08 maio, 2009




Sinto-te a falta e não te conheço.
Entraste sem bater, percorreste-me a alma e não autorizei.
Conforme entras, sais e não dizes nada.

Fico inquieto, como exilado real a banhos na linha.
Reclamas dos meus gostos, sugeres impossíveis e propões impraticáveis.
Eu com um só nome e tu de bandeira monárquica na pele, sapato italiano e vestido de bom corte.

Percorro lojas de Euro e o telefone velho da sala emite sons descarados, enquanto me alcanças com rubor súbito e te esfregas em mim com pés nus, tornozelos imperfeitos, e brincos de madrepérola.

Entras e sais como frequentas a igreja matriz, benzes-te três vezes, e eu, num eminente cataclismo nuclear, pelos eriçados, sangue que ferve nas veias, a tosse funda do tabaco que me abafa e a voz da minha mãe como licor de palavras.
Rasteiras-me as entranhas e fazes-me em farrapos com nós indecifráveis nos olhos.

Tens Tias do Brasil, casas no Pólo-Norte e comes alcatra.
O verniz que não vai com as unhas, o pé com o chinelo, o relógio do avô, o sangue azul que se espalha e eu lunático e aluado, usando creme nívea nos “entrefolhos”, e o Padre Alfredo que me empresta a batina para a peregrinação do Santo.

Li o horóscopo e hoje não saio.
Tenho medo do eléctrico 24, do vaso no parapeito, da escada na janela e do teu enrolar manso pela minha vida... redonda, “sem-rei-nem-roque”.

Sinto-me jogado aos bichos, órfão de sentidos, corpo dormente, e tu sorriso chique, perna alçada, Deus-Pátria-Familia,num valha-me o santo de teor virginal.

Lanço-me no álcool, mais “panaché” que imperial, estremunho a carcaça, salpico-me de farturas da feira, engasgo-me no escárnio, contrato dois canibais que te devoram em lume brando, e lá vão os berloques, os anéis de dedo mindinho, os trocos da carteira, as fotografias de família na “Côte-d´Azur”, os alfinetes de peito, e a cinta de ligas que te arrepanha a pele em pobreza divinal e riqueza antropófaga.

6 comentários:

Anónimo disse...

A vantagem da escrita, é tornar por momentos real, os sonhos...mesmos que impossiveis...
Gostei!!!

Bjs

MG

Lídia Borges disse...

Forte este texto!

Salpicado aqui e ali por uma espécie de intolerância(???) difícil de conter.
Às vezes a escrita também serve para isso.
Todos nós temos dias em que não nos recomendamos.

Lídia Borges

T disse...

sim, forte e arriscado...
quase em controversia com a musica.
gostei muito

Cocas disse...

Se me pedissem para escolher uma música para este texto, era esta que eu escolhia:)
Beijinho

Maresia disse...

Fantástico...

ph disse...

aposto que escreveste sem sequer te dares ao trabalho de pensar ;)