20 abril, 2009






Corria desenfreado escada acima após a missa domingueira.

Roupa preparada pela mãe, camisa azul clara e pulôver azul-escuro de riscas fortes. Penteado para o lado e uma poupinha abrilhantada com um toque.

Levava o irmão pela mão e colocava-se estrategicamente por debaixo da arcada do prédio, enquanto o seu amor ia comendo rebuçados e torrões de açúcar à janela.
Sentia-se a tremer, mas sentia-se feliz.

Reparava nela faz tempo na entrada do liceu.
Assim de repente e de relance.
E esse momento era tão breve, tão fugaz, que o coração batia descompassado em formato digital.
Os rebuçados como amor puro de açúcar caíam em debandada na sua direcção e ele cristalizava o seu olhar no dela.

Ela a menina doce, de olhar faiscante.

Hoje já não se comem torrões de açúcar e o tempo não tem memória nem se fazem dias em sucessões geométricas.

Fazem-se mais silêncios, usam-se frases desconexas, é tudo mais virtual e deixamos de fora o espaço dos abraços.

Enchemos o corpo com potássio, envenenando as veias que mal deixam circular, e entre um megabyte e um impulso, esquecemos os olhares.

A primavera chegava na hora certa, com tempo e passo cadenciado.
Escreviam-se cartas a tinta-da-china em papel a vinte cinco tostões a resma, vendidas na papelaria de esquina.

Entrelaçavam-se dedos em mãos e mãos no corpo que hoje se afastam.

Na época não havia medo, mas distâncias complexas por hábitos de educação, hoje temos medo de não saber amar.

Ajeitava o cabelo e metia para dentro as fraldas da camisa.
O irmão pela mão e dez-para-a-uma-hora da tarde que o almoço arrefece e o pai não gosta.
Ainda somos meninos e juramos eternidades a preceito, como se as flores que colhemos não murchassem, como se o céu se pintasse multicor e o chão que pisas fosse fruto.

4 comentários:

Cocas disse...

Eram tempos de grande pureza de sentimentos. Mas ainda há quem guarde em si algo de "naif" no sentir e dê valor aos olhares, aos abraços, aos beijos e ao entrelaçar de dedos e mãos...
Todos devíamos resgatar algumas dessas memórias para o presente.
Parabéns pelo texto.

Alda disse...

Como é bom ler tão belo texto, ouvindo esta música maravilhosa de Caetano Veloso!

Agradeço os parabéns, e as palavras tão gentis.
Beijinho Zé, outro para a Elsa.

L.Borges disse...

A nostalgia pode ser tão doce como um torrão de açúcar.Convém é que não demore muito a derreter...
Isso de deixar de fora os abraços e de termos medo de não saber amar, nada tem de virtual, o que é um pouco assustador.
E os olhares? Se se perdem, o que fica?

Linda, a música!

XS disse...

O tempo é, de facto, relativo, quando toca a emoções.

Bjs :)