30 dezembro, 2009

Tanto ou quase nada...!





Tanto ou quase nada


Quantas vezes escrevo sem te escrever, por outras em que te vejo sem te olhar.
E quantas vezes um abraço um afago e o peito que me estala.
Saber dos meus olhos escuros que se espreitares consegues ler.

Vou desarrumando o passado e despenteando o presente e escrevo porque me apetece implodir, esquartejando o edifício das palavras, as frases e as pontuações, parágrafos imensos.
Caminho nelas inconsciente ou semi-cego.

Ensarilho os meus sentimentos com recordações e visões pessoalissimas das coisas.
Coisas tão minhas, coisas tão próprias. Conduzir, correr, ser abanado pela brisa marítima e sorrir, a adrenalina e a análise das expressões, os gestos e as feições, à laia de quem procura um dente são no labirinto de uma boca.

Os toques nas coisas, as pequenas coisas ou pequenos nadas.
Gosto de te ver e sentir nos pontos cardeais, preenchendo o milímetro quadrado por um quarto de meio metro de lado.
Um final de tarde de cor alaranjado ou arroxeado ou simplesmente um final de tarde ou noite.
A noite que me devora sono retemperador e pelo qual não luto - prefiro viver .
E esta noite de línguas doces que me engole secamente, namoradeira.

Gosto de te ver na névoa baixinha e fria que enfeita sonhos.
Gosto dos amigos, de um jantar com amigos, das gargalhadas deles e das minhas.
Gosto da minha voz quando me oiço porque por vezes os silêncios entopem-me.
Gosto de rostos e de olhos de mãos e lábios, como aqueles adocicados onde sobressai um travo de desejo.

Gosto de te ter entre cordilheiras de roupa atirada borda-fora e desamparos negligentes de mãos atiradas ao acaso, quando em lençóis de cetim sou posto e descomposto nas tessituras e quantas vezes me apetece arrepiar caminho por tantas vezes me sonhar fantasma, e vagueio numa geometria enfeitada por mim como sombras chinesas.

Gosto mesmo quando estou só e me espalho pelas paredes do quarto em juras sucessivas, e gosto quando me sais suavemente pelos poros, esfumada pelos dedos, nas narinas, nos ouvidos, mesmo quando me poluis o cérebro e te armazenas em mim até eu melhorar, na esperança que as saudades apertem e me afastes as pernas traiçoeiras nas curvas do desejo.

Gosto de um bom cheiro, um perfume, o inevitável levitar na cor, num arco-íris musical.

Gosto assim, holograma de prazer em jeito de lírica árdua, rompendo a placenta de ternura por rotas arquitectadas e desenhadas.

A leitura, o aperto de mão e o abraço, uma dança bem executada, um espectáculo, um bom livro num prenuncio de mais nada...

... Somos isso mesmo, quase nada.

16 dezembro, 2009

Um dia, beijo-te a meio de uma frase...!




Um dia, beijo-te a meio de uma frase...


E é nestas teias de palavras que me solto, que sou mais "eu".

E escrevo nos gestos intimos dos meus sonhos, na alegria que sobra depois de arrastada a dor.

Mudou a hora

Independentemente disso, nada mais mudou. As mesmas caras, as mesmas casas, as luzes dos candeeiros toscos, os riscos do meu carro estacionado cem metros à frente.

A tua sombra pensada por mim inebriando os sentidos.

Um dia, beijo-te a meio de uma frase...

A voz que oiço, a tua voz que me canta, num açoite de memória. Quem diria que apenas uma voz pela calada da noite, tomando formas e gestos de fada.

Mudou a hora e nada mais...

Já passaram quinze minutos desde que comecei e apenas a voz, mais a minha caligrafia paciente de monge copista.

Um carreirinho de carros na direcção da Foz, o "Sétima Vaga" com esplanada aberta e um cenário de luz e cor.

Ris comigo, e eu gosto de "te rir", apesar das amarras que te esventram a casa e escancaram janelas e o espelho da vida.

O teu sorriso que não conheço, mas sinto, como a voz da rádio que me inquieta.

Um dia, beijo-te a meio de uma frase...

As nossas bocas que se encontram no trajecto nitido de uma palavra

Matriz dos dias, sonoridade absoluta, percursos seguros nas circunferências traçadas das nossas bocas.

E invento o mundo em aguarelas de cor e vento com sabor a sal.

Gotas de chuva misturadas com o teu suor no rosto em fotos " à la minute".

Não tenho ilusões, mas vontade de ti, e tantas vezes tão só, que tenho saudades de mim.

Falo redundâncias e escrevo este texto sem selo nem remetente.

Apeteces-me como nunca, nas formas e aromas dissolvidos em beijos nos teus musculos cansados de leituras nocturnas e sonetos de Chopin.

Um dia, beijo-te a meio de uma frase...

O resto é contigo...!

08 dezembro, 2009

Já me sinto muito grande para este corpo...!


Katie Melua

Já me sinto muito grande para este corpo, ou será a alma que se quer desprender?

Oiço longe o meu grito, e ele chega-me como "boomerang" em ondas aflitas.

Dobro a esquina neste empedrado que me amortece a alma, para fugir dele, mas acabo por o devorar no medo das noites silenciosas, sonhando sombras de rebuçados coloridos.

Baloiças suavemente por dentro de mim, como um brinquedo guardado na imaginação fértil que te povoa.

E é Novembro, e afinal tu não estás aqui.
Mentiste mais uma vez, preferindo mil vezes mais, viver na sombra do que em mim.

Já me sinto muito grande para este corpo e sinto a alma a desprender.

Cicatrizo as feridas abertas lambendo-as até à exaustão. Tenho a vida feita pânico com a tua ausência.
A minha língua forrada de palavras mas a boca adormecida. Eu não falo e tu não brincas baloiçando por dentro do meu corpo jovem que te ampara o desassossego.

Empecilhas-me o tédio e alteras inesperadamente a química do meu organismo, qual medicamento tomado a horas certas.

Sinto finar-me… a passar-me literalmente... e a alma a desprender.

Não sei como faço.
Se te rebusco e modifico metendo mãos enérgicas nas entranhas e virando do avesso órgãos harmoniosos mas aprisionados, se te confronte e aprisione à minha boca numa sonoridade tangível, para perdurar como bruma e matriz dos dias.

Termino café na baixa, a noite vinha apressada e a luz da estação do rossio a cair em catadupa, relevando orquestras de músicas natalícias.

E apareces do nada…inquieta, fumegante e a minha boca aprisionada numa língua adormecida sem sonoridade.
Tocas-me na mão e muito suavemente deslizas com ela sobre o teu peito arfante, deslizando de novo até ao umbigo, morrendo aí.

Não sei como faço.
Se invento mil e uma formas de me implodir se aguardo o retorno do grito que me apavora meninges cansadas.

E no teu sorriso nervoso,
no teu olhar como pétala de um Outono florido em odes madrigais perco-me, fechando os olhos e sentindo o meu corpo dissolver-se em nada.

Já me sinto muito grande para este corpo, e não sei se a alma ainda se quer desprender.

28 novembro, 2009

PALAVRAS RABISCADAS


Queen - Bohemian Rhapsody


Prendes-te com atilhos e laços nos rebordos de mim e não desatas nós, nem por sombras...
Escreves papelinhos coloridos que espalhas pelos meus bolsos e desenhos vários colados com pedaços de baton nos espelhos em que me vejo.

Pintas com tinta da china e pastel, enrolas-te em telas açucaradas e deixas que te prove às colheradas.
Alinhas o teu no meu corpo e defines fronteiras de sabor em lábios sedentos de paixão.

Sorris nervosa a cada pedaço meu por cada pedaço teu e não te cansas quando te conduzes no meu olhar

Congelo memórias de sorrisos timidos na parcimónia quando te deitas em mim... e era eu o teu local de culto, o teu espaço preferido, faça chuva ou faça sol.

Afrouxo-te os impetos que considero desiguais e devoro a distância entre nós.
E todo eu pintor, todo eu arquitecto, todo eu engenheiro, contorno cordilheiras, cobrindo-te de papel cavalinho ou folhas A-4, como anjos disfarçados na neve.

Reconheço-te em sorrisos, discursos fluentes, em paradigmas que me fazem vibrar, umas olheiras inquietas e mal dormidas e uma ou outra ruga a mais.

E ontem, hoje e sempre quero-te mesclada entre o ser e a natureza, entre o dever e o divino e o mimetismo dócil que me faz criança em ti.

E no dia em que este voar terminar, as noites serão enormes, os dias imperfeitos,e passarei a oco de árvore velha, já sem ramos, já sem folhas, cobrindo de cinzas o arco-íris no teu olhar juvenil.

21 novembro, 2009

5 revelações













A Paula  do "Modos de Olhar" invadiu-me o espaço com o desafio de completar as 5 frases que se seguem...

Eu já tive... a ideia de que andava tudo louco, e ainda não perdi a esperança disso ser verdade... (lol)

Eu nunca... mais alinho nestas coisas... (lol)

Eu sei... que mais vale tarde que nunca, que a verdade vem sempre acima como o azeite, que confio demais nas pessoas e que me gasto em coisas que sei não valerem o esforço.

Eu quero ...ver os meus filhos bem, felizes e com saude, e homens bem formados .

Eu sonho ... com um mundo sem falsidades, sem cinismo, sem guerra e sem fome, e mais tolerante ... (sei que estou a pedir o impossivel... mas quem sabe se forçando...lol )


E... segundo diz, tenho que passar a 10, e estes valem a pena ...!
searas de versos

falamos depois sff

as nove no meu blogue

um toque

delirios-e-devaneios

angelblue

viver outra vez

tanto de mim

thepassarocaknowsbest

Diabinhos fora

19 novembro, 2009

De novo Natal


Amy Macdonald - This Is The Life (Buenafuente)


E já me revejo no Natal.
O sapatinho de há quarenta anos no fogão, enquanto o senhor das barbas descia embrulhos vistosos pela boca da chaminé.
Brinquedos com chocolates dentro, como o meu pai adorava fazer.

Esta coisa do Natal outra vez. A data em si.
Eu Capricórnio, o meu pai também, aniversários próximos, o seu desaparecimento e o de minha mãe por esta altura, e a época, mais as luzinhas e os santinhos e os abracinhos e um "feliz natal" despido, prendinhas disto e daquilo, mais embrulhos e lacinhos, mais os que olham de lado rosnando... "festas felizes"...
...uma porra é que é.

E neste tempo, uma cadela com cio, frutos das árvores que apodrecem e os gulosos dos cães em fila.
A cadela vaporosa e saltitante com um corrupio de latidos e amantes ou clientes ou apenas conhecidos, de passagem... que amansam a fera.

E o frio que não chega, a chuva que tarda e um Novembro que adivinha pandemia de gripe e o texto que sai com dor, sofrido.

Se fosse financeiramente independente, saltava este mês.
Fechava literalmente para obras. Obras internas.
E no entanto dói. Vai doer sempre.

E parto. Parto de mim, fazendo pausas, navegando outras ondas, outros mundos, cheirando jacarandás, absorto, abstraído de tudo.
Esta dor que ninguém vê, dor fina e ardente.
E a mão que procura a caneta e os dedos enlaçados nela e no papel, tentando adornar escritos, frases.
Não necessariamente com sentido, mas que apaguem ou afaguem a memória.

E eu sozinho, nesta consulta interior.
Já me conheço a habitar estes espaços num adormecimento propositado.

E na época, eu e o meu irmão Artur. Um desassossego na espera, sapatinho no fogão...
- Ele vem ? sabe onde moramos ? Conhece a chaminé ?
Respostas não encontradas nesse dia, apenas uma noite sem dormir em congeminação de irmãos.

Agora não me apetece falar. Apetece-me estar assim, quieto nesta cadeira.
Apetece-me um cigarro e não fumo, mas apetece-me mais ainda o meu pai e o meu irmão e aquele tempo, nem que seja por uns minutos, as prendas no sapatinho e o homem das barbas a reboque de um trenó e as luzinhas que acendem a cada "feliz natal" rosnado por gente sem gente dentro.

Apetece-me que as cadelas desta vida cheguem ao lugar que pretendem, com ou sem cio. Que os cães marialvas abanem as patas e lancem corridas desenfreadas, que os jacarandás exalem perfume e o sapatinho sirva para no mínimo, aquecer o coração.

17 novembro, 2009

Rastos de gente por aí...!



O esqueleto de alguém que anda.
Esse corpo e alguém com ele.
Vou ter de entender isto...

Talvez janelas repletas de fantasmas que vão soltando por aí.
Saem do corpo, deixando-os pendurados – Vão chatear outro...

Permanecem em silêncio no meio dos silêncios. Talvez também fantasmas silenciosos.
Acham estranho… – Vão chatear outro...

Ela tão magra que os dentes lhe sobejam no sorriso, e as sete partidas de Lisboa vistas da ponte, luz e cor, vidas soltas, amarras de amantes em cacilheiros vadios.

Tragam-me serenidade em vez de bife do lombo, serenidade bem passada como o bife.
E a nostalgia das horas aqui e ali.

Rastos de gente entupida de ansíoliticos e anti-depressivos até ao “cocuruto”.
Esta palavra estranha a lembrar-me música bem mexida, solta e fresca, rastos de gente, cadáveres ambulantes a pedirem mais dança, mais corpo, mais amantes amarrados menos soporíferos.

Um cego na procura de sombra, uma luz ténue, um tactear na busca de caminho.
E sei dos teus olhos e do que não vês, mas outros olhos por trás destes.
Outros braços por trás desses, cansados, desamparados, sem poiso nem regaço, Um outro coração, um outro bater.

E os teus olhos onde ficam?

Outra metade de uma alma, metade de uma asa, espiral de solidão.
O esqueleto de alguém que anda. Esse corpo e alguém com ele.

Vislumbro casais ao longe e um manto de nevoeiro nas margens do rio e um beijo ardente. Ardente o beijo e o seu fumegar e baforadas juntas.

O esqueleto em pedaços de gente e a sua finitude e a finitude dos outros.
Um caminhar sem olhar e outros olhos por trás destes, uma outra metade de ti.

Rastos de gente por aí.
Porções de gente galopante, encharcadas de lavanda e sabão azul e branco.
Uns, cavernosos de cigarro embutido entre dentes desfeitos, outros com cardápios de perfume a tiracolo em cheiro adocicado e nuvens densas misturando odores e “baton” de mulher de vida fácil.

Somos cegos na vida que não queremos ver, que nos passa e trespassa como anexos de outra vida qualquer, paralela, inconveniente.

E vemos e revemos os mesmos gestos, os mesmos olhares incómodos, esqueletos abandonados, rastos de gente sem gente dentro.

O esqueleto de alguém que anda, esse corpo e alguém com ele…
Ainda não consigo entender isto.

11 novembro, 2009

A minha professora (psora!)



A minha professora primária, com uns braços nus, perna lengosa, apetitosa, peito firme de mulher quente e eu a gaguejar os rios, caminhos de ferro e cordilheiras.
Angola, Moçambique, Guiné, tudo na ponta da língua e o orgulho dela que inchava, e eu pasmado, trocando os afluentes.

As serras e as cercanias e as meias de vidro que ajeitava na barriga da perna, torneava a anca, o lápis que caía e um roçar de mãos na pele e o comboio que entra no rio, Angola que desagua em Espanha e nem uma planície quanto mais uma montanha.

Eu a segurar cotovelo na mesa, mão em concha na cara que repousa e um olhar difuso.
Ali, entre o ontem e o “qualquer-dia”.
Duas filas atrás de mim, o “Zafra” que relincha palavras sem nexo com sotaque acentuado do Porto.

Bandos de pássaros que circulam entre o telhado da escola e o alpendre próximo. Eu que os vejo e oiço do outro lado, vou desvanecendo o pensamento nela.

A minha “Psora” tamborilava os dedos na secretária vazia por trás de uma boca carmesim.
Vincos serenos dos lados da boca.

O Sérgio, todo dioptrias, aproveitava a falta de vista para um aligeirar de mãos nas miúdas, levando aqui e ali uns estalos que entendia como um adorno no marialvismo de tenra idade.

Olhos de gata incendiavam os mapas, e eu... distritos e províncias, cordilheiras e vales e sonhos e aulas de geografia a desoras.

E o seu modo lento de olhar. Não uma expressão absoluta antes um adocicar de almas e eu a voar para junto dos pássaros, todo eu asas, todo eu céu, todo eu nuvens.

E ela, meias de vidro, collant´s, perfume inebriante e depósitos de creme na cara como tulicreme para barrar.
Será ela actriz num cenário das nove ou apenas metrópoles, estações, rios e distritos?

A bandeira da nação, mais o mapa mundo, varinha e régua com olhos, as linhas de comboio que perdi, provincias que não encontro, o seu trejeito de pernas o cabelo esvoaçante e os mistérios reservados nas meias de vidro e o toque mágico num roçar de mãos, entre relinchos cavalares e as dioptrias mais a boca carmesim, com a imagem protectora do Presidente do Conselho e o crucifixo da esperança.

Valha-me Deus... “Psora”!

03 novembro, 2009

O teu calor que me coze o frio na barriga.
As copas das árvores e eu a sorver-te num fôlego e tu a escorregar por dentro de mim.
Gosto de te ter assim na minha boca… adocicada.

Existe em mim este semblante de tristeza que se reflecte como “néons” no escuro da vida.

E os teus espasmos em mim, e as minhas mãos enregeladas, curvadas, torcidas e retorcidas, enquanto desces na direcção do esófago.

Engoli-te como seria desejável entre as dez e as onze, para morrermos assim, enquanto te espalhas como ramos secos nas intersecções dos meus órgãos.

E o passado. Excesso de passado em ti, agora que te transportas em mim.

Aquele jeito de Princesa, feita boneca de porcelana com tiques firmes a adornar o cigarro.
Baforadas e gestos largos e sublimes a tocar os lábios depois da fumaça.

E um toque mais. Outro toque, e eu lânguido, absorvido pelos gestos, ensombrado pelo fumo que se ergue.

Lábios carmesins-os teus, e um cigarro

Eu e o teu calor que me coze o frio na barriga.
Eu e tu e um metro quadrado de elevador, os dois e a vizinha, mais o nosso ar.
O ar que respiramos os dois, a partilhá-lo com a vizinha.

Ela de sorriso trocista, imaginando que me habitavas mais por fora que por dentro, mas só nós sabíamos que por dentro me devoravas frenética, inquieta, degustando-me gulosa, entranhada.

E eu assim apunhalado, trucidado, remexido.
E foram assim, dois a três dias, de noite, na manhã seguinte, na noite do dia seguinte e outro dia também.
E era nessa luta interior que nos misturávamos que nos dividíamos apenas em nós.

Espasmos, o teu passado em mim, o jeito de Princesa com punhal no lugar do cigarro, e o gesto firme e quente e o meu “néon” psicadélico, desfalecido.

E eu com o teu sabor em mim, adocicado na minha boca, e o teu calor que me coze o frio na barriga.

16 outubro, 2009

Ser Gato




Quero viver contigo e em ti
Enrolar-me num lençol de cetim
E de quatro fazer dois.

Quero ronronar por ti, afagar-me em ti e arranhar-te naquele momento próprio do desejo.

Quero subir aos sofás, rasgar cortinados e enrolar-me nas tuas pernas largando pêlo no teu regaço.

Quero ser gato em ti
Gosto quando me sorves em parágrafos, quando me lês de uma vez e ficas sedenta de mais das minhas historias das minhas palavras e dos meus silêncios

Entre um afago e o aconchego, um ronronar e pêlo eriçado, as tuas bradicardias que me pedem café.

Quero ser gato em ti.
De manhã enquanto acordas e me passeio pelo teu corpo num despertar siamês e todo o tempo em que espreguiças os teus braços e te mordo os dedos e pulsos, sentindo o sangue quente que te envolve.

Os meus olhos faiscantes nos teus de princesa, o meu bigode de gato das botas, as orelhas pontiagudas, e as unhas penetrantes, enquanto franqueias espaços de guerra para um encontro de paz.

Quero viver num lençol de cetim, com coleira anti-pulga, entre as dez e as onze, num quarto arejado a escorregar de loucura, entre corridas atrás do novelo, até que me faças parar.

E subas paredes comigo
Para seres
gata em mim.

15 outubro, 2009

Às vezes um Anjo



Às vezes um Anjo
E eu a trocar-me todo entre o Senhor de olhar distante, circunspecto, ao miúdo que saltita entre espaços no jogo da macaca, que chuta a bola e que salta a corda.

Às vezes não oiço
Tolhe-me o pensamento e a surdez que me obriga a esforço de entendimento.
- O quê? Sim?

E o lado esquerdo mais enquadrado inclinando-se para a voz que me fala.
(Porquê o lado esquerdo se oiço mal dos dois?)

Às vezes um anjo
E eu por aí.
Não perdido, mas fora de mim. Fora de tudo, noutra dimensão.
O meu corpo aqui. O sorriso ali, e eu fora.

Longe, muito longe, tão longe que nem eu sei.
Vagueio por aí em sombras, minhas e dos outros, mas apenas sombras.
Estou por lá um tempo.

Daqui por umas horas, muitos anos depois, sou eu a olhar para ela.
Apenas os dois no café. Um sorriso tímido.
Bigode fininho, bem aconchegado ao lábio, risca ao meio, fatiota aprumada e uma xícara de chá.
Ela, boca de chocolate, cabelo elevado e sentimentos em pratas de bombons a saírem-lhe dos olhos.
Mindinho esticado a baloiçar o chá na porcelana francesa, um biquinho, um beicinho, e o fumegar da planta na água quente.

Vai nos oitenta e nem uma ruga, nem expressão fora do lugar
Eu, ritmado pelo seu dizer, saliento espaço para levantar o sobrolho e apreciá-la avidamente como se a visse ontem pela primeira vez.
Estou recheado de vincos, como uma camisa mal passada, enrugada.
Mas prefiro assim, vê-la assim.

E tenho a imagem ali, a cabeça aqui e o sorriso corpo fora.
Retrocedo então, pequenos passos e regresso a mim.

Às vezes um Anjo.

Por vezes receio.
O dedo indicador na sala de espera do consultório dos aflitos.
O dedo na minha direcção e o embate.
- Você! Os seus exames chegaram…. Lamento.

Assim. Só assim. Simples, curto, conciso e um segundo.
Um mísero segundo e tudo muda. Entre o tempo antes e o tempo depois do segundo, tudo muda.
O dedo indicador, o desígnio, o destino.

Às vezes um Anjo

Que me traz estes pensamentos e lembra a finitude.
E a infância em desenhos, uma corrida na adolescência e a finitude.
Este Anjo que me rodeia e que sinto quando bate as asas. O pó mágico que delas cai.

O meu vizinho, muito velho, a mulher muito doente, e muito tempo a visionar a rua, do peitoral da casa.

Prometi escrever-te, mas não podia ser inverno. Nem podia ter secado.
As mãos não mexem, os dedos não agitam, a alma vai congelando e o cérebro num espera-desespera.
Como um monstro cinzento feito nuvem que me engole e de cujas entranhas retiro sombras para chegar a ti.

Olho para trás e parece que toda a vida foi um sonho, perfeito ou imperfeito, mas um sonho. Um sonho de sentimentos e emoções escavadas.

E eu a trocar-me todo entre o Homem e o miúdo, o dedo indicador esticado, o destino, memórias e o Anjo com asas.

Às vezes, mesmo assim

Um Anjo

11 outubro, 2009




Gosto de rir
Sempre gostei de rir, de pregar partidas, de jogar com as palavras.

Detesto cinzentismos. Já me chega a vida e o inverno com os seus ares de trovoada e diabinhos à solta pontapeando a nossa existência.
Veio-me à memória o “homem das castanhas”, um saco de serapilheira.

Elas todas juntas, ainda quentes, ele, mãos grandes, enegrecidas.
Faz um cone com jornal e vende uma-dúzia-cinco-tostões.
Está cara a vida… uma-dúzia-cinco-tostões.

Há coisas que se pegam a nós, não nos largam.
A Ribeira num crepúsculo, o Inverno em Trás-os-Montes, o verde do Minho, as ondas desérticas da areia do Sahara, e a figura “Maria das gravatas” que corria Porto fora, desatinando tudo o que era gente.

Por vezes também me apetece fazer isso, desatinar toda a gente.
E no entanto gosto de rir.

Ainda tenho um “gato de botas” um “zorro invencível”, um “Homem aranha” avassalador, um pássaro que fala comigo, uma galinha que me pisca o olho e quatro namoradas na escola, e no entanto uma-dúzia-cinco-tostões.
Está cara a vida.

Já despachei racionalmente o “Gato” mais o “Zorro” e o “Homem-Aranha”. O “Velho-das-barbas” vai depois, com o Homem das castanhas e o saco de serapilheira mais as quatro namoradas da escola.

Ainda gosto de rir, mas uma-dúzia-cinco-tostões ??
Está cara a vida.

05 outubro, 2009

Cinco de Outubro na memória...




Num Cinco de Outubro, saltamos portões, agitamos a quinta, trepamos arvores, devoramos fruta, corremos como lebres e refastelamo-nos à porta do Ricky, ensopados em suor com Bolas de Berlim do "Cunha".

Um dia, mais tarde, abandonei a infância, a adolescência ficou amarrada a projectos desportivos.
De repente, vejo-me longe das conversas dos amigos, das brincadeiras vividas, dos risos e choros, das desordens ordenadas, de partilhas, de namoros, de jogos, de festas, dos bailaricos com Pink Floyd e o “Dark Side of the Moon” que abrasava o gira discos do Barbosa.

O Veloso e o “Chico Fininho” saíam à rua com a “Rapariguinha do Shopping” e o Augusto aparecia de MGB descapotável, lançando inveja nas garotas da avenida.
E eramos nós, a malta, da “Ribeira até à Foz”, com os "Já fumega" e os "Minipop"...
E durante anos, fui desatando os nós.

Pensava ser amanhã o reencontro, ser outro dia o abraço, ser novamente ontem, para nos rirmos e brincarmos como sempre.
Mas, o destino trocou-nos os caminhos da vida.

O telefone já não toca como tocava. Os reencontros vão-se tornando raros.

O Figui advoga com o tempo contado. O Ricky, anda a saltar do Porto para Esmoriz, o João controla as corridas dos seus atletas e os cabelos brancos surgem em catadupa.
O Amado desapareceu, dele nem rasto.
O Pedro, Paulo, Costa, Leonor, Paula, Fátima, Laura, Beta, Sérgio, Zé, Carlos, Nanda, tantos, tantos que eramos. Um grupo excelente.

Enchiamos o comboio para Esmoriz de alegria vivida. Cerveja com groselha em pequenos almoços mirabolantes com rabanadas de molho divinal.

Francesinhas da Tí Alice, regadas com o verde do Monteiro, que dizia sempre: - “este é dos bons, já cá canta...”.

A Tia do Amado, suspirava pelas noticias que lhe levávamos, com ele a conta gotas espreitando da esquina em frente.
O "S. João" com filas de 60, numerados em saltos de fogueira, as corridas pela Boavista e o dormir na praia da Foz.
Dizíamos: - “Três dias e três noites sem ir à cama, seus morcões”.
O jogo do "pilha" e a “sameirinha”, a “patela” e os jogos de bola no Velasquez.
Chumbadas nas calças de ganga, de “assaltos” à fruta na Quinta do Monte Aventino,...

Quando nos encontramos, tudo parece ontem.
Saltamos e brincamos e falamos tanto e tanto em tão pouco tempo, que sofregamente, enchemos Santa Catarina.
No retorno a casa, fazemos promessas de encontros frequentes... e o telefone.. e o E.mail...

... e a vida volta, e o tempo alonga a distância, e o Inverno passa, o Verão volta, e amanhece de novo.
E mais cabelos brancos e rugas espantadas em espelhos de jovem.
E contamos aos filhos como era bom, como nos divertíamos, o que era a “verdadeira amizade”, as partilhas, o jogo da “casquinha”, o “porta a porta”, a “esmolinha p´ro St. António e "P´ro S. João”, e a sopa de couve na casa da Avó.

E virámos o 25 de 74, de mochila às costas na Praça D. João I, a ver chaimites e “magalas” de sorriso largo olhando as moças que passam.
... E como hoje é diferente.
Como a “Playstation” e a “Net” e o “Pokemon” e a TV Fox, subtrai a amizade a potências de solidão.

Vá lá pessoal, só mais um copo.

Não, o último não.
Passaremos pelo Oliveira Martins ou o Alexandre Herculano e esperamos as miúdas às cinco da tarde no Rainha Santa.

Depois embarcamos na paz do tempo e algum tempo depois encontramo-nos a caminho...
de novo... até um dia, quem sabe ... ?

Não sem antes secar esta que aqui enrola e espreita num canto do olho na vã esperança de vos ter de novo, todos juntos, como ontem.

23 setembro, 2009

As vezes o Amor...!



Belas as cartas que releio na premonição do tempo.

Seladas, lacradas, fechadas.

E foi ali naquele espaço, ao alcance dos meus dedos, da minha mão.

Fugiste-me.

Ainda guardo esse cheiro no canto superior esquerdo, o lado do remetente oposto ao selo. E a fita-cola e o carimbo e 20 anos já ali ao virar da esquina.

A esquina da saudade, o tempo e o passado, a distância e a lágrima que nos corre pela cara.

De saudade, de alegria de momentos, de bocados, pedaços de nós.

Por vezes passavas e nem levantavas a cabeça e eu ali, sereno, a vaguear com o olhar na direcção da tua sombra.

Fazia monólogos ensaiados no aproximar do cumprimento, do balbuciar o teu nome, trémulo, inquieto, quase remendado a fita-cola como as tuas cartas que releio.

Adorava ser sangue e circular nas tuas veias, percorrer-te os segredos, cantos e recantos. E pousar suavemente na tua mão.

Os dedos que percorrem o papel em que ensaio escritos para ti e quase te toco.

Quase te toco.

E escrevi, não dez mas quase certo, um cento.

Escrevia e rasgava, voltava de novo e rodopiava na escrita e na lembrança.

Fazia poesia de olhares macerados, e canções de amor lançadas ao mar do cabedelo.

Era... já não lembro quem, que tocava nos discos de vinil.
Um selo, dois tostões.

E o cheiro, o teu cheiro na dobra final da carta. Selada, lacrada de ti, em pedaços de escrita, por mim.

O tempo correu voraz.

Serás agora um jardim, provavelmente já não flor, mas sim Jardim.

De mil cores e mil cheiros rasgados e abertos ao céu.

E imagino-me na dor de não me lembrar de te dizer isto…

Naquele dia, era mesmo eu.
Uma sombra colada a fita-cola com o teu cheiro em mim, e um selo de dois tostões no lado oposto ao remetente.

21 setembro, 2009

"Amiga negritude"



E chega uma altura em que passamos a ter mais uma amiga a rondar-nos a porta.
Sentada. Às vezes de pé, longe e perto, mas atenta.
Paciente.
Sabe que nos tem como certos.

Chega ao catálogo do dia e hora... escolhe... prepara as coisas ... e ...
E nós..- mas tem de ser já ? Nem um almocinho, um café, um copo ? Sente-se aqui, já agora, (nós a adiarmos a hora) e ela afoita, esperta como as raposas.

Olha de soslaio....

Passa a conviver connosco.
Nos hospitais... - Quem é aquela ali? Parece que conheço, mas não sei de onde...
Na rua, junto ao passeio, vestido comprido preto de cerimónia, sem cerimónias nenhumas. Ao nosso lado, como se fosse a nossa pele, colada a nós.
Nas filas intermináveis das repartições, passa-nos a mão-pelo-pêlo

Por vezes sentimos-lhe o cheiro, acre, pesadão, irrespirável.

E dorme connosco, como uma amante. Utiliza o nosso espelho, usa a nossa toalha, a nossa tosse, o coração, o corpo, como uma amante.
Pior que uma amante.

E no fundo sempre esteve connosco. Nas análises ao sangue, à urina, as ultrapassagens na estrada, na guerra colonial, o colesterol, a arritmia, o fígado, ao espelho - quem é aquela que está atrás de mim??
Como uma amante.

Pior que uma amante
- Veste o casaco que vamos sair. Traz trocos para o autocarro (já ninguém anda de autocarro, muito menos com uma amante).

Aconchega-nos o cachecol ao peito. As rugas que nos cobrem o rosto, os joelhos que tremem, a mão que não para, as pálpebras que não abrem, a respiração que não se ouve.

E chega a altura em que a olhamos sem ver, com olhos mortiços, sem razão e sem sentido, como uma amante.

E depois somos nós na fotografia da estante, afastada, sobre o náperon às rodinhas que a tua avó fez já lá vão 85 anos.
É de renda e valiosa, uma relíquia, como tudo o que ela fazia.
E o vazio, não da presença dela, mas do retrato, na cómoda, encostado à bíblia e ao espelho.

O corpo que se afasta e que não é de ninguém, o carro que não pega a casa que se foi e a tua Avó Esmeralda, importante como o nome, e a dentadura a boiar no copo e ele à janela com ela ao lado e o vizinho que insiste em urinar contra a serventia do lado do portão. Quase como os cães, de perna alçada, um pingo bem sacudido, como os cães.

E a corrida contra o tempo, um tempo sem corrida e sem espaço, um pingo de soro, a máquina que apita, a injecção que ela acompanha de pé.
Pé-coxinho.

A ver se vale a pena... um-dois-três, vou nascer outra vez ... começar de novo... a ver se vale a pena

E ela ri e dá-nos a mão, afastamo-nos, longe. Lá longe.

E a foto a preto e branco encostada, a televisão na novela das cinco, e a tua Avó Esmeralda sem dentadura na moldura ao lado.

Raio de sorte a minha.
Logo a tua Avó Esmeralda, importante como o nome, e o meu Benfica que perdeu com o Manchester, mais o Zé Águas e o Coluna, Bobby Charlton e uns Beatles a caminho de Liverpol.

Mas a tua Avó Esmeralda ?

18 setembro, 2009

Não ponho açucar no café...




Acabou o verão e arrasto-me fatiado pelo Outono de cor roxo desmaiado.

As nuvens desenham-me o perfil e encosto-me pela sombra como pedaços ancorados no rebordo da janela.

Faço-me ver no lado esquerdo do vidro, pelo canto do olho e inquieto-me.

Transporto no meu interior a lâmina afiada do sabre e balanço-me entre a pacatez dos dias e o aterrorizar dos sentidos.

Não gosto de me sentir assim.

A meio canto, meio soturno, pela metade de mim, trago-me em bolandas numa dança estranha.

Não, não ponho açúcar no café. Porque insistes nisso?

E a praia com o sol que me afaga. O raio de um sol que tão bem me faz.
As moças que se pavoneiam em quadris bamboleantes e o brasileiro da bola de berlim... “ Só tem sem creme...”

Gosto do silêncio. Gosto de fazer silêncio e agradeço-te por isso.
Entranho, absorvo, encho, mastigo e dilacero para depois retornar mais forte mais solto e mais capaz, penso eu… ou não.
Os meus estados de alma, mais p´ra lá do que p´ra cá.

Uma ruga no lado esquerdo mais saliente. Mas eu não tinha rugas aqui.
Não. Não ponho açúcar no café mas tenho rugas por aqui.
E a bola de Berlim sem creme numa praia bamboleante, a meio canto, bolandas numa dança estranha.

Afasta-se o sol e nuvens que me atiçam a alma deixam a memória num pranto.

Passam ciganas de olhos de mar e cabelo negro, caixinhas de madeira com medalhas e botões de punho dourado, leituras de linhas cruzadas na mão, destino fechado a sete-chaves ou um sete de copas numa “bisca lambida”.

Custa-me pensar, dói-me fazer, as consoantes saltam nas vogais e estas embrulham-se sem sentido. Estou embalsamado de tempo e parei no momento, naquele instante do café.
Não, não ponho açúcar no café e estou bem assim.

E este pedaço de idade que me chega em Dezembro, a distância que guardo do mês e da época, pelas lembranças e inquietudes.

Queria que as estações não me pesassem tanto na pele, para ser possível não estar fatiado no Outono.

Ciganas de olhos de mar numa leitura de linhas de vida e ritmos sedutores

Mas tu não pões açúcar no café.

Mas porque insistem nisto?

15 setembro, 2009




Anoiteço devagar e a tua musica feita de dó sustenido e o teu corpo que arqueia quando te toco.

A tua na minha voz e o som que exaltamos numa conjugação de dois verbos, em quase tudo ou quase nada.

O teu beijo sabor a sal que não pede perdão e o tempo que não abre nem se destapa.

Lanças-te em mim como letras num poema de “Brell”.

Vives como uma imagem, um poster, doze-por-doze, vinte-e-quatro-por-vinte-e-quatro, um relógio no pulso entediante, com cucos que te despertam para todo o lado menos para mim.

Não vives de abraços nem de beijos.
Tens um pé no estribo outro no sinal de partida.

Vives de retrato. O rímel colocado, rugas no esticar do sorriso, um olho aberto outro escondido pela franja, baton sedutor, caminhar perfeito no teu interior imperfeito pela graça dos Homens.

Olhas-me no teu caminho e não me vês.
Não é suposto veres-me. Sou apenas um traço comum, simples, abstracto, absorto em lembranças e senil como a gata que ronrona pelos três cantos e meio lá de casa.

Nada que se pareça.
Os meus saltos são terrenos e a metade do meu rosto é mesmo minha... já está paga.

Tiras monstros dos sonhos que te embalam e eu embalo-me como no verão, festas de aldeia e a minha Tia-Avó, com aforismos, silogismos e significados.
Não te encaixas nesse jeito, Carlinhos...

E eu sonho com a tua dança, a tua figura cinematográfica, num póster de vinte-e-quatro e um relógio no pulso.

Cu-cu-cu-cu, salta o cuco mais o gato e a minha Tia-Avó sem jeito nem cuidado.

Estás desarticulada em tom pastel, pés tortos e difusos e eu...

... anoiteço devagar como anoiteço todos os dias.

28 agosto, 2009

Braços como pendentes



As mãos que não mexem e os braços como pendentes.
Não sei se acordado, se a dormir, se apenas sonhos ou pesadelos.
Tenho receio do que sonho, do que vejo e não descortino.

O crescimento tem coisas difíceis, muito difíceis.
De repente tudo muda. Os locais, os amigos, namoradas, familiares que desaparecem.
Deixamo-los espalhados por aí, como os braços pendentes.
Alguns pelas escolas, outros nas ruas em brincadeiras, pelos bailes de garagem, nos clubes, em cima de bicicletas ou rodopios de mota, alguns outros que perdemos nas esquinas da vida.

Amigos que construímos e estruturamos na nossa medida.
Mudamos nós, mudam eles.
A tal mudança inquietante da vida que enrola e desenrola.

Tomamos como certo este silêncio que se arrasta.
E eu arrasto silêncios.

E se não tivesse os braços pendentes ?
Se não houvesse dedos, fosse mudo, desarticulado, disléxico... e se não encaixasse em nada disto que escrevo?
Eu, com esta celulite, analfabeto, ignorante, bronco e incapaz, braços pendentes e as mãos que não mexem.

Feitiços e talismãs que adorno ao pescoço e nos pulsos com preces ao Pai de Santo.
Logo eu que não conheço África nem Brasil, calibro redenções entre silêncios e meias palavras.
Um exagero é o que é.

E as tuas cartas à maneira antiga, empertigadas num selo e lembranças interiores, um calor de vozes salgadas.
Vejo por lá o teu indicador e o perfume que se alastra.
Tu não queres o meu bem.... o teu perfume....

Palavras que escreves, encriptadas, rasuradas e truncadas.
E eu como um soldado no regresso da missão, cabeça cheia de sonhos e revoltas, sem peso nem medida.
Um feito defeito, essas tuas palavras ancoradas no limar doce.

Um segundo. Espera um segundo, tenho os braços como pendentes e as mãos que não mexem...

Coisas da pele



Afinal foste embora. Esfumaste-te.
Escoaste dos meus braços. Tinhas vindo agarrada a saudades. Fados cantados por Amália, lágrimas que nasciam como ondas.

Saías aos poucos,
Primeiro o braço, depois as pernas, o sorriso.
Tu completa, inteira. Mas o sorriso era absoluto.
O sorriso

Escorrias-me pela pele, pelos poros, um aroma salgado que me entontece.
Um escorregar por ti, por dentro de ti.
Remexer no teu interior e tirar de dentro algumas peças desarrumadas que ancoram por lá.

Coisas agarradas à pele, como os beijos.
Beijos que se dão e se recebem. Beijos na pele, melosos, vertiginosos, repenicados, inquietos, roubados. De língua e lábios. Doces de açúcar mesclado ou de morango.

Afinal foste embora.
Escorreste-me por completo, uma fuga inquieta e demorada com um sorriso rasteiro sem entusiasmo.

Cólera que transportas contigo, por isso saíste de mim. Como se a boca me comesse de um trago e a vida acontecesse.

Espaços na vida, espaços na pele, escorregadelas vitais como surfista gingando nas ondas do teu entusiasmo, mergulhando no aroma, nos lábios, na fuga, no sorriso.
Esfumaste-te na minha boca de um trago.

21 agosto, 2009

Agradecimento




Obrigado ao "Diabinhos Fora" pela simpatia nestas palavras que aqui transcrevo.

"Ao Pedro Viegas, porque o 1000 conversas é o blog mais lindo que conheço"

Fiquei sensibilizado e feliz por esse alento.

A ti, a todos vós, que me acompanham e têm o trabalho de me espreitar, e que deixam palavras de incentivo, o meu obrigado.

Deixo aqui as sábias palavras de um Grande Senhor recentemente desaparecido, chamado Raul Solnado.

"FAÇAM O FAVOR DE SER FELIZES!"

JP

20 agosto, 2009

Claro que se lê.

Lê-se. Aquilo que escrevo, lê-se. Apenas.
Naturalmente não sou escritor.

Vai-se lendo como uma receita passada pelo senhor doutor de medicina interna, com aqueles hieróglifos escabrosos, que o João da Farmácia não entende, e respinga...

- Zé Manel, percebes o que o doutor passou aqui na receita ?

- Esta letra de médico que não se percebe... “raios partam estes gajos, mais o trabalho que dão”, dizia ele entredentes, daqueles amarelecidos pelo tabaco fumado às escondidas.

Escrevo como um anuncio de jornal, com um sorriso enorme que me atravessa a face e não como um Eça de óculo no olho direito e um bigode que se retorce enquanto lança letras e frases subtis mas relampejantes, um verdadeiro doutor de letras.

E eu preocupado com a falta de pontuação, as virgulas no seu lugar, a loucura que lhe transmito, o tédio que não quero passar, os meus e os nossos pecadilhos, a entoação que dou às frases lendo em voz alta para ficar afinado como uma Maria Callas.

E no entanto o meu medo, era da tua loucura, que ela subjugasse a minha. E como eu gostava entre letras e livros que me apertasses forte e o teu beijo queimasse a minha boca, quando deixavas a língua e os lábios amolecerem até se perderem, como se rastejassem comigo, baixinho, muito baixinho, quase perdidos.

E era nesse instante de olho penetrante que me queimavas a pele, na ânsia de me quereres bem juntinho, já quase derretido, desfeito em pó.

E era esse beijo misterioso que me fazia ver por dentro de ti, carótidas, pulmões, um rim, uma vesícula, a tonalidade do teu corpo, e a consistência feroz em ti, que me levava repleto nessa união.

E nasciam assim ideias envoltas em bolas de sabão, nos sonhos que desfiava e que me permitiam escritas. Algumas pigmentadas de purpurina.

Aquilo que escrevo, lê-se.

Sobretudo nos teus lábios quando me entoas, ou nos teus dedos quando me sublinhas, tal como fazes no meu corpo, estreitando abraços, amachucando desejos.

Não entendo esta escrita, letra com hieróglifos em papel amarelecido pelo tempo, como os óculos do Eça, e os teus beijos humedecidos que me fazem um corpo afinado como Maria Callas.

Mas lê-se, claro que se lê.

17 agosto, 2009


















Adoro pintar-te como num restauro firme.
Peça a peça. Minuciosamente.

Entrar dentro de ti e esculpir-te órgão, um após o outro e dar-te a firmeza necessária para um funcionamento sereno e seguro.
Uma hora após a outra, um momento após o outro.
Afinando tudo em concreto e nada ao desacerto.

Uma cópia perfeita, esculpida, pintada, adornada, envolvida e definida.
Gosto da cicatriz a meio do corpo quando cais a pique numa página escrita por mim.

Escrevo e gravo e guardo e surgem “grafittis” alaranjados no prédio em frente do meu, coberto de frases minhas.
Cais em cadência lenta e não fujo de ti nem deixo de escrever na folha onde pousas corpo e cicatriz.

Folhas de silêncio em que desalinho a inquietude, folhas com tanto de mim, como as telas com tanto de ti.

E nesses momentos tento pintar-te como num restauro firme.
Por vezes sem tela nem tinta, apenas de pensamento.
Seguro e firme, como se em cada linha e em cada tonalidade fosse eu. De memória, mas eu.

E se algum espaço estiver mal preenchido, algum orgão a descoberto ou fora do lugar, dar-lhe-ei um toque sereno e subtil, como se nada fosse, mas tudo contasse, como se não quisesse, mas tudo fizesse parte.

E nesse funcionamento sereno e seguro, como as mãos mágicas do obstetra no acto mágico do nascimento, uma cópia perfeita, uma hora após a outra, um momento após o outro.
Como num restauro firme.

09 agosto, 2009

Perfeito



Moravas no terceiro frente do prédio cinza na rua direita.
Vivias como um mito. Linda e sedutora.

Não te sabia voz nem olhar, apenas passos e vultos ocasionais.
Sabia-te dali pelo som nocturno de oboés. Sabia-te pelo doce cheiro que largavas na rua direita, prédio cinza.

Lia-te as crónicas periódicas e os postais que enviesadamente recebia. Escrevias e eu lia.
Com amor e desespero.

Falavas de beijos e abraços. Beijos dados como quem morre. Cabeça para o lado, língua de fora.
Fosse a morte assim…!

A cidade dorme e perscruto o som que invade os céus. Trovões de partida.
Ainda vivo com muita gente dentro de mim. Não são anjos nem demónios. Apenas saudades, verdades, angustias, desejos.

Dos que amei fica o amargo doce da saudade.
Inquietante.
Tempos passados, apertados por laços e verbos.

A minha concha sem portas nem janelas. Irrespirável.
Sinto-me preso por fios de aço na loucura que vivo em mim.
O amor é sequioso. O labirinto concavo, imperfeito como o teu olhar que não vejo e os passos que distingo.

Depressão outonal a minha que me impede saídas, desculpas envoltas em pequenos colapsos nervosos, perturbação emocional.
Porquê esta concha que me arrepela fígados, estômago, cérebro. Concha envolta em mim e eu nela embrulhado como no útero de mulher.
E as cartas e os postais que recebo numa encruzilhada perfeita, que sei me fazes chegar de forma transviada.

E eu, sem te ver o rosto, soube de ti, antes de ti, mesmo.
Habitas o prédio cinza na rua direita e só te conheço da janela e dos teus textos que recebo enviesados.

Creio que os sabes para mim.
As palavras constroem pontes, meia palavra escrita, um quarto de frase.
Coisas tuas. Perguntas e respostas que se colam aos olhos, aos ouvidos e na pele.
Sim. Na pele como um desejo.
No teu começo está o meu fim, mas vou-te ler até à última virgula da última frase, num último esforço de alma sem chegar ao ponto final.

Quero ainda mais.

07 agosto, 2009

OUTRO TEMPO

Estou para aqui sozinho
Quatro cadeiras e uma mesa, a secretaria e o caderno, mais a água que beberico como o médico informou.
Estou e não estou que da janela vejo o mundo.

Disse-te que não.
Hoje não.
Fico por aqui mesmo.

Estou para aqui sozinho, e a minha Avó Espanhola nas fotos a preto e branco mais os primos das beiras.
Um arrepio de letras e desvario de ideias e a minha avó que ditava e nós escrevíamos.
De vez em quando uma espanholada e nós delirávamos baixinho, rindo a desconcerto.
- Achas que algum dia vou saber escrever?

O vinho jorrava nos pipos do douro vinhateiro e o pessoal descia à quinta lançando entre muros frases vesgas que o meu avô escondia de uns senhores de fato escuro.

Exilavam-se em copos de quatro dedos e cúmplices, exaltavam Reis e Príncipes fidalgos, Padres, Senhores e Povo.
Eram imperadores por instantes.

O Douro gritava, enquanto as uvas fermentavam.
- Será que um dia aprendo a escrever?

Tenho em mim o cheiro a pó das amêndoas, das nozes por descascar, dos fumeiros e o sabor dos queijos embebidos num azeite puro e ancestral.
Tenho por aí o zimbro, o mel e o azeite.

Recebi o teu postal amarelecido como o tempo que corre lento e inquieto.
A caligrafia perfeita, desenhada e esquadrada na linha direita
Deixo-a no lugar das restantes. Empoleiradas na estante entre o Fevereiro e o Abril.
- “…espero que esta te vá encontrar de perfeita saúde….”
Uma folha seca anexada à escrita. De ti para mim.

Eu tinha vivido dentro de ti, só para ti.
Sempre próximo e longe. Inquieto e permanente, um contraponto de arco-íris e aurora boreal.

Continuo aqui.
Eu, as memórias da avó, o pessoal a retomar o caminho com três bem medidos da melhor uva alguma vez pisada, o mesmo cheiro, e as tuas cartas que me atormentam, na segunda fila da estante.

- “Avó, será que um dia aprendo a escrever?”
- “Por supuesto…”

06 agosto, 2009

I don’t understand you. So what’s the matter with that?



Agora amanha-te…
E eu, amanho-me, está visto.
Viro-me sozinha, e amanho-me.

O mesmo tecido verde, que conheço faz anos.
As flores na janela. O cão, de cabeça a abanar em permanência no vidro de trás do carro em cima de um “naperon”
Quando as coisas não estavam bem interiormente, fazia uma pausa e mudava de rota…três quartos para a esquerda, meia-volta.

Espreguiça-se como uma criança.
Tenta ver onde não vê, atingir o que não alcança, distinguir.
Criar espaços de lugar nenhum, de fronteiras ilimitadas onde infantiliza a vida.

-“Agora estou velha, mais velha que gasta”.
Faço então o quê?
Amanho-me é o que é.

Era muito bonita, uma princesa.
Tinha os homens todos atrás de mim.
Sim, que a minha mãe não me deixava dançar com qualquer um, nem me largava um minuto.
Agora é diferente. Nem sabem o nome e já se beijam.
Perdição é o que é.

Mas eu ainda vou ser bonita. E namoradeira.
Três passos ao lado, dois em frente, uma dança vertical, um tango aprumado,
“et voilá”…

Irei morrer.
Um dia terá de ser, tudo tem o seu tempo e o meu já lá vai, mas ainda não estou interessada.
Não marquei data, nem me preocupa tal coisa.
Tenho muito espelho para olhar, muito creme a deslizar.
Eles que se amanhem, ora.

Até lá ainda sou capaz de fazer coisas, muitas coisas.
Já cresceram os filhos. As árvores que plantei e os livros que escrevi, estão por aí.
Um dia destes faço outro…
…livro, claro.

Já não se deitam labaredas de paixão, não se tratam senhoras como garbosas flores, é tudo mais artificial. Não existem cuidados como naquele tempo. O cumprimento, a palavra dada, o gesto, o envolvimento... esta cabeça que não para.

O mesmo tecido verde, a cabeça do cão pendente.

Eu era nova e linda. Uma princesa.
Tinha laçarotes e rendas nas saias. Um espartilho que me adelgaçava a cintura.
Peito firme e boca de rubi.
E os olhares… Ai os olhares.
Agora amanhem-se….

Perdi o meu amor nas vielas de uma vida feita de equívocos.
Deitava-se dentro de mim durante tempos e o céu voava em desatino.
Contava-me histórias de longe, dos confins, onde ele andou.
E ficava horas baloiçando suavemente comigo assim.

Um dia sei que vou perder o Inverno e não ver a Primavera que se aproxima
E ele dentro de mim como borboleta num casulo…
E linda que eu era… mas ainda não é tarde, não é tarde para mim que ainda vou ser linda como uma princesa

Resta-me manter a respiração.
Que se amanhem…!

05 agosto, 2009

Concerteza que és tu



Tu e o narizinho do costume.
Não é a cara nem as orelhas, muito menos o riso.
É o teu narizinho do costume.

-“quem não tem maçadas põe o dedo no ar…”
- “Pim, pam, pum, cada bola…”


Reparo em ti. Estás na mesma.
Seca, gostosa, cheirosa, dengosa… sua vaidosa.
Mesmo essa covinha quando sorris e que te pertence como a tela ao pintor.
Não passam por ti os anos, nem os dias.

E eles? Passam por ti ao menos?
Vai passar um século e tu… linda, esbelta, vaporosa.


“… para a galinha e para o peru, quem se livra és tu…”

Tu e o teu narizinho do costume

Tu assim e eu um trapo. Farrapo de gente.
Rugas e rugas e sardas e a pele que se encolhe.
Esta papeira, o inchaço dos olhos, o canto da boca esquisito a curva nas costas e o peito sem elasticidade.
E tu assim, diferente.

“… o ultimo a chegar perde o lugar…”

Amontoados de gente que te rodeia qual figura principal da telenovela das oito.
E Lisboa que se esconde e desenha coloridos em sombras e pontos de luz amarelos e vermelhos como um lençol que se estende para nós

E eu a ver Lisboa ao fundo e tu a desaparecer como as estrelas no Inverno.

Não é de certeza o caminhar ou o gesto, nem os olhos, muito menos as mãos.

É sim, o teu narizinho do costume.

24 julho, 2009

Um adeus e um sorriso















Porque me dizes adeus ?

Porquê ? Um adeus com um sorriso como se partisses satisfeita?

Esse acenar e um sorriso, o sorriso e um rosto, o rosto e tu, juntos até mais não.

O silêncio longe das vozes. A tua respiração longe de mim e um adeus, um aceno.

O relogio que não para como a vida que não termina.
Apenas nós. Eu e tu.
Como um relogio de parede com a minha vida toda lá dentro. Tic-Tac, tic-tac.

Tu que dás corda e eu que me viro e reviro, em minutos e segundos e horas.
A tua cegueira, a minha surdez, a tua lingua e os meus dentes.

O teu amor e a minha paixão.
A minha roupa sempre azul, e a tua branca imaculada.

O cesto do pão. Três carcaças e um pão-de-deus... valha-me o Santo por ti.

Lenços de aceno. Uns brancos, outros coloridos, uns usados, outros sabe-se lá.

Tal como o teu sorriso que nem eu sei, a tua voz que se foi, a respiração entrecortada por lançamentos de spray para a asma e a tua lingua nos meus dentes.

Porque me dizes adeus ?

11 julho, 2009

Psst, psst...!






Psst, psst…!

Sabem se estou vivo, se isto é tudo real e se ainda não entrei na espiral de loucura, que adivinho breve.... – dizia João Batatim.
Não é fácil viver com alguma sanidade nesta selva.
Aliás só alguns conseguem meter a cabeça de fora do pântano em que se sobrevive.
E esses são os tais…

Estava então...como se chegasse ao fim.
Sentia-se naufrago numa ilha com cacilheiros que desembocam nos lugares em volta.
Os dias misturam-se como nós de marinheiro e pandemias virais.

Faz um cerimonial de palavras desacertadas e procura geometria em frases sem nexo.
Pensa (?) na odisseia dos caminhos que percorreu e outros tantos para percorrer e não se encontra neles. Corre por entre o fio da navalha, o abismo que se aproxima, pelo meio dos carros em contramão e ele próprio em contra-circulo.

Dizia o João Batatim no Júlio de Matos, entre limpezas de vidros cuspidos entre dois dentes falhados,...
- Tenho um lança-chamas que não funciona…! O lança-chamas poluente, que diz trazer às costas e que tudo resolve.
João Batatim, o homem sem dentes e cuspidor sazonal.

Psst, psst!

Que tal estou?
Camisa branca com riscas fortes de azul, um galanteio no canto da boca e um tisnar no olho que o faz coçar até arder.

Junta-se à equipa.
Todos encostados ao parapeito do muro, olhares enviesados como corvos em quarto crescente.
Remoía as ideias entre corpos que se cruzam. Dois saltos entre a passadeira listada da Avenida da Igreja.
- Não posso tocar nas brancas, dizia.

As árvores dançavam em seu redor, os carros buzinavam, velhas pindéricas retocavam lábios de papel.
Canastrões gelosos até ao pescoço repenicavam unhas até ao sabugo.

Meio-dia-e- um-quarto no relógio da Igreja.
Numerações romanas que inverte a pretexto.
Abana as orelhas como ventoinhas e o nariz como a bruxa malvada.
Os semáforos não mudam faz um minuto e vinte, traz o Diário de Noticias de há quinze dias e o urinol é a parte de trás da árvore direita e a dianteira do Citroen Ax.

Um corpo que não cabe em nenhuma pele, uma alma com mil segredos por desvendar e um terço de gente a preceito com três quartos sem jeito nenhum.

Psst, psst!

Corre e faz peões, ziguezagues e cambalhotas, um pedaço de jornal e cuspidela directa no vidro dianteiro quando o semáforo estaciona no vermelho.
- Só dá moeda se quiser, senhor.
Cigarros sem cor e dedos cravejados de negro.

Treze horas.
Vai recolher e leva a equipa que sai do parapeito, enquanto velhas gaiteiras de base despejado na direcção desconexa das orelhas, pedem mais um galão e meia torrada.
Abana as orelhas e torce o nariz.

Os semáforos mudam de vez em quando e todos se acotovelam na direcção da primeira porta.
Saltita ao pé-coxinho e pisa degrau sim degrau não, enquanto a fluoxetina espreita, no contorno do corredor.

Coça o terceiro cabelo do risco ao lado e mergulha nos braços do sofá da sala.

Psst, Psst!
Façam silêncio por favor.

09 julho, 2009

Chiclete de morango





Há coisas que fazem muito mais sentido juntas.
Tom e Jerry, Bucha e Estica, Bugs Bunny e Duffy Duck, tu e eu.
Sozinhos somos como encenação trágica, juntos, um explosivo.

Éramos acordes musicais nos bailes de cave, "slows" na garagem, beijos com sabor a chiclete gorila de morango, musica “tecno” que desafinava nas colunas “marantz”.

Luzes que se apagam em cada mudança de tempo. Tempo que se definia em cada salto da agulha no vinil.

Tempo de espera entre as horas e as desoras na esquina da rua e avenida da vida, entre os travões de um carro e o chamamento da minha avó.

- Pedrinho.... Zé Pedrinho.... ...(Já vou Avó, estou quase a acabar este texto..)
E passava do beijo da chiclete para o abraço chocolate e um encosto de gelado que nos adoçava a alma e refrescava o coração.

Éramos uno e indivisíveis aos olhos da esperança.
Matavas-me com o teu olhar e ressuscitava entre um jogo de bola e fisgas atiradas a pássaros no quintal vizinho.

Rasguei calções e esfolei joelhos, fazia cavalinhos na bicicleta de volante em régua e espreitava-te no olho da rua pelo canto do mesmo.

- Pedrinho.... Zé Pedrinho... (...já vou Avó, está quase...)

Fui para ti como um segredo ou a reposição da tintura de iodo na ferida por sarar.
Saltavas do 78 em andamento com acrobacias doidas que fazias com a chiclete gorila na tua boca.

Os dias passavam lentamente e o sufoco de te ter acalmava com a chegada repentina e o cheiro de fragrâncias no ar.
Recolocamos ordem no inferno e despejamos diabinhos, borda-fora no encontro funesto com a tua partida.

O degredo que tiveste, já não te permitiu voltar.

Bolas enormes saídas da boca após sopro na pastilha de morango.

- Pedrinho..... Zé Pedrinho...( ...Avó... já está, vou agora...).

04 julho, 2009

A PRETO E BRANCO












Fotos à “Lá minute”, a preto e branco.
Radiografias de nós.

Chapéu com dois bicos que o protege do sol e um pano preto onde se refugia na busca do melhor retrato

O cavalinho malhado com o menino sentado na garupa. Sorriso traquina e um “muito bem” atirado pela mãe….
"Click-clack".

Puxa o filme, qual raio-x articulado.
Os traços começam a adquirir uma fisionomia familiar, é um preto e branco perfeito. Uma chapa bem tirada.

Vinha com o vestido aos folhos, chapéu de aba larga e uma “pouchette” na mão.
Coloca-se em pose de estrela defronte da câmara pontiaguda e planta rouge, rimel e baton, enquanto as batidas cardíacas perdiam ritmo próprio.

No cimo das escadas, agarrada ao corrimão que engolia o jardim em pedaços, corria desenfreada com os olhos brilhantes, duas bolas de gelado e um cone de bolacha.

Falava com pálpebras semicerradas e mel grudado no céu-da-boca.

O vinho escorria nas pipas, a dez escudos o copo, nas caves do Porto numa Gaia ainda vila, com Rabelos dançantes nas margens do Douro.

Em conjunto percorriam as entranhas da Sé, e perdiam-se nas suas vísceras, trocando os Vês pelos Bês.

Em cada canto, volúpia de sombras numa simbiose de corpos e marés.

Noite de festa engalanada e o corpo do velho permanece inerte, preso pelas raízes que já criou no chão.
Ecos de palavras trocadas, um “cimbalino” e uma torrada, por favor.

Vem agora a criança birrenta soprada pelos gritos da mãe que o manda na direcção do senhor da fotografia. - Fotos à "Lá Minute" respinga ele.

Puxa do negro do pano, pede sorriso no choro da criança e dispara a máquina que estremece o cavalinho desengonçado.

Fotos a preto e branco, radiografias de nós.

Quando o tempo tingir o encanto da vida e permanecer pano de fundo, abrimos o cofre-forte das recordações e assumimos o velho cavalinho malhado e o senhor do “clik-clack” estridente após chapa massacrada na face da criança que já não és.

E fica esse como o espelho da alma.
Fotos à “Lá-Minute

03 julho, 2009

Por dentro de mim...!




Entraste suavemente como doce melodia e adornaste a minha alma com fragrância de framboesa.

Tens ritmos desenfreados em ti, que tentas libertar na minha direcção.
Refreias o passo, hesitas num “tem-te não caias” incómodo.

Queres-me de qualquer modo e jeito, sem pecado, constante e tenebroso, eficaz e permanente.
Percorres-me de cima a baixo, de fio a pavio, numa procura intensa e inquietante.

Saltas entre espaços e defines-me por entre órgãos que percorres como esquiador em gelo deslizante.
Sentes um marulhar nas ondas do meu corpo e reténs o ímpeto. Há medida que te mexes, o coração galopa ritmos vertiginosos

Basta-te um toque, lábios inquietos, sangue que circula como lava ardente

Ecos que se arrastam por dentro de mim, que procuram um espaço entre o beijo e a partida, no momento em que usas o meu interior como quem aluga a sala próxima.

Insistes em aparecer por entre letras numa dança envolvente e sinto-te por dentro de mim nos silêncios que faço quando o vento não está de maré.

Sabes-me bem, mexeriqueira, e o conforto de te sentir ali, ora deitada ora sentada num cruzar de pernas voluptuoso

E sorvo-te feitiços de algas marinhas, macumbas de rapapé, amuletos e milongas, talismã de águas turvas nas entranhas que vês.

Porque me queres ver e queres sentir, porque desejas mas afastas névoas que te ensombram e tiram o brilho do olhar mesmo quando coras.

Um peito ardente, um misterioso “malmequer” pelo “bem-me-quer”.

Atravessas o meu interior como atravessas a vida, intensa, escrevendo um diário de bordo.

Um beijo e uma partida.

Encosto o queixo ao peito e concentro-me no teu rodopiar em mim, procurando-te como a Águia a presa.

Sopro-te de mansinho e assobio-te com junção de lábios e língua, alimentando a candeia do amor antes que o fio se apague e nos afaste dos caminhos da luz.

Um beijo e uma partida

... por dentro de mim.

23 junho, 2009

She




A lua contorna-te num capricho impressionista, deixando rastos de pinturas como telas de Rembrandt em gestos de Morfeu.
Danças, rodopias, envolta em lenços de seda e tapas-me o olhar para que não veja o teu voar.
Ris e cantas, corres e foges.
Regressas num instante e partes noutro qualquer.

Desenho-te um rosto imaginado e contemplo-me por detras da pele que ainda nos separa encontrando-te a meio tempo entre um beijo e notas adocicadas de uma musica qualquer.

Uma metade de asa que esvoaça por torrentes de azul.

Colas com fogo a pele rasgada das unhas cravadas por ti, quando o desejo aperta e descobres o mundo num ritmo unico, pintando em aguarelas de cor, almas unidas num só.

Enrolo-me nas tuas pernas e cheiro-te embevecido enquanto repousas num perfume de princesa.
E imagino-me esventrado por desejos teus entre pedaços de alma e paixão, cobertos por silabas graves de um poema de Neruda adornado na voz de Caetano embalados em solfejos mil.

Vazas na lingua um mar que não há meio de me afogar e fazes poesia com cheiros, formas, gestos soltos em espaços do teu corpo que tacteio como em Braille.

A tua voz que avança, os gestos largos e eloquentes, uivo de loba ferida, presa ao pensamentro esculpido em sal, domada por sonetos ritmados de Chopin.

A Lua espreita de novo, timida, sonolenta, uniforme, clareando sonhos.
O mar brilha tocado pela magia do beijo que lhe depositas.
Abraçados, deixam-se levar pelo "sem nexo e sem rumo" até despertarem num soluço matinal.

21 junho, 2009

O QUE É ACABAR?






Vive num T1 com uma enorme varanda.
Sozinho com um fogão, frigorifico e um pombo que lhe traz noticias do mundo.

O silêncio que não consegue deixar para trás. Um sorriso que não consegue descolar.
Sonhos que não quer perder.

Um relógio que só ele sabe que existe, um perfume leve e fresco como a espuma de um banho.
Um aceno, despedida. Um adeus, de partida.

Qual o nome desse corpo a que chamas teu? Porque atribuímos nomes quando nem nos conseguimos decifrar por inteiro?

Ficas num limbo e aguentas até à sétima vaga de uma onda que te leve.

O teu tronco, outra cabeça. Os teus abraços, outro corpo.
A vida toda dentro do relógio que só ele sabe onde está.

A sombra do corpo que só eu conheço e o brilho dessa luz nos olhos, intensos, pouco para o tamanho da saudade que adivinhas.

Cilindro com a verdade os morteiros disparados por couraçados de algibeira, quando te injectam morfina nas veias esquálidas e corroídas.

Perdeste tempo de mais, num tempo que tem sempre de menos.

Fazes intervalos entre palavras como os dentes que te faltam na trincheira perdida entre idades que já nem contam – dizes tu.

Vagueia o pombo num arrulhar cúmplice de memórias, gestos e sonhos feitos a dois.
O momento da cumplicidade invertida, o momento das palavras quietas na solidão dos afectos entre diferentes, como se cada momento fosse apenas o fim do intervalo.

Lapidaste o desejo e esculpiste a lágrima furtiva enquanto os ponteiros desandam em sentido oposto e as marés invertem tenebrosas passagens do tempo.

Já tens acordeão no lugar do piano, sol sem nuvem e esperança no espaço entre o fogão e o frigorifico num T1 de janelas viradas a norte.

A tua mão escreve no papel que imite sons que não são os teus, e vozes que escutas por dentro de nós. A vida toda num relance, como se fosse acabar.

O que é acabar ?

09 junho, 2009

GENTE


(Hey Jude)


Uns brancos, outros negros, outros pintados.
"Gays" e acrobatas, actores e travestis.

Estudantes e trabalhadores do Estado, mulheres a dias e jovens sem rumo.
Engravatados e desnudados.
Católicos e anárquicos, protestantes e Islâmicos, jovens sem curso e velhos cursados.

Pais e avós, filhos e netos.
São Povo, pessoas, e gente.
Não gostam de gostar de fugir, nem tão pouco dos que o fazem.

Primam pelas diferenças e abominam carneirismos empacotados em filas de sentido único.
Gente que encara a ignorância e o insulto, com a leveza sobrevalorizada de coragem.
Gente que usa torpedos por desembrulhar preferindo o gesto e a palavra às armas.

Gente das sete partidas do todo que é mundo, numa globalidade fascinante.
Gente que dá as mãos e luta e grita e chora e canta e solta discurso em prol da paz da união e das diferenças salutares.

Todos já passaram pelo ridículo, já se enganaram, já coraram e já amaram sem esperança, proporcionando esperança a outros.

Gente que tem medo mas tem voz que desafina e desatina que se expõe a criticas e apupos, a palmas e doces galanteios, gente de marés e tempestades.

Vencedores e derrotados.
Gente com sucesso e gente sem sorte, gente que hesita e que desilude, gente que já foi e que ainda é.

Gordos e magros, aprumados e maltrapilhos, salteadores e saltimbancos, gente do Governo e sem governo, gente com casa e outros de lata, gente do yogurte e da cerveja, da Joan Baez e Tom Jobin, gente de futuro outros sem fim.

Gente traída por opões e de convicções que tem e partilha emoções.
Gente que apunhalou sem lâmina de aço sonhos e solidão, que correu e caiu que se levantou e sorriu
Gente que se pinta e se constrói que teatraliza e se corrói.

Gente da "Burka" e de "Crucifixo" de "Piercing" e de eucalipto.
Gente que vive e sabe e faz, gente branca, negra, índia e outros sem cor,
titulares e suplentes, carregadores e tocadores, de sotaque e cantoria, loira e morena, cabelo escorrido e carapinha, "Homo" e "Bí" gente que é ...

SÓ MAIS UM IGUAL A TI !

06 junho, 2009

VASCULHAR SEGREDOS













Se os meus dedos vasculhassem os teus segredos no azul dos olhos em que me perdia,

Se me atravessava em ti como um tronco num desconcerto, violinos pegados, partituras encobertas por letras pequeninas e sinais vitais que sobem e descem como picos de tensão.

Se os meus dedos vasculhassem os teus segredos e como cirurgião afastasse os teus órgãos e alinhasse de novo na medida exacta da minha medida.

Moldo na palma da mão o coração que tenho como meu, e vejo-te através dos olhos peregrinos, exasperados de verão, lábios húmidos e sorrisos de menina, com hábitos e vícios de sono e de pecado.

Os meus dedos moldam essa figura frágil, esse coração latejante, os cabelos soltos e as madeixas que desesperam por um afago.

Apanho pedaços das mãos que fertilizam, enquanto abres os braços na procura de um aconchego embalado ao vento.
Pés descalços, perfume que me adoça e entontece.

Se os meus dedos vasculhassem.

Vieste com a subtileza de palavras e versos arrancados da noite que era a nossa, e eu embevecido de corpo e alma, mais alma que corpo, moldando devagar para não estragar, o teu que era o meu coração.

Preciso de mim de volta, sensatez, pedaço de calma e sonho, voz e mundo, constante e intenso, apegado e arrebatador, sonhador mas também pragmático.

E quando a lua estiver de novo no seu lugar, soltarei o meu grito descuidado para marcar o teu lugar em mim.

Este amor vivo é alegria, dor, tédio, paixão, apego, alma e pele, que anestesia o pensamento e reclama ar.

A lua que te traz e o sol que te leva em partes iguais.











Um Tio dizia ter passado parte da sua vida “agarrado” a um fantasma mudo mas quezilento e inoportuno.

Aparecia onde e quando não devia tentando chamar a atenção de forma despudorada e rezingão.

Perseguia-lhe os passos como uma sombra primaveril e fazia desenhos, escrevendo datas e nomes, que ía passando em papelinhos travestidos com flores.

Quando algo de pior estava para acontecer, premonitoriamente a fantasmagórica criatura ainda mais lhe entediava a vida.

O telefone não tocava, o carro avariava, o tempo arrefecia, nuvens desabavam como correntes sanguíneas.
Bebia lágrimas que não secavam e corria pelos corredores fugindo da própria sombra.

Tinha medo da noite.
Dormia com um pequeno candeeiro aceso.
Vê-se melhor de noite os olhos das gentes - dizia, e evocava os deuses no desespero da evidência frágil do Ser Humano.

Abraçava-se à densidade do tempo em leito de guerrilha sentimental.

Ouvia aqui e ali acordes de grilhetas, sons díspares de torniquetes, instrumentos de morte e vida.

Atravessa a noite sem cálculo nem conforto, sem mácula nem sonho, num pesadelo constante.

Procura na luz a intermitência dos medos, para aí poder enterrar de vez o seu fantasma, nesse cemitério secreto que esculpimos em cada um de nós.

15 maio, 2009





Um berloque dependurado no gancho das calças,
A urze colorida e pasteis de nata com canela e nas mãos um cheiro a rosmaninho e cerejas que anunciam Maio.

O som salgado invade o espaço e as ondas de calor resultam numa explosão de adrenalina delirante.
Molham-se os pés na água fria da Foz, discutem-se as "gajas" da noite anterior e os "gajos" amaricados que debutam por ali.

Joana, reaprende a distinguir as sete cores do arco-íris, olhando vitrais espalhados na palma da mão, relembrando tempos recentes.

Dias diferentes estes.
Árvores como demónios entrelaçados com a terra e a paz que brota da areia em pegadas de menino.

Por vezes confunde-se, mistura palavras e enrola-se no tempo como a farinha no pão e o café com o leite.
Um tempo que se escapa entre os dedos, como os finos grãos de areia.

Mergulha com a luz da madrugada e traça fronteiras entre os trilhos das aves.
Tanto está como não.
Por vezes encontra-se. Aqui ou ali. Mais ali, evidentemente.

Uma espécie de jogo das escondidas, emoções de momentos inconstantes como ondas do mar.

Tem sininhos com berloques na cabeça que se tocam sempre que procura mudar.
Um sinaleiro moral, de braços abertos, indicador esticado.

Para ela, a coisa mais difícil da vida será extrair um dente, subtraindo ao hemisfério central da cabeça, um siso ou um canino.
Aprende-se a viver com isso. Como um defeito de nascença, uma carência vitamínica ou um incómodo, apenas.

Joana, faz réplicas de sorriso como obras-primas originais.
É Princesa em conto de fadas, com lágrimas cristalinas disfarçando tristezas.

Estende os dias pelas noites e embrenha-se em sentimentos difusos como qualquer jovem.
Vive entre "Morangos" e "sm´s", entre a corda que estica e o fio que é curto.

Sonha em conceber os filhos que lhe vagueiam a alma enquanto embala a cada virar da maré.

Atira pedrinhas aos saltinhos para a água, transformando-as em estrelas.
Destas, soltam-se partículas minúsculas que inundam a praia deserta neste tempo.

Tens dentro de ti, muita gente que se atropela, muitos sonhos, um coração e uma só cabeça.
Por vezes atiras às cegas, tacteias no escuro, tentas não saber, nem adivinhar.

Refugias-te em ti, fazes pinturas de guerra e partes em pedaços a alma que agrilhoaste.

Um berloque dependurado nas calças rotas e um sininho que te avisa quando deves serenar os diabinhos que te percorrem a três quartos.

13 maio, 2009





Dá-me mais uma dança.

Apenas uma, a ultima, se assim o entenderes.

Pode ser um tango de passos rápidos, uma valsa ondulante, um slow apreciado.
Uma ultima dança, onde te aproximas bruscamente e olhas provocante, ousada, intensa.

Percorres-me com as mãos, aproximas e afastas repentinamente, estendes os braços num ritmo marcante e rodopias no meu corpo.

Dança esse tango e arrasta-me nesse tornear esfusiante
Sou abraços contigo, pernas que se escapam e sobram no espaço, corpo dormente, quente, como lobo faminto ou coyote com cio.

O teu sopro na minha voz e o grito que me abafa, um encosto.
Três passos apenas. Rodeias o assunto e contornas objectos.

Somos doença crónica, famintos madrugadores, um ataque de asma.
Coração aos solavancos, arfar de cansaço e paixão.

Um T1 pré-fabricado, bem medido, portas e janelas,
Novo aconchego, lábios no pescoço, braços esticados ao infinito.

Peito no peito, batidas largas de coração, o olfacto que se perde, o paladar, os sentidos sem razão, e uma razão sem sentido.

Uma última dança, apenas.

Pode ser?

08 maio, 2009




Sinto-te a falta e não te conheço.
Entraste sem bater, percorreste-me a alma e não autorizei.
Conforme entras, sais e não dizes nada.

Fico inquieto, como exilado real a banhos na linha.
Reclamas dos meus gostos, sugeres impossíveis e propões impraticáveis.
Eu com um só nome e tu de bandeira monárquica na pele, sapato italiano e vestido de bom corte.

Percorro lojas de Euro e o telefone velho da sala emite sons descarados, enquanto me alcanças com rubor súbito e te esfregas em mim com pés nus, tornozelos imperfeitos, e brincos de madrepérola.

Entras e sais como frequentas a igreja matriz, benzes-te três vezes, e eu, num eminente cataclismo nuclear, pelos eriçados, sangue que ferve nas veias, a tosse funda do tabaco que me abafa e a voz da minha mãe como licor de palavras.
Rasteiras-me as entranhas e fazes-me em farrapos com nós indecifráveis nos olhos.

Tens Tias do Brasil, casas no Pólo-Norte e comes alcatra.
O verniz que não vai com as unhas, o pé com o chinelo, o relógio do avô, o sangue azul que se espalha e eu lunático e aluado, usando creme nívea nos “entrefolhos”, e o Padre Alfredo que me empresta a batina para a peregrinação do Santo.

Li o horóscopo e hoje não saio.
Tenho medo do eléctrico 24, do vaso no parapeito, da escada na janela e do teu enrolar manso pela minha vida... redonda, “sem-rei-nem-roque”.

Sinto-me jogado aos bichos, órfão de sentidos, corpo dormente, e tu sorriso chique, perna alçada, Deus-Pátria-Familia,num valha-me o santo de teor virginal.

Lanço-me no álcool, mais “panaché” que imperial, estremunho a carcaça, salpico-me de farturas da feira, engasgo-me no escárnio, contrato dois canibais que te devoram em lume brando, e lá vão os berloques, os anéis de dedo mindinho, os trocos da carteira, as fotografias de família na “Côte-d´Azur”, os alfinetes de peito, e a cinta de ligas que te arrepanha a pele em pobreza divinal e riqueza antropófaga.

27 abril, 2009





Gostava de ti assim,
menina de coro, intocável, perfeita, mesclada de mulher carnal e fatal, feita gata no ronronar do tímpano direito enquanto me percorres as entranhas com suaves arranhadelas esquartejantes.

Gostava de ti assim,
eu borbulhas na cara, a barba que rebenta e tu um sorriso chique e maroto.
Mais maroto que chique.

Eu todo embaraço e tu um pedaço.

Gostava de ti assim,
sem rumo nem norte, em piloto automático, modo quase vegetativo, articulando sons, e eu atirado para um canto, órfão de sentido e de razão.

Uma fímbria de alento e a boca calada de gritos rarefeitos, enrolados, impregnados de
sol e sal.

Gostava de ti assim.
Insegura, discreta, perspicaz, ondulante, saltando da veia cava inferior para o ventrículo esquerdo, mexendo e remexendo, seduzindo-me até os poros se abrirem e o sangue correr como o Douro nas entranhas da Régua, e o pedacinho de mel que goteja na alma e faz buracos num cantinho do coração.

E eu, dedos em nós e os nós dos dedos, que se abrem como garras afiadas numa dança sem fim, como teclado de piano ao som de Mozart, numa obra de arte em ti.

Gostava de ti assim
Uma faixa branca de dois palmos, como maré vazia e sinais criativos de vidente, para inventar futuros e ler a linha da palma da mão como seara alentejana.

Uma mão de face côncava que esconde pequenos tesouros, e o adivinhar do teu esgar e tu a passar de novo, de menina de coro, intocável, branca e bela para guerreira tentacular, fazendo de mim, teu refém, numa masmorra qualquer.

26 abril, 2009

Vampirices de alma

Vou gerindo restos de silêncio, adornando-os mais um pouco, porque me sabe bem ficar calado num canto.

Assim como se vivesse a três-quartos em lembranças mudas.
Já dizia o Sr. Américo da tasca quando vendia “quartilhos” de vinho aos fregueses que habitavam o balcão sujo do tinto carrascão.
- “Mais vale calado que galo desafinado”

E vou lendo por dentro de mim, pedaços de imagens que me atropelam os dias.
Gente que vejo, outros que analiso, outros que passam apenas, aqueles do café, os do restaurante, os que se cruzam, os que descruzam.

E muita dessa gente que me habita a mente(os próximos), o coração(próximos e de paixão), o estômago(das preocupações), o fígado e a bílis(os que me irritam) e os do intestino(os que me desesperam).

E aqueles que cambaleiam em caminhadas tortuosas, que te bebem os fluidos e sugam o sangue, roem carne e ossos e laceram meninges.

São cheios de salamaleques e cortesias de enxofre, vivem de hipocrisias bacocas, destilam flatulências de veneno, roubam a almofada do amigo, sentam-se no teu sofá e debitam ódios canibais onde cozinham a própria língua.

São alcateias que se espalham pelos quatro cantos da vida, e surgem como encantadores de serpentes, ajeitando vestes brancas como donzelas imaculadas encobrindo o manto de putas baratas e gastas.

Por isso me adorno mais um pouco para ficar aconchegado na leitura deste canto, vivendo em lembranças mudas, para evitar os momentos em que a dor é tão funda e tão forte que me sai em catadupa pela boca.

Sonhos meus ou vampirices de alma ?

20 abril, 2009






Corria desenfreado escada acima após a missa domingueira.

Roupa preparada pela mãe, camisa azul clara e pulôver azul-escuro de riscas fortes. Penteado para o lado e uma poupinha abrilhantada com um toque.

Levava o irmão pela mão e colocava-se estrategicamente por debaixo da arcada do prédio, enquanto o seu amor ia comendo rebuçados e torrões de açúcar à janela.
Sentia-se a tremer, mas sentia-se feliz.

Reparava nela faz tempo na entrada do liceu.
Assim de repente e de relance.
E esse momento era tão breve, tão fugaz, que o coração batia descompassado em formato digital.
Os rebuçados como amor puro de açúcar caíam em debandada na sua direcção e ele cristalizava o seu olhar no dela.

Ela a menina doce, de olhar faiscante.

Hoje já não se comem torrões de açúcar e o tempo não tem memória nem se fazem dias em sucessões geométricas.

Fazem-se mais silêncios, usam-se frases desconexas, é tudo mais virtual e deixamos de fora o espaço dos abraços.

Enchemos o corpo com potássio, envenenando as veias que mal deixam circular, e entre um megabyte e um impulso, esquecemos os olhares.

A primavera chegava na hora certa, com tempo e passo cadenciado.
Escreviam-se cartas a tinta-da-china em papel a vinte cinco tostões a resma, vendidas na papelaria de esquina.

Entrelaçavam-se dedos em mãos e mãos no corpo que hoje se afastam.

Na época não havia medo, mas distâncias complexas por hábitos de educação, hoje temos medo de não saber amar.

Ajeitava o cabelo e metia para dentro as fraldas da camisa.
O irmão pela mão e dez-para-a-uma-hora da tarde que o almoço arrefece e o pai não gosta.
Ainda somos meninos e juramos eternidades a preceito, como se as flores que colhemos não murchassem, como se o céu se pintasse multicor e o chão que pisas fosse fruto.