13 abril, 2009





Um sorriso enigmático de Gioconda, e eu um Príncipe em conto de fadas.
Contava e encantava histórias de descobertas, partidas e chegadas, umas lidas outras inventadas.
Um encanto em cada canto da boca.

Et por si muove.. (e todavia, move-se), dizia ela num Italiano perfeito, quando nos falava de Galileu Galilei.

Fazia-me sonhar com Mouras encantadas e belos cavalos brancos em conquistas por fazer.
Nos meus verdes anos, salpicava-me a existência de amores-perfeitos, fazendo-me ver o sol no meio de tempestades e nascerem flores em desertos áridos.

O meu parceiro do lado, escrevia bilhetinhos que fazia circular e exasperava a equipa, dividida entre os apelos do coração e o jogo de futebol de cinco que nos apertava a alma.
Acabado o dia, lançava-me na bicicleta de quadro “à corredor” e pedalava pelas ruas em ziguezagues perfeitos, por cavalinhos imperfeitos.

O lanche era sorvido num instante e partia para novas leituras do cavaleiro andante sonhando quimeras e Lancelotes.

Anos mais tarde, já rapazote, encontrei-a nas praias de Esmoriz, onde o areal lembrava searas ondulantes e o vento penteava o mar, fazendo com que o nevoeiro cerrado retardasse a chegada do meu D. Sebastião.
A minha Ninfa de mão dada com o namorado e eu já espigadote, olhava a sombra, tantas vezes ainda furtiva.

Tinha sardas na época, prováveis rugas nos dias de hoje e a praia que me cabia na mão e os tesouros escondidos no Parque de Campismo, com mapa do próprio e tudo.

Sonhei preparar um cesto de beijos, poesias gritadas junto ao mar, rastejar qual combatente de arma em punho por areias quentes do Norte.
Poderia até contar-lhe de amores e desamores, de feridas por sílabas remetidas, e adivinhar-lhe o sorriso meigo, contagiante e simultânea ternura.
Poderia até contar-lhe coisas.

5 comentários:

L.Borges disse...

Sempre deliciosas essas viagens de regresso ao passado! Sobretudo o olhar com que nos revemos, assim à distância...
E o cesto de beijos abandonado na praia e os versos silenciados e as coisas que não se contaram...

Bonitas paisagens,as deste texto!

Obrigada!

Cocas disse...

Há sempre coisas que ficam por contar, assim como outras que não deviam ser ditas...mas cestos de beijos, são presentes raros e preciosos.
É muito nostálgico este texto, mas lindo, como sempre.
Beijinho

Cocas

Cocas disse...

Devo acrescentar que a música que o acompanha é fabulosa.

antonia disse...

O teu texto e o Caetano... nossa!!!
Um cesto de beijos prá diminir a solidão.
Abraços

XS disse...

Mas não contaste... É incrível como acabamos por nos deixar conduzir por convenções e formalismos e deixamos passar ao lado um momento único para desenterrar memórias a dois.