26 abril, 2009

Vampirices de alma

Vou gerindo restos de silêncio, adornando-os mais um pouco, porque me sabe bem ficar calado num canto.

Assim como se vivesse a três-quartos em lembranças mudas.
Já dizia o Sr. Américo da tasca quando vendia “quartilhos” de vinho aos fregueses que habitavam o balcão sujo do tinto carrascão.
- “Mais vale calado que galo desafinado”

E vou lendo por dentro de mim, pedaços de imagens que me atropelam os dias.
Gente que vejo, outros que analiso, outros que passam apenas, aqueles do café, os do restaurante, os que se cruzam, os que descruzam.

E muita dessa gente que me habita a mente(os próximos), o coração(próximos e de paixão), o estômago(das preocupações), o fígado e a bílis(os que me irritam) e os do intestino(os que me desesperam).

E aqueles que cambaleiam em caminhadas tortuosas, que te bebem os fluidos e sugam o sangue, roem carne e ossos e laceram meninges.

São cheios de salamaleques e cortesias de enxofre, vivem de hipocrisias bacocas, destilam flatulências de veneno, roubam a almofada do amigo, sentam-se no teu sofá e debitam ódios canibais onde cozinham a própria língua.

São alcateias que se espalham pelos quatro cantos da vida, e surgem como encantadores de serpentes, ajeitando vestes brancas como donzelas imaculadas encobrindo o manto de putas baratas e gastas.

Por isso me adorno mais um pouco para ficar aconchegado na leitura deste canto, vivendo em lembranças mudas, para evitar os momentos em que a dor é tão funda e tão forte que me sai em catadupa pela boca.

Sonhos meus ou vampirices de alma ?

2 comentários:

L.Borges disse...

A música... Sabe bem!

As palavras, ao contrário dos silêncios, são gritos de tinta viva para libertar a alma de vampiros.

Gostei!

Anónimo disse...

"Sabe Bem"... ler a forma como consegues traduzir as emoções, por palavras

Um abraço
MG