24 fevereiro, 2009

BOA NOITE, MINHA MÃE

Vestidos que cirandam na praceta, cabelos alinhadinhos.
Meninas de cetim e seda, mais laçarotes...

-Beijinho tia.
-A bênção madrinha. - Deus te abençoe minha filha.
Colarinhos apertados e calças justas.
Hora de jantar. Todos na mesa e a mesa com todos.
Silêncio profundo. Uma colher que sai do lugar e todos se movem.

Vocábulos redondos, historias de vampiros no salão após o brandy.
Entardecer musical e um serão que me aquece no teu olhar.

Preciso de espaço nos músculos da alma, neste caminho disforme em que plantei a existência de nós.
Castelos erguidos com cartas que escrevemos e um desmoronar de tudo o que fomos sendo até hoje.
Um tufão, um vendaval de notícias que fazem mudar o rumo do vento e da vida que se erguia para nós.

Beijinho tia. – Deus te abençoe minha filha.

Um vazio oco neste abismo sem fim.
E a fumarada dos charutos na sala do piano que range sem saber, e os nossos olhos que tropeçam num espaço sem tempo.
A alma que desperta ao cair da noite e que me assombra o caminhar sem rumo, por ti que asfixias pensamentos.

Invade-me uma cegueira, um olhar para dentro, insano, demente, avesso a mim mesma.
Tenho nome de nove nomes escritos sem parar e sem tempo para te ver se quer.

- Olá Tia, - Olá senhora minha Mãe, que me escondes entre vestidos e pianos de cauda e brandy de gente crescida como dizias sempre …

Refugio-me entre a dor e a pele que me veste, e dores como agulhas afiadas, porque não te sei por aqui.

Vou morrer dias antes de os viver
Tenho nove nomes de gente e eu sem saber que apelido assino.

Já não tenho os linhos, cetins e sedas de outrora, nem sol resplandecente.
Fustigo névoas e caminho com pés descalços em lama

Agora já não me vês, mas faço-te meu, num rascunho sem sentido.
Evaporo o meu corpo no teu condensado em gotículas de mel e framboesas.
E debito-te palavras que não sei o sentido nem procuro escrever.

Nesta embriaguez procuro uma ponte que me leve a ti, com seis pianos de cauda, doze garrafas de brandy e baforadas enevoadas de charutos cubanos, enrodilhados nos vestidos de cetim e seda, como as tuas palavras certas e gestos perfeitos.

Caso desapareça... faz réplicas do meu sorriso e borda-o em ti.

23 fevereiro, 2009

EM QUE NUMERO VAI ?

Em que numero vai?
Sentou-se no banco ao lado do meu, depois de tirar a senha 98.
Retocou os lábios e recostou-se.
Mexia as mãos impaciente e debicava cada pedaço de gente, de cima a baixo, de baixo a cima e pelos lados.

Olhou-me de soslaio e aguardava a minha negação ou concordância.
Não teve uma nem outra.
Enfraqueceu a coragem e deu um jeito no cabelo.

Mantive o olhar entre a vitrina com livros de ontem e o movimento de carros na rua.

São 10,30h e sinto a falta dos atrasos do comboio na estação de partida....

Um "zombie" praguejava contra as horas, o tempo, os atrasos e as filas.
Contra a vida e contra tudo.
Caminhava de canto a canto da sala, lançava impropérios e desafios aos demais.
Instável como os restantes clientes da estação dos correios em dia de chuva, amedrontou pensionistas seguros em bengalas sem tempo.

Entrou apressado.
Alto, moreno, bonito, elegante, bem cheiroso. Tinha jeitos e trejeitos. Cores e rabiscos em roupa "Nouvelle Age".
Abanava-se como sereia com a cauda em ponta.

Espantaram-se rostos tisnados de sol e gretados pela idade.
Lançaram olhares reprovadores e abriram-se bocas de espanto como refugio de algo novo.

Namoriscou o noventa e dois. Este levantou-se e rezingou consigo, disfarçando nas páginas amarelas o impeto desassombrado de valquiria reluzente.
Ruborizou, tornando mais evidente o desconforto.

- Noventa e dois.
Chamaram-no. Salvo pelo toque da mudança de numero em painel electrónico.
Saiu triunfador, olhar altivo.
Esqueceu depressa o desassossego que o morenaço lhe causou.

Ao meu lado um velho cigano lançou avisos de velho hercúleo... que tem a língua dormente porque não dorme, que soma matriculas de automóveis para não definhar... que não habita acampamento, nem tem por amizades aldrabões de feira.

Permitiu-se erguer em sinal de respeito pelo Doutor Osvaldo do centro de saude, vizinho.

- Noventa e quatro. Noventa e quatro repete a senhora do guichet dois.

Odeio as horas.
Odeio a chuva e as horas mais os números e as pessoas que falam aos gritos.
Na sala, o ruído que retoma.
A alteração de vozes. Alguém pronuncia nomes soltos, outro apanha envelopes espalhados pelo chão enquanto um negro grita ao telefone na cabine um.

Voltam-se os rostos. Total espanto e desaprovação. Cochicham…

Ninguém quer pertencer ao inferno dos outros.

Em que numero vai?- pergunta o "cromo"…

- Noventa e sete.

Levanto-me.
Dirijo-me ao guichet e entrego a carta correspondente.
Lanço um olhar e vejo que mudou quase todo o cenário desde a chegada.
Rostos e peles diferentes, vozes desalinhadas, cheiros dispersos.

O velho cigano ainda ronda o Senhor Doutor do centro de saude e a borboleta reluzente lança madeixas em toques subtis pelos ombros curvilíneos.

Sorri na direcção da vitrina e os livros gargalharam com lombadas ritmícas e folhas saltitantes.

Em que numero vai ?

17 fevereiro, 2009

Do espaço onde as aves fugiram










No entanto és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram, quando pela noite germina um sorriso numa dança única.
E chega o Outono onde se apaga a cor e desaparece o reflexo.

Onde quase se comem as nuvens como algodão doce e cheira a café acabado de fazer, tal como a sopa da minha avó, quase mais couve do que água.

Sigo os trilhos das minhas rugas, e demoro-me o bastante pelas lembranças que me inebriam fantasias de um corpo no mar.

Deixo-te o silêncio da minha mão em forma de carícia. Deixo-te a compota de mel com o pão caseiro entre os favos da imaginação.

E escrevo rascunhos sem sentido para que me procures enquanto lês, enquanto te guardo espaço neste canto onde as aves fugiram.

E enquanto escrevo faço-me outro e outro, todos os dias.
Visto-me novas peles, novas roupagens conflituando por dentro de mim como se uma passagem para outro “eu”.
Nada se faz sem uma ponta de loucura, eu sei.

E gosto de me ir lendo e reconhecendo aqui e ali outra personagem.
E outros mais virão.
Dói este soltar de alma. Apodera-se de mim com um antagonismo exacerbado. O alegre e divertido entra no cinzento da escrita com tristeza e romantismo na ponta de filtro.

Vivo uma permanente corrida entre a partida e a chegada, seguro por pontas e dedos de fantasmas que ora me empurram ou retêm.
E leio e releio como se me visse num espelho de reflexos matinais, fragmentos de histórias casuais, e germinações de sorrisos.

E a chuva que espalha gotículas festejando o baile da lua, enquanto a noite se espraia sedutora, afinando a voz.

Ilegível dança de emoções neste incerto nome do frio que me aperta os ossos, e tu metáfora pintada por mim entre pinceladas firmes e dolorosas com mil cores por inventar.
Pinto-te quente como fogo espesso em contradições de texturas mais-que-perfeitas.

E é a ti que guardo neste canto onde as aves fugiram, nesta fronteira de emoções que derrubo com um sorriso das tuas pinceladas em mim.

POSSO LEVAR OS FANTASMAS QUE ANDO A TENTAR MATAR ?










Vou procurá-los um a um e eliminá-los de vez.
Povoam a imaginação, quando o cansaço se torna pesado e uma angustia se apodera de mim.
Tenho o mundo em roda e um forte expirar de prazo, que não consigo dominar na voragem do tempo.
Por vezes apetece-me parar. Aqui mesmo, assim, sossegado, numa quietude que sufoca.

E são vontades que me mordem o pensamento e amordaçam língua, para não permitir despejar tudo o que sinto,
Não quero guilhotinas fulminantes, nem fios condutores que me puxam para o sentir.

Sinto-me confinado a um espaço pequeno e escuro, sem instante nem agora, apenas reticências.
E piso o caminho entre duas setas que se unem num confinar de grandeza entre o certo e o errado entre o vir e o provir.
Destruo castelos de areia amontoados como cacos velhos numa avalanche de experiencias suaves mas poderosas.

E voltam eles assobiando letras aos ouvidos e abanando com músicas vertiginosas.
Tenho paredes na alma e quadros pendurados num coração alegre, jovial, terno e sereno.

E fujo de falhar restituindo em pedaços os pedaços da alma que me invade o sangue numa queda interminável, amparado pelos fantasmas que me habitam e que tento a custo matar.
Asfixio o pensamento, troco as sílabas, instala-se a cegueira e a tensão que não desce.

Vendavais de sensações que me fustigam e dilaceram a carne enquanto escondo do lado de dentro dos lábios a dor que resiste.

A dúvida não é o apelido que assino, mas a chegada da doença que cavalga aconchegada nestes fantasmas que me atormentam.

Já os acompanhei noutros seres e convivi paredes-meias brincando em jogos de esconde e apanhadas de riso fácil.
Já os sentia caminharem lenta, vagarosamente como batalhões de guerreiros de lança espetada e arcos com flechas pontiagudas na esperança de uma desatenção.

Atrevia-me a chamar-lhe medo, mas não sou feito dessa massa que se esconde atrás de arquitecturas de "Gaudi".

Apenas uma simples fronteira que me separa emoções. Enrolo e desenrolo como novelos de lã em alma fina e coração doce.

Procuro-me e perco-me, e agarro-me a estes fantasmas impiedosos que alargam brechas do lado de lá por cá do muro.

E saltam apegados amigos por entre escombros e ruínas na vã esperança de não deixar quebrar arestas.

Apaga-se o sol e esmorece a luz… aplauso frio…. palco fechado.
Já esvoacei mais um pouco, num bater de asas ancestral, qual alazão de magia neste cosmos imenso.

Posso levar os fantasmas que ando a tentar matar?

08 fevereiro, 2009

Gozem o momento... !


The Beatles Let It Be



When I find myself in times of trouble,
mother Mary comes to me,
speaking words of wisdom,
let it be.
And in my hour of darkness
she is standing right in front of me,
speaking words of wisdom,
let it be.
Let it be, let it be, let it be, let it be.
Whisper words of wisdom,
let it be.
And when the broken hearted
people living in the world agree,
there will be an answer,
let it be.
For though they may beparted
there is still a chance that they will see,
there will be an answer.
let it be.Let it be, let it be,
.....
And when the night is cloudy,
there is still a light,
that shines on me,
shine until tomorrow,
let it be.
I wake up to the sound of music,
mother Mary comes to me,
speaking words of wisdom,
let it be.Let it be, let it be, .....
:

06 fevereiro, 2009

PINTADO POR TI





Inventa-me e reinventa-me num pedaço de papel.
Escrevinha e esboça caricaturas de mim adornadas por um pincel ou a tinta-da-china.
Pinta-me com língua amordaçada, um olho fechado e orelhas semi-curvas.

Reinventa-me então, numa imensa liberdade de braços embalados e pernas imóveis como estátua grega inacabada.

Evita-me a curva do pescoço e o canto da boca, onde todo o cuidado é pouco.
Enlaça-me o coração, mas não me toques no cérebro.
Reinventa-me com pincéis molhados em tintas coloridas, guache ou carvão.

Não me “emoldures” alma nem faças beijos sobrepostos.
Faz-me nuvem ou pinta-me a preceito com toques de seda, ar fresco de chuva e pés na terra.

Pinta-me numa dança única com enlevo açucarado de palavras e água tépida que se espraia a teus pés.

Reinventa-me no silêncio desnudado por ti, enquanto imagino o bailar da lua em quarto minguante.