29 março, 2009

Lanças ao chão o cobertor imundo e o jornal em que te aconchegas.
Atiras contra a parede o insulto dos demais e entrelaças sacos de plástico aos mil.

Abafas a tosse com café matinal e uma aguardente medronho.

Tens uma só metade tua, a outra já não existe.
Vives a metade pela metade a vida toda.
O lado esquerdo não mexe nem deixas que mexa. Habituaste-te assim.

Vives contra lendas e duendes, contra vida e amargura.
Contra todos e contra ti, sobretudo contra ti.

Danças valsa sem ritmo e saltas ao pé-coxinho quando te dá jeito ou o jeito te dá.

Percorres ruas e vielas, cantos e recantos de uma cidade que vive longe de ti.

Transformas sacos em cama e "arrotas pelintra" após cerveja gelada goela abaixo.

Dizes que dançavas descalço em bailes de varina e lhes adornavas os ombros com xaile colorido.

Fazes da vida canseira e estendes pela madrugada remorsos em concha, como quando espreitas por frinchas, anseios de noiva na cama.

Tens a vida toda para ti e mendigas nas paredes negras dos recantos mendigos, numa rotina descartável.

O teu corpo pesa mais que a lembrança apagada, mais do que a consciência esventrada, como o teu eterno medo de falhar.
Vais matando corpo e memória enquanto jogas aos dados com a vida.

Foi assim que me chegaste um dia.
Meio gente, meio "zombie", entre o estar e o partir, entre o desespero agarrado à minha mão e o desfalecimento repetido.

Tinhas o coração descompassado e uma alma sem espaço.
Atiravas-me palavras curtas, normalmente um não, em negação permanente como se desejasses o dia em que silabas não brotassem.

Entendiamo-nos por gestos, como só os loucos sabem, e guardei, prometida, uma folha dobrada em quatro, repetidamente amarfanhada e sem conteudo.

Terminaste os motivos que te prendiam através do fio mais ténue ao novelo da vida.

Lanças-te ao chão em despedida o cobertor imundo, o jornal na página quatro e já não acordaste.

Vagueias agora como querias entre os duendes e as lendas, e danças descalço entre varinas enquanto esperas transporte para outra galáxia, jogando aos dados, sem receios nem temores, nem medo de falhar.

Somos assim, os loucos.

24 março, 2009






Gostava de te conduzir numa estrada de terra batida, entre o céu e a terra, entre o campo e o mar, por entre covinhas que definem o teu rosto.

Saborear lábios de cetim em cor de morango rubi, tactear-te língua no teu ouvido, subir à curva do nariz e espraiar-me nos teus olhos.

Iluminas a vida que aqueces com cobertores térmicos e dissolves placas graníticas como um doce qualquer, saboreando colheres do meu café no habitual do teu beijo.

E de repente desfazes-te em nevoeiro agreste, até qualquer dia, como os “pirolitos” de gasosa que bebíamos no cinema Ódeon nas matines de domingo.

Percurso sinuoso este em que me encontro, quando aguardo o cheiro do teu perfume a distâncias exasperadas e corres na direcção oposta ao vento, cravando-me com tenazes, do teu, no meu olhar.
E reapareces de novo, numa qualquer manhã reduzida a farrapos de roupa para me amares num corrupio dançante.

Esgotados os desejos, os delírios da tua boca em risos incontidos entre rugas cansadas, volto-me de novo num encontro furtivo com a noite que não acaba nunca.
E faço deste sonho, o meu silêncio, deste gelo o meu sentir.

Quebro, amarfanho, transformo pedacinhos gelatinosos como bolinhas verdes.

Folheio o pensamento uma e outra vez, ponto por ponto, na procura indecifrável do local onde ficamos.

E aqui, na orla do desejo, por entre chuva que se acomoda e nos afaga os sonhos, cose-me um frio na barriga quando me lembro do teu sorriso rasgado, o perfume, e os farrapos de roupa com que me invades.

Sei que me cabes na medida exacta.

07 março, 2009

Se tivesses asas, serias um Anjo, e se soubesses os mistérios do futuro... eras provavelmente um.

E nesses debates internos, coloridos, em que te moves entre escorregadelas de arco-íris, escreves em traços incertos folhas imperfeitas.

Separas-te momentaneamente do mundo terreno levado em gotículas de chuva miudinha que respinga contra o vidro que te separa dele.

Mundos molhados os nossos
Mundos sem asas de Anjo

Clarabóia que deixa ver gotas que caem desconexas, sem medida certa num fio-de-prumo que te orienta num qualquer sentido e te retorna ao lugar de partida.
Esperas o balançar do vento, para veres onde poderás ficar mais segura, neste planeta escondido no meio de vaidades.

Não tens mapa astral agarrado a ti, nem Gps orientador, muito menos partículas de pó de estrelas como seria desejável num Anjo.

Rotas de navegação não conheces e uma pele que não se desfaz ao toque.

Faltam-te as asas de Anjo.

E arrastas contigo, mundos de gente ignorante, insatisfeita, deselegante, rude e descaracterizada.

E lutas e lutas e arrastas-te contra tempestades de surdez intelectual.

Mas tapas fendas que se abrem, corres contra ventos e marés, adormeces o inquieto e despertas o que de melhor existe em ti.

Mundos sem asas de Anjo...