06 junho, 2009












Um Tio dizia ter passado parte da sua vida “agarrado” a um fantasma mudo mas quezilento e inoportuno.

Aparecia onde e quando não devia tentando chamar a atenção de forma despudorada e rezingão.

Perseguia-lhe os passos como uma sombra primaveril e fazia desenhos, escrevendo datas e nomes, que ía passando em papelinhos travestidos com flores.

Quando algo de pior estava para acontecer, premonitoriamente a fantasmagórica criatura ainda mais lhe entediava a vida.

O telefone não tocava, o carro avariava, o tempo arrefecia, nuvens desabavam como correntes sanguíneas.
Bebia lágrimas que não secavam e corria pelos corredores fugindo da própria sombra.

Tinha medo da noite.
Dormia com um pequeno candeeiro aceso.
Vê-se melhor de noite os olhos das gentes - dizia, e evocava os deuses no desespero da evidência frágil do Ser Humano.

Abraçava-se à densidade do tempo em leito de guerrilha sentimental.

Ouvia aqui e ali acordes de grilhetas, sons díspares de torniquetes, instrumentos de morte e vida.

Atravessa a noite sem cálculo nem conforto, sem mácula nem sonho, num pesadelo constante.

Procura na luz a intermitência dos medos, para aí poder enterrar de vez o seu fantasma, nesse cemitério secreto que esculpimos em cada um de nós.

1 comentário:

Cocas disse...

bhuuuuuu!!!! fantasmas?! sempre tive medo, muito medo:)))