23 junho, 2009

She




A lua contorna-te num capricho impressionista, deixando rastos de pinturas como telas de Rembrandt em gestos de Morfeu.
Danças, rodopias, envolta em lenços de seda e tapas-me o olhar para que não veja o teu voar.
Ris e cantas, corres e foges.
Regressas num instante e partes noutro qualquer.

Desenho-te um rosto imaginado e contemplo-me por detras da pele que ainda nos separa encontrando-te a meio tempo entre um beijo e notas adocicadas de uma musica qualquer.

Uma metade de asa que esvoaça por torrentes de azul.

Colas com fogo a pele rasgada das unhas cravadas por ti, quando o desejo aperta e descobres o mundo num ritmo unico, pintando em aguarelas de cor, almas unidas num só.

Enrolo-me nas tuas pernas e cheiro-te embevecido enquanto repousas num perfume de princesa.
E imagino-me esventrado por desejos teus entre pedaços de alma e paixão, cobertos por silabas graves de um poema de Neruda adornado na voz de Caetano embalados em solfejos mil.

Vazas na lingua um mar que não há meio de me afogar e fazes poesia com cheiros, formas, gestos soltos em espaços do teu corpo que tacteio como em Braille.

A tua voz que avança, os gestos largos e eloquentes, uivo de loba ferida, presa ao pensamentro esculpido em sal, domada por sonetos ritmados de Chopin.

A Lua espreita de novo, timida, sonolenta, uniforme, clareando sonhos.
O mar brilha tocado pela magia do beijo que lhe depositas.
Abraçados, deixam-se levar pelo "sem nexo e sem rumo" até despertarem num soluço matinal.

21 junho, 2009

O QUE É ACABAR?






Vive num T1 com uma enorme varanda.
Sozinho com um fogão, frigorifico e um pombo que lhe traz noticias do mundo.

O silêncio que não consegue deixar para trás. Um sorriso que não consegue descolar.
Sonhos que não quer perder.

Um relógio que só ele sabe que existe, um perfume leve e fresco como a espuma de um banho.
Um aceno, despedida. Um adeus, de partida.

Qual o nome desse corpo a que chamas teu? Porque atribuímos nomes quando nem nos conseguimos decifrar por inteiro?

Ficas num limbo e aguentas até à sétima vaga de uma onda que te leve.

O teu tronco, outra cabeça. Os teus abraços, outro corpo.
A vida toda dentro do relógio que só ele sabe onde está.

A sombra do corpo que só eu conheço e o brilho dessa luz nos olhos, intensos, pouco para o tamanho da saudade que adivinhas.

Cilindro com a verdade os morteiros disparados por couraçados de algibeira, quando te injectam morfina nas veias esquálidas e corroídas.

Perdeste tempo de mais, num tempo que tem sempre de menos.

Fazes intervalos entre palavras como os dentes que te faltam na trincheira perdida entre idades que já nem contam – dizes tu.

Vagueia o pombo num arrulhar cúmplice de memórias, gestos e sonhos feitos a dois.
O momento da cumplicidade invertida, o momento das palavras quietas na solidão dos afectos entre diferentes, como se cada momento fosse apenas o fim do intervalo.

Lapidaste o desejo e esculpiste a lágrima furtiva enquanto os ponteiros desandam em sentido oposto e as marés invertem tenebrosas passagens do tempo.

Já tens acordeão no lugar do piano, sol sem nuvem e esperança no espaço entre o fogão e o frigorifico num T1 de janelas viradas a norte.

A tua mão escreve no papel que imite sons que não são os teus, e vozes que escutas por dentro de nós. A vida toda num relance, como se fosse acabar.

O que é acabar ?

09 junho, 2009

GENTE


(Hey Jude)


Uns brancos, outros negros, outros pintados.
"Gays" e acrobatas, actores e travestis.

Estudantes e trabalhadores do Estado, mulheres a dias e jovens sem rumo.
Engravatados e desnudados.
Católicos e anárquicos, protestantes e Islâmicos, jovens sem curso e velhos cursados.

Pais e avós, filhos e netos.
São Povo, pessoas, e gente.
Não gostam de gostar de fugir, nem tão pouco dos que o fazem.

Primam pelas diferenças e abominam carneirismos empacotados em filas de sentido único.
Gente que encara a ignorância e o insulto, com a leveza sobrevalorizada de coragem.
Gente que usa torpedos por desembrulhar preferindo o gesto e a palavra às armas.

Gente das sete partidas do todo que é mundo, numa globalidade fascinante.
Gente que dá as mãos e luta e grita e chora e canta e solta discurso em prol da paz da união e das diferenças salutares.

Todos já passaram pelo ridículo, já se enganaram, já coraram e já amaram sem esperança, proporcionando esperança a outros.

Gente que tem medo mas tem voz que desafina e desatina que se expõe a criticas e apupos, a palmas e doces galanteios, gente de marés e tempestades.

Vencedores e derrotados.
Gente com sucesso e gente sem sorte, gente que hesita e que desilude, gente que já foi e que ainda é.

Gordos e magros, aprumados e maltrapilhos, salteadores e saltimbancos, gente do Governo e sem governo, gente com casa e outros de lata, gente do yogurte e da cerveja, da Joan Baez e Tom Jobin, gente de futuro outros sem fim.

Gente traída por opões e de convicções que tem e partilha emoções.
Gente que apunhalou sem lâmina de aço sonhos e solidão, que correu e caiu que se levantou e sorriu
Gente que se pinta e se constrói que teatraliza e se corrói.

Gente da "Burka" e de "Crucifixo" de "Piercing" e de eucalipto.
Gente que vive e sabe e faz, gente branca, negra, índia e outros sem cor,
titulares e suplentes, carregadores e tocadores, de sotaque e cantoria, loira e morena, cabelo escorrido e carapinha, "Homo" e "Bí" gente que é ...

SÓ MAIS UM IGUAL A TI !

06 junho, 2009

VASCULHAR SEGREDOS













Se os meus dedos vasculhassem os teus segredos no azul dos olhos em que me perdia,

Se me atravessava em ti como um tronco num desconcerto, violinos pegados, partituras encobertas por letras pequeninas e sinais vitais que sobem e descem como picos de tensão.

Se os meus dedos vasculhassem os teus segredos e como cirurgião afastasse os teus órgãos e alinhasse de novo na medida exacta da minha medida.

Moldo na palma da mão o coração que tenho como meu, e vejo-te através dos olhos peregrinos, exasperados de verão, lábios húmidos e sorrisos de menina, com hábitos e vícios de sono e de pecado.

Os meus dedos moldam essa figura frágil, esse coração latejante, os cabelos soltos e as madeixas que desesperam por um afago.

Apanho pedaços das mãos que fertilizam, enquanto abres os braços na procura de um aconchego embalado ao vento.
Pés descalços, perfume que me adoça e entontece.

Se os meus dedos vasculhassem.

Vieste com a subtileza de palavras e versos arrancados da noite que era a nossa, e eu embevecido de corpo e alma, mais alma que corpo, moldando devagar para não estragar, o teu que era o meu coração.

Preciso de mim de volta, sensatez, pedaço de calma e sonho, voz e mundo, constante e intenso, apegado e arrebatador, sonhador mas também pragmático.

E quando a lua estiver de novo no seu lugar, soltarei o meu grito descuidado para marcar o teu lugar em mim.

Este amor vivo é alegria, dor, tédio, paixão, apego, alma e pele, que anestesia o pensamento e reclama ar.

A lua que te traz e o sol que te leva em partes iguais.











Um Tio dizia ter passado parte da sua vida “agarrado” a um fantasma mudo mas quezilento e inoportuno.

Aparecia onde e quando não devia tentando chamar a atenção de forma despudorada e rezingão.

Perseguia-lhe os passos como uma sombra primaveril e fazia desenhos, escrevendo datas e nomes, que ía passando em papelinhos travestidos com flores.

Quando algo de pior estava para acontecer, premonitoriamente a fantasmagórica criatura ainda mais lhe entediava a vida.

O telefone não tocava, o carro avariava, o tempo arrefecia, nuvens desabavam como correntes sanguíneas.
Bebia lágrimas que não secavam e corria pelos corredores fugindo da própria sombra.

Tinha medo da noite.
Dormia com um pequeno candeeiro aceso.
Vê-se melhor de noite os olhos das gentes - dizia, e evocava os deuses no desespero da evidência frágil do Ser Humano.

Abraçava-se à densidade do tempo em leito de guerrilha sentimental.

Ouvia aqui e ali acordes de grilhetas, sons díspares de torniquetes, instrumentos de morte e vida.

Atravessa a noite sem cálculo nem conforto, sem mácula nem sonho, num pesadelo constante.

Procura na luz a intermitência dos medos, para aí poder enterrar de vez o seu fantasma, nesse cemitério secreto que esculpimos em cada um de nós.