Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2009

BOA NOITE, MINHA MÃE

Vestidos que cirandam na praceta, cabelos alinhadinhos.
Meninas de cetim e seda, mais laçarotes...

-Beijinho tia.
-A bênção madrinha. - Deus te abençoe minha filha.
Colarinhos apertados e calças justas.
Hora de jantar. Todos na mesa e a mesa com todos.
Silêncio profundo. Uma colher que sai do lugar e todos se movem.

Vocábulos redondos, historias de vampiros no salão após o brandy.
Entardecer musical e um serão que me aquece no teu olhar.

Preciso de espaço nos músculos da alma, neste caminho disforme em que plantei a existência de nós.
Castelos erguidos com cartas que escrevemos e um desmoronar de tudo o que fomos sendo até hoje.
Um tufão, um vendaval de notícias que fazem mudar o rumo do vento e da vida que se erguia para nós.

Beijinho tia. – Deus te abençoe minha filha.

Um vazio oco neste abismo sem fim.
E a fumarada dos charutos na sala do piano que range sem saber, e os nossos olhos que tropeçam num espaço sem tempo.
A alma que desperta ao cair da noite e que me assombra o ca…

EM QUE NUMERO VAI ?

Em que numero vai?
Sentou-se no banco ao lado do meu, depois de tirar a senha 98.
Retocou os lábios e recostou-se.
Mexia as mãos impaciente e debicava cada pedaço de gente, de cima a baixo, de baixo a cima e pelos lados.

Olhou-me de soslaio e aguardava a minha negação ou concordância.
Não teve uma nem outra.
Enfraqueceu a coragem e deu um jeito no cabelo.

Mantive o olhar entre a vitrina com livros de ontem e o movimento de carros na rua.

São 10,30h e sinto a falta dos atrasos do comboio na estação de partida....

Um "zombie" praguejava contra as horas, o tempo, os atrasos e as filas.
Contra a vida e contra tudo.
Caminhava de canto a canto da sala, lançava impropérios e desafios aos demais.
Instável como os restantes clientes da estação dos correios em dia de chuva, amedrontou pensionistas seguros em bengalas sem tempo.

Entrou apressado.
Alto, moreno, bonito, elegante, bem cheiroso. Tinha jeitos e trejeitos. Cores e rabiscos em roupa "Nouvelle Age".
Abanava-se como sereia com a…

Do espaço onde as aves fugiram

Imagem
No entanto és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram, quando pela noite germina um sorriso numa dança única.
E chega o Outono onde se apaga a cor e desaparece o reflexo.

Onde quase se comem as nuvens como algodão doce e cheira a café acabado de fazer, tal como a sopa da minha avó, quase mais couve do que água.

Sigo os trilhos das minhas rugas, e demoro-me o bastante pelas lembranças que me inebriam fantasias de um corpo no mar.

Deixo-te o silêncio da minha mão em forma de carícia. Deixo-te a compota de mel com o pão caseiro entre os favos da imaginação.

E escrevo rascunhos sem sentido para que me procures enquanto lês, enquanto te guardo espaço neste canto onde as aves fugiram.

E enquanto escrevo faço-me outro e outro, todos os dias.
Visto-me novas peles, novas roupagens conflituando por dentro de mim como se uma passagem para outro “eu”.
Nada se faz sem uma ponta de loucura, eu sei.

E gosto de me ir lendo e reconhecendo aqui e ali outra personagem.
E outros mais virão.
Dó…

POSSO LEVAR OS FANTASMAS QUE ANDO A TENTAR MATAR ?

Imagem
Vou procurá-los um a um e eliminá-los de vez.
Povoam a imaginação, quando o cansaço se torna pesado e uma angustia se apodera de mim.
Tenho o mundo em roda e um forte expirar de prazo, que não consigo dominar na voragem do tempo.
Por vezes apetece-me parar. Aqui mesmo, assim, sossegado, numa quietude que sufoca.

E são vontades que me mordem o pensamento e amordaçam língua, para não permitir despejar tudo o que sinto,
Não quero guilhotinas fulminantes, nem fios condutores que me puxam para o sentir.

Sinto-me confinado a um espaço pequeno e escuro, sem instante nem agora, apenas reticências.
E piso o caminho entre duas setas que se unem num confinar de grandeza entre o certo e o errado entre o vir e o provir.
Destruo castelos de areia amontoados como cacos velhos numa avalanche de experiencias suaves mas poderosas.

E voltam eles assobiando letras aos ouvidos e abanando com músicas vertiginosas.
Tenho paredes na alma e quadros pendurados num coração alegre, jovial, terno e sereno.

E fujo de f…

Gozem o momento... !

The Beatles Let It Be



When I find myself in times of trouble,
mother Mary comes to me,
speaking words of wisdom,
let it be.
And in my hour of darkness
she is standing right in front of me,
speaking words of wisdom,
let it be.
Let it be, let it be, let it be, let it be.
Whisper words of wisdom,
let it be.
And when the broken hearted
people living in the world agree,
there will be an answer,
let it be.
For though they may beparted
there is still a chance that they will see,
there will be an answer.
let it be.Let it be, let it be,
.....
And when the night is cloudy,
there is still a light,
that shines on me,
shine until tomorrow,
let it be.
I wake up to the sound of music,
mother Mary comes to me,
speaking words of wisdom,
let it be.Let it be, let it be, .....
:

PINTADO POR TI

Inventa-me e reinventa-me num pedaço de papel.
Escrevinha e esboça caricaturas de mim adornadas por um pincel ou a tinta-da-china.
Pinta-me com língua amordaçada, um olho fechado e orelhas semi-curvas.

Reinventa-me então, numa imensa liberdade de braços embalados e pernas imóveis como estátua grega inacabada.

Evita-me a curva do pescoço e o canto da boca, onde todo o cuidado é pouco.
Enlaça-me o coração, mas não me toques no cérebro.
Reinventa-me com pincéis molhados em tintas coloridas, guache ou carvão.

Não me “emoldures” alma nem faças beijos sobrepostos.
Faz-me nuvem ou pinta-me a preceito com toques de seda, ar fresco de chuva e pés na terra.

Pinta-me numa dança única com enlevo açucarado de palavras e água tépida que se espraia a teus pés.

Reinventa-me no silêncio desnudado por ti, enquanto imagino o bailar da lua em quarto minguante.