Natal

Amy Macdonald - This Is The Life (Buenafuente)


E já me revejo no Natal.
O sapatinho de há quarenta anos no fogão, enquanto o senhor das barbas descia embrulhos vistosos pela boca da chaminé.
Brinquedos com chocolates dentro, como o meu pai adorava fazer.

Esta coisa do Natal outra vez. A data em si.
Eu Capricórnio, o meu pai também, aniversários próximos, o seu desaparecimento e o de minha mãe por esta altura, e a época, mais as luzinhas e os santinhos e os abracinhos e um "feliz natal" despido, prendinhas disto e daquilo, mais embrulhos e lacinhos, mais os que olham de lado rosnando... "festas felizes"...
...uma porra é que é.

E neste tempo, uma cadela com cio, frutos das árvores que apodrecem e os gulosos dos cães em fila.
A cadela vaporosa e saltitante com um corrupio de latidos e amantes ou clientes ou apenas conhecidos, de passagem... que amansam a fera.

E o frio que não chega, a chuva que tarda e um Novembro que adivinha pandemia de gripe e o texto …

Rastos de gente por aí...!

O esqueleto de alguém que anda.
Esse corpo e alguém com ele.
Vou ter de entender isto...

Talvez janelas repletas de fantasmas que vão soltando por aí.
Saem do corpo, deixando-os pendurados – Vão chatear outro...

Permanecem em silêncio no meio dos silêncios. Talvez também fantasmas silenciosos.
Acham estranho… – Vão chatear outro...

Ela tão magra que os dentes lhe sobejam no sorriso, e as sete partidas de Lisboa vistas da ponte, luz e cor, vidas soltas, amarras de amantes em cacilheiros vadios.

Tragam-me serenidade em vez de bife do lombo, serenidade bem passada como o bife.
E a nostalgia das horas aqui e ali.

Rastos de gente entupida de ansíoliticos e anti-depressivos até ao “cocuruto”.
Esta palavra estranha a lembrar-me música bem mexida, solta e fresca, rastos de gente, cadáveres ambulantes a pedirem mais dança, mais corpo, mais amantes amarrados menos soporíferos.

Um cego na procura de sombra, uma luz ténue, um tactear na busca de caminho.
E sei dos teus olhos e do que não vês, …

A minha professora (psora!)

A minha professora primária, com uns braços nus, perna lengosa, apetitosa, peito firme de mulher quente e eu a gaguejar os rios, caminhos de ferro e cordilheiras.
Angola, Moçambique, Guiné, tudo na ponta da língua e o orgulho dela que inchava, e eu pasmado, trocando os afluentes.

As serras e as cercanias e as meias de vidro que ajeitava na barriga da perna, torneava a anca, o lápis que caía e um roçar de mãos na pele e o comboio que entra no rio, Angola que desagua em Espanha e nem uma planície quanto mais uma montanha.

Eu a segurar cotovelo na mesa, mão em concha na cara que repousa e um olhar difuso.
Ali, entre o ontem e o “qualquer-dia”.
Duas filas atrás de mim, o “Zafra” que relincha palavras sem nexo com sotaque acentuado do Porto.

Bandos de pássaros que circulam entre o telhado da escola e o alpendre próximo. Eu que os vejo e oiço do outro lado, vou desvanecendo o pensamento nela.

A minha “Psora” tamborilava os dedos na secretária vazia por trás de uma boca carmesim.
Vincos s…
O teu calor que me coze o frio na barriga.
As copas das árvores e eu a sorver-te num fôlego e tu a escorregar por dentro de mim.
Gosto de te ter assim na minha boca… adocicada.

Existe em mim este semblante de tristeza que se reflecte como “néons” no escuro da vida.

E os teus espasmos em mim, e as minhas mãos enregeladas, curvadas, torcidas e retorcidas, enquanto desces na direcção do esófago.

Engoli-te como seria desejável entre as dez e as onze, para morrermos assim, enquanto te espalhas como ramos secos nas intersecções dos meus órgãos.

E o passado. Excesso de passado em ti, agora que te transportas em mim.

Aquele jeito de Princesa, feita boneca de porcelana com tiques firmes a adornar o cigarro.
Baforadas e gestos largos e sublimes a tocar os lábios depois da fumaça.

E um toque mais. Outro toque, e eu lânguido, absorvido pelos gestos, ensombrado pelo fumo que se ergue.

Lábios carmesins-os teus, e um cigarro

Eu e o teu calor que me coze o frio na barriga.
Eu e tu e um metro quadra…

Ser Gato

Quero viver contigo e em ti
Enrolar-me num lençol de cetim
E de quatro fazer dois.

Quero ronronar por ti, afagar-me em ti e arranhar-te naquele momento próprio do desejo.

Quero subir aos sofás, rasgar cortinados e enrolar-me nas tuas pernas largando pêlo no teu regaço.

Quero ser gato em ti
Gosto quando me sorves em parágrafos, quando me lês de uma vez e ficas sedenta de mais das minhas historias das minhas palavras e dos meus silêncios

Entre um afago e o aconchego, um ronronar e pêlo eriçado, as tuas bradicardias que me pedem café.

Quero ser gato em ti.
De manhã enquanto acordas e me passeio pelo teu corpo num despertar siamês e todo o tempo em que espreguiças os teus braços e te mordo os dedos e pulsos, sentindo o sangue quente que te envolve.

Os meus olhos faiscantes nos teus de princesa, o meu bigode de gato das botas, as orelhas pontiagudas, e as unhas penetrantes, enquanto franqueias espaços de guerra para um encontro de paz.

Quero viver num lençol de cetim, com coleira anti-pu…

Às vezes um Anjo

Às vezes um Anjo
E eu a trocar-me todo entre o Senhor de olhar distante, circunspecto, ao miúdo que saltita entre espaços no jogo da macaca, que chuta a bola e que salta a corda.

Às vezes não oiço
Tolhe-me o pensamento e a surdez que me obriga a esforço de entendimento.
- O quê? Sim?

E o lado esquerdo mais enquadrado inclinando-se para a voz que me fala.
(Porquê o lado esquerdo se oiço mal dos dois?)

Às vezes um anjo
E eu por aí.
Não perdido, mas fora de mim. Fora de tudo, noutra dimensão.
O meu corpo aqui. O sorriso ali, e eu fora.

Longe, muito longe, tão longe que nem eu sei.
Vagueio por aí em sombras, minhas e dos outros, mas apenas sombras.
Estou por lá um tempo.

Daqui por umas horas, muitos anos depois, sou eu a olhar para ela.
Apenas os dois no café. Um sorriso tímido.
Bigode fininho, bem aconchegado ao lábio, risca ao meio, fatiota aprumada e uma xícara de chá.
Ela, boca de chocolate, cabelo elevado e sentimentos em pratas de bombons a saírem-lhe dos olhos.
Mindinho esticado a…
Gosto de rir
Sempre gostei de rir, de pregar partidas, de jogar com as palavras.

Detesto cinzentismos. Já me chega a vida e o inverno com os seus ares de trovoada e diabinhos à solta pontapeando a nossa existência.
Veio-me à memória o “homem das castanhas”, um saco de serapilheira.

Elas todas juntas, ainda quentes, ele, mãos grandes, enegrecidas.
Faz um cone com jornal e vende uma-dúzia-cinco-tostões.
Está cara a vida… uma-dúzia-cinco-tostões.

Há coisas que se pegam a nós, não nos largam.
A Ribeira num crepúsculo, o Inverno em Trás-os-Montes, o verde do Minho, as ondas desérticas da areia do Sahara, e a figura “Maria das gravatas” que corria Porto fora, desatinando tudo o que era gente.

Por vezes também me apetece fazer isso, desatinar toda a gente.
E no entanto gosto de rir.

Ainda tenho um “gato de botas” um “zorro invencível”, um “Homem aranha” avassalador, um pássaro que fala comigo, uma galinha que me pisca o olho e quatro namoradas na escola, e no entanto uma-dúzia-cinco-tost…

Cinco de Outubro na memória...

Num Cinco de Outubro, saltamos portões, agitamos a quinta, trepamos arvores, devoramos fruta, corremos como lebres e refastelamo-nos à porta do Ricky, ensopados em suor com Bolas de Berlim do "Cunha".

Um dia, mais tarde, abandonei a infância, a adolescência ficou amarrada a projectos desportivos.
De repente, vejo-me longe das conversas dos amigos, das brincadeiras vividas, dos risos e choros, das desordens ordenadas, de partilhas, de namoros, de jogos, de festas, dos bailaricos com Pink Floyd e o “Dark Side of the Moon” que abrasava o gira discos do Barbosa.

O Veloso e o “Chico Fininho” saíam à rua com a “Rapariguinha do Shopping” e o Augusto aparecia de MGB descapotável, lançando inveja nas garotas da avenida.
E eramos nós, a malta, da “Ribeira até à Foz”, com os "Já fumega" e os "Minipop"...
E durante anos, fui desatando os nós.

Pensava ser amanhã o reencontro, ser outro dia o abraço, ser novamente ontem, para nos rirmos e brincarmos como sempre.
Mas, …

As vezes o Amor...!

Belas as cartas que releio na premonição do tempo.

Seladas, lacradas, fechadas.

E foi ali naquele espaço, ao alcance dos meus dedos, da minha mão.

Fugiste-me.

Ainda guardo esse cheiro no canto superior esquerdo, o lado do remetente oposto ao selo. E a fita-cola e o carimbo e 20 anos já ali ao virar da esquina.

A esquina da saudade, o tempo e o passado, a distância e a lágrima que nos corre pela cara.

De saudade, de alegria de momentos, de bocados, pedaços de nós.

Por vezes passavas e nem levantavas a cabeça e eu ali, sereno, a vaguear com o olhar na direcção da tua sombra.

Fazia monólogos ensaiados no aproximar do cumprimento, do balbuciar o teu nome, trémulo, inquieto, quase remendado a fita-cola como as tuas cartas que releio.

Adorava ser sangue e circular nas tuas veias, percorrer-te os segredos, cantos e recantos. E pousar suavemente na tua mão.

Os dedos que percorrem o papel em que ensaio escritos para ti e quase te toco.

Quase te toco.

E escrevi, não dez mas quase certo, …

"Amiga negritude"

E chega uma altura em que passamos a ter mais uma amiga a rondar-nos a porta.
Sentada. Às vezes de pé, longe e perto, mas atenta.
Paciente.
Sabe que nos tem como certos.

Chega ao catálogo do dia e hora... escolhe... prepara as coisas ... e ...
E nós..- mas tem de ser já ? Nem um almocinho, um café, um copo ? Sente-se aqui, já agora, (nós a adiarmos a hora) e ela afoita, esperta como as raposas.

Olha de soslaio....

Passa a conviver connosco.
Nos hospitais... - Quem é aquela ali? Parece que conheço, mas não sei de onde...
Na rua, junto ao passeio, vestido comprido preto de cerimónia, sem cerimónias nenhumas. Ao nosso lado, como se fosse a nossa pele, colada a nós.
Nas filas intermináveis das repartições, passa-nos a mão-pelo-pêlo

Por vezes sentimos-lhe o cheiro, acre, pesadão, irrespirável.

E dorme connosco, como uma amante. Utiliza o nosso espelho, usa a nossa toalha, a nossa tosse, o coração, o corpo, como uma amante.
Pior que uma amante.

E no fundo sempre esteve connosco. Nas…

Não ponho açucar no café...

Acabou o verão e arrasto-me fatiado pelo Outono de cor roxo desmaiado.

As nuvens desenham-me o perfil e encosto-me pela sombra como pedaços ancorados no rebordo da janela.

Faço-me ver no lado esquerdo do vidro, pelo canto do olho e inquieto-me.

Transporto no meu interior a lâmina afiada do sabre e balanço-me entre a pacatez dos dias e o aterrorizar dos sentidos.

Não gosto de me sentir assim.

A meio canto, meio soturno, pela metade de mim, trago-me em bolandas numa dança estranha.

Não, não ponho açúcar no café. Porque insistes nisso?

E a praia com o sol que me afaga. O raio de um sol que tão bem me faz.
As moças que se pavoneiam em quadris bamboleantes e o brasileiro da bola de berlim... “ Só tem sem creme...”

Gosto do silêncio. Gosto de fazer silêncio e agradeço-te por isso.
Entranho, absorvo, encho, mastigo e dilacero para depois retornar mais forte mais solto e mais capaz, penso eu… ou não.
Os meus estados de alma, mais p´ra lá do que p´ra cá.

Uma ruga no lado esquerdo mais salie…
Anoiteço devagar e a tua musica feita de dó sustenido e o teu corpo que arqueia quando te toco.

A tua na minha voz e o som que exaltamos numa conjugação de dois verbos, em quase tudo ou quase nada.

O teu beijo sabor a sal que não pede perdão e o tempo que não abre nem se destapa.

Lanças-te em mim como letras num poema de “Brell”.

Vives como uma imagem, um poster, doze-por-doze, vinte-e-quatro-por-vinte-e-quatro, um relógio no pulso entediante, com cucos que te despertam para todo o lado menos para mim.

Não vives de abraços nem de beijos.
Tens um pé no estribo outro no sinal de partida.

Vives de retrato. O rímel colocado, rugas no esticar do sorriso, um olho aberto outro escondido pela franja, baton sedutor, caminhar perfeito no teu interior imperfeito pela graça dos Homens.

Olhas-me no teu caminho e não me vês.
Não é suposto veres-me. Sou apenas um traço comum, simples, abstracto, absorto em lembranças e senil como a gata que ronrona pelos três cantos e meio lá de casa.

Nada que…

Braços como pendentes

As mãos que não mexem e os braços como pendentes.
Não sei se acordado, se a dormir, se apenas sonhos ou pesadelos.
Tenho receio do que sonho, do que vejo e não descortino.

O crescimento tem coisas difíceis, muito difíceis.
De repente tudo muda. Os locais, os amigos, namoradas, familiares que desaparecem.
Deixamo-los espalhados por aí, como os braços pendentes.
Alguns pelas escolas, outros nas ruas em brincadeiras, pelos bailes de garagem, nos clubes, em cima de bicicletas ou rodopios de mota, alguns outros que perdemos nas esquinas da vida.

Amigos que construímos e estruturamos na nossa medida.
Mudamos nós, mudam eles.
A tal mudança inquietante da vida que enrola e desenrola.

Tomamos como certo este silêncio que se arrasta.
E eu arrasto silêncios.

E se não tivesse os braços pendentes ?
Se não houvesse dedos, fosse mudo, desarticulado, disléxico... e se não encaixasse em nada disto que escrevo?
Eu, com esta celulite, analfabeto, ignorante, bronco e incapaz, braços pendentes e as …

Coisas da pele

Afinal foste embora. Esfumaste-te.
Escoaste dos meus braços. Tinhas vindo agarrada a saudades. Fados cantados por Amália, lágrimas que nasciam como ondas.

Saías aos poucos,
Primeiro o braço, depois as pernas, o sorriso.
Tu completa, inteira. Mas o sorriso era absoluto.
O sorriso

Escorrias-me pela pele, pelos poros, um aroma salgado que me entontece.
Um escorregar por ti, por dentro de ti.
Remexer no teu interior e tirar de dentro algumas peças desarrumadas que ancoram por lá.

Coisas agarradas à pele, como os beijos.
Beijos que se dão e se recebem. Beijos na pele, melosos, vertiginosos, repenicados, inquietos, roubados. De língua e lábios. Doces de açúcar mesclado ou de morango.

Afinal foste embora.
Escorreste-me por completo, uma fuga inquieta e demorada com um sorriso rasteiro sem entusiasmo.

Cólera que transportas contigo, por isso saíste de mim. Como se a boca me comesse de um trago e a vida acontecesse.

Espaços na vida, espaços na pele, escorregadelas vitais como surfista ging…

Ponto de Luz

Agradecimento

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Obrigado ao "Diabinhos Fora" pela simpatia nestas palavras que aqui transcrevo.

"Ao Pedro Viegas, porque o 1000 conversas é o blog mais lindo que conheço"

Fiquei sensibilizado e feliz por esse alento.

A ti, a todos vós, que me acompanham e têm o trabalho de me espreitar, e que deixam palavras de incentivo, o meu obrigado.

Deixo aqui as sábias palavras de um Grande Senhor recentemente desaparecido, chamado Raul Solnado.

"FAÇAM O FAVOR DE SER FELIZES!"

JP

Claro que se lê.

Lê-se. Aquilo que escrevo, lê-se. Apenas.
Naturalmente não sou escritor.

Vai-se lendo como uma receita passada pelo senhor doutor de medicina interna, com aqueles hieróglifos escabrosos, que o João da Farmácia não entende, e respinga...

- Zé Manel, percebes o que o doutor passou aqui na receita ?

- Esta letra de médico que não se percebe... “raios partam estes gajos, mais o trabalho que dão”, dizia ele entredentes, daqueles amarelecidos pelo tabaco fumado às escondidas.

Escrevo como um anuncio de jornal, com um sorriso enorme que me atravessa a face e não como um Eça de óculo no olho direito e um bigode que se retorce enquanto lança letras e frases subtis mas relampejantes, um verdadeiro doutor de letras.

E eu preocupado com a falta de pontuação, as virgulas no seu lugar, a loucura que lhe transmito, o tédio que não quero passar, os meus e os nossos pecadilhos, a entoação que dou às frases lendo em voz alta para ficar afinado como uma Maria Callas.

E no entanto o meu medo, era da tua loucu…
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Adoro pintar-te como num restauro firme.
Peça a peça. Minuciosamente.

Entrar dentro de ti e esculpir-te órgão, um após o outro e dar-te a firmeza necessária para um funcionamento sereno e seguro.
Uma hora após a outra, um momento após o outro.
Afinando tudo em concreto e nada ao desacerto.

Uma cópia perfeita, esculpida, pintada, adornada, envolvida e definida.
Gosto da cicatriz a meio do corpo quando cais a pique numa página escrita por mim.

Escrevo e gravo e guardo e surgem “grafittis” alaranjados no prédio em frente do meu, coberto de frases minhas.
Cais em cadência lenta e não fujo de ti nem deixo de escrever na folha onde pousas corpo e cicatriz.

Folhas de silêncio em que desalinho a inquietude, folhas com tanto de mim, como as telas com tanto de ti.

E nesses momentos tento pintar-te como num restauro firme.
Por vezes sem tela nem tinta, apenas de pensamento.
Seguro e firme, como se em cada linha e em cada tonalidade fosse eu. De memória, mas eu.

E se algum espaço estiver mal preenchido, algu…

Perfeito

Moravas no terceiro frente do prédio cinza na rua direita.
Vivias como um mito. Linda e sedutora.

Não te sabia voz nem olhar, apenas passos e vultos ocasionais.
Sabia-te dali pelo som nocturno de oboés. Sabia-te pelo doce cheiro que largavas na rua direita, prédio cinza.

Lia-te as crónicas periódicas e os postais que enviesadamente recebia. Escrevias e eu lia.
Com amor e desespero.

Falavas de beijos e abraços. Beijos dados como quem morre. Cabeça para o lado, língua de fora.
Fosse a morte assim…!

A cidade dorme e perscruto o som que invade os céus. Trovões de partida.
Ainda vivo com muita gente dentro de mim. Não são anjos nem demónios. Apenas saudades, verdades, angustias, desejos.

Dos que amei fica o amargo doce da saudade.
Inquietante.
Tempos passados, apertados por laços e verbos.

A minha concha sem portas nem janelas. Irrespirável.
Sinto-me preso por fios de aço na loucura que vivo em mim.
O amor é sequioso. O labirinto concavo, imperfeito como o teu olhar que não vejo e os passos que disti…

OUTRO TEMPO

Estou para aqui sozinho
Quatro cadeiras e uma mesa, a secretaria e o caderno, mais a água que beberico como o médico informou.
Estou e não estou que da janela vejo o mundo.

Disse-te que não.
Hoje não.
Fico por aqui mesmo.

Estou para aqui sozinho, e a minha Avó Espanhola nas fotos a preto e branco mais os primos das beiras.
Um arrepio de letras e desvario de ideias e a minha avó que ditava e nós escrevíamos.
De vez em quando uma espanholada e nós delirávamos baixinho, rindo a desconcerto.
- Achas que algum dia vou saber escrever?

O vinho jorrava nos pipos do douro vinhateiro e o pessoal descia à quinta lançando entre muros frases vesgas que o meu avô escondia de uns senhores de fato escuro.

Exilavam-se em copos de quatro dedos e cúmplices, exaltavam Reis e Príncipes fidalgos, Padres, Senhores e Povo.
Eram imperadores por instantes.

O Douro gritava, enquanto as uvas fermentavam.
- Será que um dia aprendo a escrever?

Tenho em mim o cheiro a pó das amêndoas, das nozes por descascar, dos fumeiros e o …

I don’t understand you. So what’s the matter with that?

Agora amanha-te…
E eu, amanho-me, está visto.
Viro-me sozinha, e amanho-me.

O mesmo tecido verde, que conheço faz anos.
As flores na janela. O cão, de cabeça a abanar em permanência no vidro de trás do carro em cima de um “naperon”
Quando as coisas não estavam bem interiormente, fazia uma pausa e mudava de rota…três quartos para a esquerda, meia-volta.

Espreguiça-se como uma criança.
Tenta ver onde não vê, atingir o que não alcança, distinguir.
Criar espaços de lugar nenhum, de fronteiras ilimitadas onde infantiliza a vida.

-“Agora estou velha, mais velha que gasta”.
Faço então o quê?
Amanho-me é o que é.

Era muito bonita, uma princesa.
Tinha os homens todos atrás de mim.
Sim, que a minha mãe não me deixava dançar com qualquer um, nem me largava um minuto.
Agora é diferente. Nem sabem o nome e já se beijam.
Perdição é o que é.

Mas eu ainda vou ser bonita. E namoradeira.
Três passos ao lado, dois em frente, uma dança vertical, um tango aprumado,
“et voilá”…

Irei morrer.
Um dia terá de ser, tudo tem …

Concerteza que és tu

Tu e o narizinho do costume.
Não é a cara nem as orelhas, muito menos o riso.
É o teu narizinho do costume.

-“quem não tem maçadas põe o dedo no ar…”
- “Pim, pam, pum, cada bola…”


Reparo em ti. Estás na mesma.
Seca, gostosa, cheirosa, dengosa… sua vaidosa.
Mesmo essa covinha quando sorris e que te pertence como a tela ao pintor.
Não passam por ti os anos, nem os dias.

E eles? Passam por ti ao menos?
Vai passar um século e tu… linda, esbelta, vaporosa.


“… para a galinha e para o peru, quem se livra és tu…”

Tu e o teu narizinho do costume

Tu assim e eu um trapo. Farrapo de gente.
Rugas e rugas e sardas e a pele que se encolhe.
Esta papeira, o inchaço dos olhos, o canto da boca esquisito a curva nas costas e o peito sem elasticidade.
E tu assim, diferente.

“… o ultimo a chegar perde o lugar…”

Amontoados de gente que te rodeia qual figura principal da telenovela das oito.
E Lisboa que se esconde e desenha coloridos em sombras e pontos de luz amarelos e vermelhos como um lençol que se estend…

Um adeus e um sorriso

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Porque me dizes adeus ?

Porquê ? Um adeus com um sorriso como se partisses satisfeita?

Esse acenar e um sorriso, o sorriso e um rosto, o rosto e tu, juntos até mais não.

O silêncio longe das vozes. A tua respiração longe de mim e um adeus, um aceno.

O relogio que não para como a vida que não termina.
Apenas nós. Eu e tu.
Como um relogio de parede com a minha vida toda lá dentro. Tic-Tac, tic-tac.

Tu que dás corda e eu que me viro e reviro, em minutos e segundos e horas.
A tua cegueira, a minha surdez, a tua lingua e os meus dentes.

O teu amor e a minha paixão.
A minha roupa sempre azul, e a tua branca imaculada.

O cesto do pão. Três carcaças e um pão-de-deus... valha-me o Santo por ti.

Lenços de aceno. Uns brancos, outros coloridos, uns usados, outros sabe-se lá.

Tal como o teu sorriso que nem eu sei, a tua voz que se foi, a respiração entrecortada por lançamentos de spray para a asma e a tua lingua nos meus dentes.

Porque me dizes adeus ?

Psst, psst...!

Psst, psst…!

Sabem se estou vivo, se isto é tudo real e se ainda não entrei na espiral de loucura, que adivinho breve.... – dizia João Batatim.
Não é fácil viver com alguma sanidade nesta selva.
Aliás só alguns conseguem meter a cabeça de fora do pântano em que se sobrevive.
E esses são os tais…

Estava então...como se chegasse ao fim.
Sentia-se naufrago numa ilha com cacilheiros que desembocam nos lugares em volta.
Os dias misturam-se como nós de marinheiro e pandemias virais.

Faz um cerimonial de palavras desacertadas e procura geometria em frases sem nexo.
Pensa (?) na odisseia dos caminhos que percorreu e outros tantos para percorrer e não se encontra neles. Corre por entre o fio da navalha, o abismo que se aproxima, pelo meio dos carros em contramão e ele próprio em contra-circulo.

Dizia o João Batatim no Júlio de Matos, entre limpezas de vidros cuspidos entre dois dentes falhados,...
- Tenho um lança-chamas que não funciona…! O lança-chamas poluente, que diz trazer às costas e que tudo …

Chiclete de morango

Há coisas que fazem muito mais sentido juntas.
Tom e Jerry, Bucha e Estica, Bugs Bunny e Duffy Duck, tu e eu.
Sozinhos somos como encenação trágica, juntos, um explosivo.

Éramos acordes musicais nos bailes de cave, "slows" na garagem, beijos com sabor a chiclete gorila de morango, musica “tecno” que desafinava nas colunas “marantz”.

Luzes que se apagam em cada mudança de tempo. Tempo que se definia em cada salto da agulha no vinil.

Tempo de espera entre as horas e as desoras na esquina da rua e avenida da vida, entre os travões de um carro e o chamamento da minha avó.

- Pedrinho.... Zé Pedrinho.... ...(Já vou Avó, estou quase a acabar este texto..)
E passava do beijo da chiclete para o abraço chocolate e um encosto de gelado que nos adoçava a alma e refrescava o coração.

Éramos uno e indivisíveis aos olhos da esperança.
Matavas-me com o teu olhar e ressuscitava entre um jogo de bola e fisgas atiradas a pássaros no quintal vizinho.

Rasguei calções e esfolei joelhos, fazia cavalinhos …

A PRETO E BRANCO

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Fotos à “Lá minute”, a preto e branco.
Radiografias de nós.

Chapéu com dois bicos que o protege do sol e um pano preto onde se refugia na busca do melhor retrato

O cavalinho malhado com o menino sentado na garupa. Sorriso traquina e um “muito bem” atirado pela mãe….
"Click-clack".

Puxa o filme, qual raio-x articulado.
Os traços começam a adquirir uma fisionomia familiar, é um preto e branco perfeito. Uma chapa bem tirada.

Vinha com o vestido aos folhos, chapéu de aba larga e uma “pouchette” na mão.
Coloca-se em pose de estrela defronte da câmara pontiaguda e planta rouge, rimel e baton, enquanto as batidas cardíacas perdiam ritmo próprio.

No cimo das escadas, agarrada ao corrimão que engolia o jardim em pedaços, corria desenfreada com os olhos brilhantes, duas bolas de gelado e um cone de bolacha.

Falava com pálpebras semicerradas e mel grudado no céu-da-boca.

O vinho escorria nas pipas, a dez escudos o copo, nas caves do Porto numa Gaia ainda vila, com Rabelos dançantes nas marg…

Por dentro de mim...!

Entraste suavemente como doce melodia e adornaste a minha alma com fragrância de framboesa.

Tens ritmos desenfreados em ti, que tentas libertar na minha direcção.
Refreias o passo, hesitas num “tem-te não caias” incómodo.

Queres-me de qualquer modo e jeito, sem pecado, constante e tenebroso, eficaz e permanente.
Percorres-me de cima a baixo, de fio a pavio, numa procura intensa e inquietante.

Saltas entre espaços e defines-me por entre órgãos que percorres como esquiador em gelo deslizante.
Sentes um marulhar nas ondas do meu corpo e reténs o ímpeto. Há medida que te mexes, o coração galopa ritmos vertiginosos

Basta-te um toque, lábios inquietos, sangue que circula como lava ardente

Ecos que se arrastam por dentro de mim, que procuram um espaço entre o beijo e a partida, no momento em que usas o meu interior como quem aluga a sala próxima.

Insistes em aparecer por entre letras numa dança envolvente e sinto-te por dentro de mim nos silêncios que faço quando o vento não está de maré.

Sabes-me bem…

She

A lua contorna-te num capricho impressionista, deixando rastos de pinturas como telas de Rembrandt em gestos de Morfeu.
Danças, rodopias, envolta em lenços de seda e tapas-me o olhar para que não veja o teu voar.
Ris e cantas, corres e foges.
Regressas num instante e partes noutro qualquer.

Desenho-te um rosto imaginado e contemplo-me por detras da pele que ainda nos separa encontrando-te a meio tempo entre um beijo e notas adocicadas de uma musica qualquer.

Uma metade de asa que esvoaça por torrentes de azul.

Colas com fogo a pele rasgada das unhas cravadas por ti, quando o desejo aperta e descobres o mundo num ritmo unico, pintando em aguarelas de cor, almas unidas num só.

Enrolo-me nas tuas pernas e cheiro-te embevecido enquanto repousas num perfume de princesa.
E imagino-me esventrado por desejos teus entre pedaços de alma e paixão, cobertos por silabas graves de um poema de Neruda adornado na voz de Caetano embalados em solfejos mil.

Vazas na lingua um mar que não há meio de me afogar e f…

O QUE É ACABAR?

Vive num T1 com uma enorme varanda.
Sozinho com um fogão, frigorifico e um pombo que lhe traz noticias do mundo.

O silêncio que não consegue deixar para trás. Um sorriso que não consegue descolar.
Sonhos que não quer perder.

Um relógio que só ele sabe que existe, um perfume leve e fresco como a espuma de um banho.
Um aceno, despedida. Um adeus, de partida.

Qual o nome desse corpo a que chamas teu? Porque atribuímos nomes quando nem nos conseguimos decifrar por inteiro?

Ficas num limbo e aguentas até à sétima vaga de uma onda que te leve.

O teu tronco, outra cabeça. Os teus abraços, outro corpo.
A vida toda dentro do relógio que só ele sabe onde está.

A sombra do corpo que só eu conheço e o brilho dessa luz nos olhos, intensos, pouco para o tamanho da saudade que adivinhas.

Cilindro com a verdade os morteiros disparados por couraçados de algibeira, quando te injectam morfina nas veias esquálidas e corroídas.

Perdeste tempo de mais, num tempo que tem sempre de menos.

Fazes intervalos entre palav…

GENTE

(Hey Jude)


Uns brancos, outros negros, outros pintados.
"Gays" e acrobatas, actores e travestis.

Estudantes e trabalhadores do Estado, mulheres a dias e jovens sem rumo.
Engravatados e desnudados.
Católicos e anárquicos, protestantes e Islâmicos, jovens sem curso e velhos cursados.

Pais e avós, filhos e netos.
São Povo, pessoas, e gente.
Não gostam de gostar de fugir, nem tão pouco dos que o fazem.

Primam pelas diferenças e abominam carneirismos empacotados em filas de sentido único.
Gente que encara a ignorância e o insulto, com a leveza sobrevalorizada de coragem.
Gente que usa torpedos por desembrulhar preferindo o gesto e a palavra às armas.

Gente das sete partidas do todo que é mundo, numa globalidade fascinante.
Gente que dá as mãos e luta e grita e chora e canta e solta discurso em prol da paz da união e das diferenças salutares.

Todos já passaram pelo ridículo, já se enganaram, já coraram e já amaram sem esperança, proporcionando esperança a outros.

Gente que tem medo mas tem …

VASCULHAR SEGREDOS

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Se os meus dedos vasculhassem os teus segredos no azul dos olhos em que me perdia,

Se me atravessava em ti como um tronco num desconcerto, violinos pegados, partituras encobertas por letras pequeninas e sinais vitais que sobem e descem como picos de tensão.

Se os meus dedos vasculhassem os teus segredos e como cirurgião afastasse os teus órgãos e alinhasse de novo na medida exacta da minha medida.

Moldo na palma da mão o coração que tenho como meu, e vejo-te através dos olhos peregrinos, exasperados de verão, lábios húmidos e sorrisos de menina, com hábitos e vícios de sono e de pecado.

Os meus dedos moldam essa figura frágil, esse coração latejante, os cabelos soltos e as madeixas que desesperam por um afago.

Apanho pedaços das mãos que fertilizam, enquanto abres os braços na procura de um aconchego embalado ao vento.
Pés descalços, perfume que me adoça e entontece.

Se os meus dedos vasculhassem.

Vieste com a subtileza de palavras e versos arrancados da noite que era a nossa, e eu embeveci…
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Um Tio dizia ter passado parte da sua vida “agarrado” a um fantasma mudo mas quezilento e inoportuno.

Aparecia onde e quando não devia tentando chamar a atenção de forma despudorada e rezingão.

Perseguia-lhe os passos como uma sombra primaveril e fazia desenhos, escrevendo datas e nomes, que ía passando em papelinhos travestidos com flores.

Quando algo de pior estava para acontecer, premonitoriamente a fantasmagórica criatura ainda mais lhe entediava a vida.

O telefone não tocava, o carro avariava, o tempo arrefecia, nuvens desabavam como correntes sanguíneas.
Bebia lágrimas que não secavam e corria pelos corredores fugindo da própria sombra.

Tinha medo da noite.
Dormia com um pequeno candeeiro aceso.
Vê-se melhor de noite os olhos das gentes - dizia, e evocava os deuses no desespero da evidência frágil do Ser Humano.

Abraçava-se à densidade do tempo em leito de guerrilha sentimental.

Ouvia aqui e ali acordes de grilhetas, sons díspares de torniquetes, instrumentos de morte e vida.

Atravessa a …
Um berloque dependurado no gancho das calças,
A urze colorida e pasteis de nata com canela e nas mãos um cheiro a rosmaninho e cerejas que anunciam Maio.

O som salgado invade o espaço e as ondas de calor resultam numa explosão de adrenalina delirante.
Molham-se os pés na água fria da Foz, discutem-se as "gajas" da noite anterior e os "gajos" amaricados que debutam por ali.

Joana, reaprende a distinguir as sete cores do arco-íris, olhando vitrais espalhados na palma da mão, relembrando tempos recentes.

Dias diferentes estes.
Árvores como demónios entrelaçados com a terra e a paz que brota da areia em pegadas de menino.

Por vezes confunde-se, mistura palavras e enrola-se no tempo como a farinha no pão e o café com o leite.
Um tempo que se escapa entre os dedos, como os finos grãos de areia.

Mergulha com a luz da madrugada e traça fronteiras entre os trilhos das aves.
Tanto está como não.
Por vezes encontra-se. Aqui ou ali. Mais ali, evidentemente.

Uma espécie de jogo das esco…
Dá-me mais uma dança.

Apenas uma, a ultima, se assim o entenderes.

Pode ser um tango de passos rápidos, uma valsa ondulante, um slow apreciado.
Uma ultima dança, onde te aproximas bruscamente e olhas provocante, ousada, intensa.

Percorres-me com as mãos, aproximas e afastas repentinamente, estendes os braços num ritmo marcante e rodopias no meu corpo.

Dança esse tango e arrasta-me nesse tornear esfusiante
Sou abraços contigo, pernas que se escapam e sobram no espaço, corpo dormente, quente, como lobo faminto ou coyote com cio.

O teu sopro na minha voz e o grito que me abafa, um encosto.
Três passos apenas. Rodeias o assunto e contornas objectos.

Somos doença crónica, famintos madrugadores, um ataque de asma.
Coração aos solavancos, arfar de cansaço e paixão.

Um T1 pré-fabricado, bem medido, portas e janelas,
Novo aconchego, lábios no pescoço, braços esticados ao infinito.

Peito no peito, batidas largas de coração, o olfacto que se perde, o paladar, os sentidos sem razão, e uma razão sem sentido.

Sinto-te a falta e não te conheço.
Entraste sem bater, percorreste-me a alma e não autorizei.
Conforme entras, sais e não dizes nada.

Fico inquieto, como exilado real a banhos na linha.
Reclamas dos meus gostos, sugeres impossíveis e propões impraticáveis.
Eu com um só nome e tu de bandeira monárquica na pele, sapato italiano e vestido de bom corte.

Percorro lojas de Euro e o telefone velho da sala emite sons descarados, enquanto me alcanças com rubor súbito e te esfregas em mim com pés nus, tornozelos imperfeitos, e brincos de madrepérola.

Entras e sais como frequentas a igreja matriz, benzes-te três vezes, e eu, num eminente cataclismo nuclear, pelos eriçados, sangue que ferve nas veias, a tosse funda do tabaco que me abafa e a voz da minha mãe como licor de palavras.
Rasteiras-me as entranhas e fazes-me em farrapos com nós indecifráveis nos olhos.

Tens Tias do Brasil, casas no Pólo-Norte e comes alcatra.
O verniz que não vai com as unhas, o pé com o chinelo, o relógio do avô, o sangue azu…
Gostava de ti assim,
menina de coro, intocável, perfeita, mesclada de mulher carnal e fatal, feita gata no ronronar do tímpano direito enquanto me percorres as entranhas com suaves arranhadelas esquartejantes.

Gostava de ti assim,
eu borbulhas na cara, a barba que rebenta e tu um sorriso chique e maroto.
Mais maroto que chique.

Eu todo embaraço e tu um pedaço.

Gostava de ti assim,
sem rumo nem norte, em piloto automático, modo quase vegetativo, articulando sons, e eu atirado para um canto, órfão de sentido e de razão.

Uma fímbria de alento e a boca calada de gritos rarefeitos, enrolados, impregnados de
sol e sal.

Gostava de ti assim.
Insegura, discreta, perspicaz, ondulante, saltando da veia cava inferior para o ventrículo esquerdo, mexendo e remexendo, seduzindo-me até os poros se abrirem e o sangue correr como o Douro nas entranhas da Régua, e o pedacinho de mel que goteja na alma e faz buracos num cantinho do coração.

E eu, dedos em nós e os nós dos dedos, que se abrem como garras afiadas n…

Vampirices de alma

Vou gerindo restos de silêncio, adornando-os mais um pouco, porque me sabe bem ficar calado num canto.

Assim como se vivesse a três-quartos em lembranças mudas.
Já dizia o Sr. Américo da tasca quando vendia “quartilhos” de vinho aos fregueses que habitavam o balcão sujo do tinto carrascão.
- “Mais vale calado que galo desafinado”

E vou lendo por dentro de mim, pedaços de imagens que me atropelam os dias.
Gente que vejo, outros que analiso, outros que passam apenas, aqueles do café, os do restaurante, os que se cruzam, os que descruzam.

E muita dessa gente que me habita a mente(os próximos), o coração(próximos e de paixão), o estômago(das preocupações), o fígado e a bílis(os que me irritam) e os do intestino(os que me desesperam).

E aqueles que cambaleiam em caminhadas tortuosas, que te bebem os fluidos e sugam o sangue, roem carne e ossos e laceram meninges.

São cheios de salamaleques e cortesias de enxofre, vivem de hipocrisias bacocas, destilam flatulências de veneno, roubam a almofada do …
Corria desenfreado escada acima após a missa domingueira.

Roupa preparada pela mãe, camisa azul clara e pulôver azul-escuro de riscas fortes. Penteado para o lado e uma poupinha abrilhantada com um toque.

Levava o irmão pela mão e colocava-se estrategicamente por debaixo da arcada do prédio, enquanto o seu amor ia comendo rebuçados e torrões de açúcar à janela.
Sentia-se a tremer, mas sentia-se feliz.

Reparava nela faz tempo na entrada do liceu.
Assim de repente e de relance.
E esse momento era tão breve, tão fugaz, que o coração batia descompassado em formato digital.
Os rebuçados como amor puro de açúcar caíam em debandada na sua direcção e ele cristalizava o seu olhar no dela.

Ela a menina doce, de olhar faiscante.

Hoje já não se comem torrões de açúcar e o tempo não tem memória nem se fazem dias em sucessões geométricas.

Fazem-se mais silêncios, usam-se frases desconexas, é tudo mais virtual e deixamos de fora o espaço dos abraços.

Enchemos o corpo com potássio, envenenando as veias que ma…