23 fevereiro, 2009

EM QUE NUMERO VAI ?

Em que numero vai?
Sentou-se no banco ao lado do meu, depois de tirar a senha 98.
Retocou os lábios e recostou-se.
Mexia as mãos impaciente e debicava cada pedaço de gente, de cima a baixo, de baixo a cima e pelos lados.

Olhou-me de soslaio e aguardava a minha negação ou concordância.
Não teve uma nem outra.
Enfraqueceu a coragem e deu um jeito no cabelo.

Mantive o olhar entre a vitrina com livros de ontem e o movimento de carros na rua.

São 10,30h e sinto a falta dos atrasos do comboio na estação de partida....

Um "zombie" praguejava contra as horas, o tempo, os atrasos e as filas.
Contra a vida e contra tudo.
Caminhava de canto a canto da sala, lançava impropérios e desafios aos demais.
Instável como os restantes clientes da estação dos correios em dia de chuva, amedrontou pensionistas seguros em bengalas sem tempo.

Entrou apressado.
Alto, moreno, bonito, elegante, bem cheiroso. Tinha jeitos e trejeitos. Cores e rabiscos em roupa "Nouvelle Age".
Abanava-se como sereia com a cauda em ponta.

Espantaram-se rostos tisnados de sol e gretados pela idade.
Lançaram olhares reprovadores e abriram-se bocas de espanto como refugio de algo novo.

Namoriscou o noventa e dois. Este levantou-se e rezingou consigo, disfarçando nas páginas amarelas o impeto desassombrado de valquiria reluzente.
Ruborizou, tornando mais evidente o desconforto.

- Noventa e dois.
Chamaram-no. Salvo pelo toque da mudança de numero em painel electrónico.
Saiu triunfador, olhar altivo.
Esqueceu depressa o desassossego que o morenaço lhe causou.

Ao meu lado um velho cigano lançou avisos de velho hercúleo... que tem a língua dormente porque não dorme, que soma matriculas de automóveis para não definhar... que não habita acampamento, nem tem por amizades aldrabões de feira.

Permitiu-se erguer em sinal de respeito pelo Doutor Osvaldo do centro de saude, vizinho.

- Noventa e quatro. Noventa e quatro repete a senhora do guichet dois.

Odeio as horas.
Odeio a chuva e as horas mais os números e as pessoas que falam aos gritos.
Na sala, o ruído que retoma.
A alteração de vozes. Alguém pronuncia nomes soltos, outro apanha envelopes espalhados pelo chão enquanto um negro grita ao telefone na cabine um.

Voltam-se os rostos. Total espanto e desaprovação. Cochicham…

Ninguém quer pertencer ao inferno dos outros.

Em que numero vai?- pergunta o "cromo"…

- Noventa e sete.

Levanto-me.
Dirijo-me ao guichet e entrego a carta correspondente.
Lanço um olhar e vejo que mudou quase todo o cenário desde a chegada.
Rostos e peles diferentes, vozes desalinhadas, cheiros dispersos.

O velho cigano ainda ronda o Senhor Doutor do centro de saude e a borboleta reluzente lança madeixas em toques subtis pelos ombros curvilíneos.

Sorri na direcção da vitrina e os livros gargalharam com lombadas ritmícas e folhas saltitantes.

Em que numero vai ?

1 comentário:

Paula disse...

Excelente descrição de uma "sala de espera"...em que as pessoas não passam de números!
O aborrecimento, o desinteresse, o sufoco de ser HUMANO na actualidade em que vidas e pensamentos se cruzam em equívocos desalinhados...