15 maio, 2009





Um berloque dependurado no gancho das calças,
A urze colorida e pasteis de nata com canela e nas mãos um cheiro a rosmaninho e cerejas que anunciam Maio.

O som salgado invade o espaço e as ondas de calor resultam numa explosão de adrenalina delirante.
Molham-se os pés na água fria da Foz, discutem-se as "gajas" da noite anterior e os "gajos" amaricados que debutam por ali.

Joana, reaprende a distinguir as sete cores do arco-íris, olhando vitrais espalhados na palma da mão, relembrando tempos recentes.

Dias diferentes estes.
Árvores como demónios entrelaçados com a terra e a paz que brota da areia em pegadas de menino.

Por vezes confunde-se, mistura palavras e enrola-se no tempo como a farinha no pão e o café com o leite.
Um tempo que se escapa entre os dedos, como os finos grãos de areia.

Mergulha com a luz da madrugada e traça fronteiras entre os trilhos das aves.
Tanto está como não.
Por vezes encontra-se. Aqui ou ali. Mais ali, evidentemente.

Uma espécie de jogo das escondidas, emoções de momentos inconstantes como ondas do mar.

Tem sininhos com berloques na cabeça que se tocam sempre que procura mudar.
Um sinaleiro moral, de braços abertos, indicador esticado.

Para ela, a coisa mais difícil da vida será extrair um dente, subtraindo ao hemisfério central da cabeça, um siso ou um canino.
Aprende-se a viver com isso. Como um defeito de nascença, uma carência vitamínica ou um incómodo, apenas.

Joana, faz réplicas de sorriso como obras-primas originais.
É Princesa em conto de fadas, com lágrimas cristalinas disfarçando tristezas.

Estende os dias pelas noites e embrenha-se em sentimentos difusos como qualquer jovem.
Vive entre "Morangos" e "sm´s", entre a corda que estica e o fio que é curto.

Sonha em conceber os filhos que lhe vagueiam a alma enquanto embala a cada virar da maré.

Atira pedrinhas aos saltinhos para a água, transformando-as em estrelas.
Destas, soltam-se partículas minúsculas que inundam a praia deserta neste tempo.

Tens dentro de ti, muita gente que se atropela, muitos sonhos, um coração e uma só cabeça.
Por vezes atiras às cegas, tacteias no escuro, tentas não saber, nem adivinhar.

Refugias-te em ti, fazes pinturas de guerra e partes em pedaços a alma que agrilhoaste.

Um berloque dependurado nas calças rotas e um sininho que te avisa quando deves serenar os diabinhos que te percorrem a três quartos.

13 maio, 2009





Dá-me mais uma dança.

Apenas uma, a ultima, se assim o entenderes.

Pode ser um tango de passos rápidos, uma valsa ondulante, um slow apreciado.
Uma ultima dança, onde te aproximas bruscamente e olhas provocante, ousada, intensa.

Percorres-me com as mãos, aproximas e afastas repentinamente, estendes os braços num ritmo marcante e rodopias no meu corpo.

Dança esse tango e arrasta-me nesse tornear esfusiante
Sou abraços contigo, pernas que se escapam e sobram no espaço, corpo dormente, quente, como lobo faminto ou coyote com cio.

O teu sopro na minha voz e o grito que me abafa, um encosto.
Três passos apenas. Rodeias o assunto e contornas objectos.

Somos doença crónica, famintos madrugadores, um ataque de asma.
Coração aos solavancos, arfar de cansaço e paixão.

Um T1 pré-fabricado, bem medido, portas e janelas,
Novo aconchego, lábios no pescoço, braços esticados ao infinito.

Peito no peito, batidas largas de coração, o olfacto que se perde, o paladar, os sentidos sem razão, e uma razão sem sentido.

Uma última dança, apenas.

Pode ser?

08 maio, 2009




Sinto-te a falta e não te conheço.
Entraste sem bater, percorreste-me a alma e não autorizei.
Conforme entras, sais e não dizes nada.

Fico inquieto, como exilado real a banhos na linha.
Reclamas dos meus gostos, sugeres impossíveis e propões impraticáveis.
Eu com um só nome e tu de bandeira monárquica na pele, sapato italiano e vestido de bom corte.

Percorro lojas de Euro e o telefone velho da sala emite sons descarados, enquanto me alcanças com rubor súbito e te esfregas em mim com pés nus, tornozelos imperfeitos, e brincos de madrepérola.

Entras e sais como frequentas a igreja matriz, benzes-te três vezes, e eu, num eminente cataclismo nuclear, pelos eriçados, sangue que ferve nas veias, a tosse funda do tabaco que me abafa e a voz da minha mãe como licor de palavras.
Rasteiras-me as entranhas e fazes-me em farrapos com nós indecifráveis nos olhos.

Tens Tias do Brasil, casas no Pólo-Norte e comes alcatra.
O verniz que não vai com as unhas, o pé com o chinelo, o relógio do avô, o sangue azul que se espalha e eu lunático e aluado, usando creme nívea nos “entrefolhos”, e o Padre Alfredo que me empresta a batina para a peregrinação do Santo.

Li o horóscopo e hoje não saio.
Tenho medo do eléctrico 24, do vaso no parapeito, da escada na janela e do teu enrolar manso pela minha vida... redonda, “sem-rei-nem-roque”.

Sinto-me jogado aos bichos, órfão de sentidos, corpo dormente, e tu sorriso chique, perna alçada, Deus-Pátria-Familia,num valha-me o santo de teor virginal.

Lanço-me no álcool, mais “panaché” que imperial, estremunho a carcaça, salpico-me de farturas da feira, engasgo-me no escárnio, contrato dois canibais que te devoram em lume brando, e lá vão os berloques, os anéis de dedo mindinho, os trocos da carteira, as fotografias de família na “Côte-d´Azur”, os alfinetes de peito, e a cinta de ligas que te arrepanha a pele em pobreza divinal e riqueza antropófaga.