12 janeiro, 2009

DANÇAR AOS PÉS DA LUA













Abriu as gavetas e foi despejando, passados…. emoções….. espaços no tempo que o tempo não conseguia apagar.
Ainda esperava um retrocesso na vida. A angustia de saber que ficava só. Que não o teria por perto.

Perdia-se faz anos naqueles instantes de abrir e fechar gavetas, no arrumar e desarrumar, como se pudesse ainda endireitar alguma coisa… trazer alguém de volta… trazer-se a si à vida.
A casa é enorme, três quartos, duas salas … sorvo cada frase como cada lembrança, cada ritual como um agendamento.

Abre a vitrina e retira as caixinhas, objectos que não amarelecem, uma caneta, um fio, um documento, fotografias, filmes.

Relembrava os filmes que fez e não publicou, os que publicou e não fez, os que viveu e outros que gostava de ter vivido.

Bilhetes deixados ao acaso de uma lembrança, de uma mão que os arrumasse.
Frases escritas sem luz em noites romanceadas de gestos partilhados e aromas de amor espalhados pelos quatro cantos do quarto.

Quanto mais rebuscava, mais recordava pedaços de sol apanhados em curvas da vida
adornando a face em momentos de ternura caprichosamente colhidos como frutos maduros.

Uma dança única… apenas uma dança. Um volteio, três passos, a tua mão no meu vestido e eu que definho a teus pés.
Desnudo-me para ti e enlevo palavras açucaradas num rodopio a três quartos com um toque subtil de anca para ti e de peito para mim.

Seremos espectadores de um céu azul atapetado de carmim, enquanto pérolas escorrem na tua face como pingos de um suor perfumado.

Consigo pensar-te e ter-te e conduzir-te pela minha mão, enquanto te salgo a pele e te devoro nesta noite em que me sinto só, após o regresso do baile da lua.

Estou provavelmente ébria, inquieta, mas recuso-me a abrir gavetas e vitrinas e a amarelecer como os bilhetes que me deixaste ou a ficar em pó como o tempo em que nos perdemos.

Sou mais do que isso… e do que isso muito mais, saberei voltar à vida e esconjurar almas perdidas que me assolam o pensamento.

Terei ritmo musical e viajarei meio descalça na ilusão de um novo crepúsculo, arremessando para longe a solidão que me atormenta os dias e arrefece a alma.


Possível morrer de saudade?
Prefiro perder o norte, açucarando a solidão dos monólogos já esquecidos,
libertando-me da masmorra e dançar aos pés da lua.

3 comentários:

Mona Lisa disse...

"Possível morrer de saudade?
Prefiro perder o norte, açucarando a solidão dos monólogos já esquecidos,libertando-me da masmorra e dançar aos pés da lua."

Eu achava impossível, mas agora sinto que estou mesmo a morrer de saudades...É uma morte lenta, muito lenta.

Gostei bastante do blog!
Boa semana!

antonia disse...

E novamente vc consegue...a emoção do recordar..a saudade doendo como ferro em brasa... parabens JP, vc sempre consegue...
Bj no coração

Veruska disse...

Meu Deus, como eu gostava de saber escreve assim!

Nem consigo escolher o meu parágrafo preferido. Estou atordoada.

Adorei!