27 abril, 2009





Gostava de ti assim,
menina de coro, intocável, perfeita, mesclada de mulher carnal e fatal, feita gata no ronronar do tímpano direito enquanto me percorres as entranhas com suaves arranhadelas esquartejantes.

Gostava de ti assim,
eu borbulhas na cara, a barba que rebenta e tu um sorriso chique e maroto.
Mais maroto que chique.

Eu todo embaraço e tu um pedaço.

Gostava de ti assim,
sem rumo nem norte, em piloto automático, modo quase vegetativo, articulando sons, e eu atirado para um canto, órfão de sentido e de razão.

Uma fímbria de alento e a boca calada de gritos rarefeitos, enrolados, impregnados de
sol e sal.

Gostava de ti assim.
Insegura, discreta, perspicaz, ondulante, saltando da veia cava inferior para o ventrículo esquerdo, mexendo e remexendo, seduzindo-me até os poros se abrirem e o sangue correr como o Douro nas entranhas da Régua, e o pedacinho de mel que goteja na alma e faz buracos num cantinho do coração.

E eu, dedos em nós e os nós dos dedos, que se abrem como garras afiadas numa dança sem fim, como teclado de piano ao som de Mozart, numa obra de arte em ti.

Gostava de ti assim
Uma faixa branca de dois palmos, como maré vazia e sinais criativos de vidente, para inventar futuros e ler a linha da palma da mão como seara alentejana.

Uma mão de face côncava que esconde pequenos tesouros, e o adivinhar do teu esgar e tu a passar de novo, de menina de coro, intocável, branca e bela para guerreira tentacular, fazendo de mim, teu refém, numa masmorra qualquer.

26 abril, 2009

Vampirices de alma

Vou gerindo restos de silêncio, adornando-os mais um pouco, porque me sabe bem ficar calado num canto.

Assim como se vivesse a três-quartos em lembranças mudas.
Já dizia o Sr. Américo da tasca quando vendia “quartilhos” de vinho aos fregueses que habitavam o balcão sujo do tinto carrascão.
- “Mais vale calado que galo desafinado”

E vou lendo por dentro de mim, pedaços de imagens que me atropelam os dias.
Gente que vejo, outros que analiso, outros que passam apenas, aqueles do café, os do restaurante, os que se cruzam, os que descruzam.

E muita dessa gente que me habita a mente(os próximos), o coração(próximos e de paixão), o estômago(das preocupações), o fígado e a bílis(os que me irritam) e os do intestino(os que me desesperam).

E aqueles que cambaleiam em caminhadas tortuosas, que te bebem os fluidos e sugam o sangue, roem carne e ossos e laceram meninges.

São cheios de salamaleques e cortesias de enxofre, vivem de hipocrisias bacocas, destilam flatulências de veneno, roubam a almofada do amigo, sentam-se no teu sofá e debitam ódios canibais onde cozinham a própria língua.

São alcateias que se espalham pelos quatro cantos da vida, e surgem como encantadores de serpentes, ajeitando vestes brancas como donzelas imaculadas encobrindo o manto de putas baratas e gastas.

Por isso me adorno mais um pouco para ficar aconchegado na leitura deste canto, vivendo em lembranças mudas, para evitar os momentos em que a dor é tão funda e tão forte que me sai em catadupa pela boca.

Sonhos meus ou vampirices de alma ?

20 abril, 2009






Corria desenfreado escada acima após a missa domingueira.

Roupa preparada pela mãe, camisa azul clara e pulôver azul-escuro de riscas fortes. Penteado para o lado e uma poupinha abrilhantada com um toque.

Levava o irmão pela mão e colocava-se estrategicamente por debaixo da arcada do prédio, enquanto o seu amor ia comendo rebuçados e torrões de açúcar à janela.
Sentia-se a tremer, mas sentia-se feliz.

Reparava nela faz tempo na entrada do liceu.
Assim de repente e de relance.
E esse momento era tão breve, tão fugaz, que o coração batia descompassado em formato digital.
Os rebuçados como amor puro de açúcar caíam em debandada na sua direcção e ele cristalizava o seu olhar no dela.

Ela a menina doce, de olhar faiscante.

Hoje já não se comem torrões de açúcar e o tempo não tem memória nem se fazem dias em sucessões geométricas.

Fazem-se mais silêncios, usam-se frases desconexas, é tudo mais virtual e deixamos de fora o espaço dos abraços.

Enchemos o corpo com potássio, envenenando as veias que mal deixam circular, e entre um megabyte e um impulso, esquecemos os olhares.

A primavera chegava na hora certa, com tempo e passo cadenciado.
Escreviam-se cartas a tinta-da-china em papel a vinte cinco tostões a resma, vendidas na papelaria de esquina.

Entrelaçavam-se dedos em mãos e mãos no corpo que hoje se afastam.

Na época não havia medo, mas distâncias complexas por hábitos de educação, hoje temos medo de não saber amar.

Ajeitava o cabelo e metia para dentro as fraldas da camisa.
O irmão pela mão e dez-para-a-uma-hora da tarde que o almoço arrefece e o pai não gosta.
Ainda somos meninos e juramos eternidades a preceito, como se as flores que colhemos não murchassem, como se o céu se pintasse multicor e o chão que pisas fosse fruto.

13 abril, 2009





Um sorriso enigmático de Gioconda, e eu um Príncipe em conto de fadas.
Contava e encantava histórias de descobertas, partidas e chegadas, umas lidas outras inventadas.
Um encanto em cada canto da boca.

Et por si muove.. (e todavia, move-se), dizia ela num Italiano perfeito, quando nos falava de Galileu Galilei.

Fazia-me sonhar com Mouras encantadas e belos cavalos brancos em conquistas por fazer.
Nos meus verdes anos, salpicava-me a existência de amores-perfeitos, fazendo-me ver o sol no meio de tempestades e nascerem flores em desertos áridos.

O meu parceiro do lado, escrevia bilhetinhos que fazia circular e exasperava a equipa, dividida entre os apelos do coração e o jogo de futebol de cinco que nos apertava a alma.
Acabado o dia, lançava-me na bicicleta de quadro “à corredor” e pedalava pelas ruas em ziguezagues perfeitos, por cavalinhos imperfeitos.

O lanche era sorvido num instante e partia para novas leituras do cavaleiro andante sonhando quimeras e Lancelotes.

Anos mais tarde, já rapazote, encontrei-a nas praias de Esmoriz, onde o areal lembrava searas ondulantes e o vento penteava o mar, fazendo com que o nevoeiro cerrado retardasse a chegada do meu D. Sebastião.
A minha Ninfa de mão dada com o namorado e eu já espigadote, olhava a sombra, tantas vezes ainda furtiva.

Tinha sardas na época, prováveis rugas nos dias de hoje e a praia que me cabia na mão e os tesouros escondidos no Parque de Campismo, com mapa do próprio e tudo.

Sonhei preparar um cesto de beijos, poesias gritadas junto ao mar, rastejar qual combatente de arma em punho por areias quentes do Norte.
Poderia até contar-lhe de amores e desamores, de feridas por sílabas remetidas, e adivinhar-lhe o sorriso meigo, contagiante e simultânea ternura.
Poderia até contar-lhe coisas.