24 julho, 2009

Um adeus e um sorriso















Porque me dizes adeus ?

Porquê ? Um adeus com um sorriso como se partisses satisfeita?

Esse acenar e um sorriso, o sorriso e um rosto, o rosto e tu, juntos até mais não.

O silêncio longe das vozes. A tua respiração longe de mim e um adeus, um aceno.

O relogio que não para como a vida que não termina.
Apenas nós. Eu e tu.
Como um relogio de parede com a minha vida toda lá dentro. Tic-Tac, tic-tac.

Tu que dás corda e eu que me viro e reviro, em minutos e segundos e horas.
A tua cegueira, a minha surdez, a tua lingua e os meus dentes.

O teu amor e a minha paixão.
A minha roupa sempre azul, e a tua branca imaculada.

O cesto do pão. Três carcaças e um pão-de-deus... valha-me o Santo por ti.

Lenços de aceno. Uns brancos, outros coloridos, uns usados, outros sabe-se lá.

Tal como o teu sorriso que nem eu sei, a tua voz que se foi, a respiração entrecortada por lançamentos de spray para a asma e a tua lingua nos meus dentes.

Porque me dizes adeus ?

11 julho, 2009

Psst, psst...!






Psst, psst…!

Sabem se estou vivo, se isto é tudo real e se ainda não entrei na espiral de loucura, que adivinho breve.... – dizia João Batatim.
Não é fácil viver com alguma sanidade nesta selva.
Aliás só alguns conseguem meter a cabeça de fora do pântano em que se sobrevive.
E esses são os tais…

Estava então...como se chegasse ao fim.
Sentia-se naufrago numa ilha com cacilheiros que desembocam nos lugares em volta.
Os dias misturam-se como nós de marinheiro e pandemias virais.

Faz um cerimonial de palavras desacertadas e procura geometria em frases sem nexo.
Pensa (?) na odisseia dos caminhos que percorreu e outros tantos para percorrer e não se encontra neles. Corre por entre o fio da navalha, o abismo que se aproxima, pelo meio dos carros em contramão e ele próprio em contra-circulo.

Dizia o João Batatim no Júlio de Matos, entre limpezas de vidros cuspidos entre dois dentes falhados,...
- Tenho um lança-chamas que não funciona…! O lança-chamas poluente, que diz trazer às costas e que tudo resolve.
João Batatim, o homem sem dentes e cuspidor sazonal.

Psst, psst!

Que tal estou?
Camisa branca com riscas fortes de azul, um galanteio no canto da boca e um tisnar no olho que o faz coçar até arder.

Junta-se à equipa.
Todos encostados ao parapeito do muro, olhares enviesados como corvos em quarto crescente.
Remoía as ideias entre corpos que se cruzam. Dois saltos entre a passadeira listada da Avenida da Igreja.
- Não posso tocar nas brancas, dizia.

As árvores dançavam em seu redor, os carros buzinavam, velhas pindéricas retocavam lábios de papel.
Canastrões gelosos até ao pescoço repenicavam unhas até ao sabugo.

Meio-dia-e- um-quarto no relógio da Igreja.
Numerações romanas que inverte a pretexto.
Abana as orelhas como ventoinhas e o nariz como a bruxa malvada.
Os semáforos não mudam faz um minuto e vinte, traz o Diário de Noticias de há quinze dias e o urinol é a parte de trás da árvore direita e a dianteira do Citroen Ax.

Um corpo que não cabe em nenhuma pele, uma alma com mil segredos por desvendar e um terço de gente a preceito com três quartos sem jeito nenhum.

Psst, psst!

Corre e faz peões, ziguezagues e cambalhotas, um pedaço de jornal e cuspidela directa no vidro dianteiro quando o semáforo estaciona no vermelho.
- Só dá moeda se quiser, senhor.
Cigarros sem cor e dedos cravejados de negro.

Treze horas.
Vai recolher e leva a equipa que sai do parapeito, enquanto velhas gaiteiras de base despejado na direcção desconexa das orelhas, pedem mais um galão e meia torrada.
Abana as orelhas e torce o nariz.

Os semáforos mudam de vez em quando e todos se acotovelam na direcção da primeira porta.
Saltita ao pé-coxinho e pisa degrau sim degrau não, enquanto a fluoxetina espreita, no contorno do corredor.

Coça o terceiro cabelo do risco ao lado e mergulha nos braços do sofá da sala.

Psst, Psst!
Façam silêncio por favor.

09 julho, 2009

Chiclete de morango





Há coisas que fazem muito mais sentido juntas.
Tom e Jerry, Bucha e Estica, Bugs Bunny e Duffy Duck, tu e eu.
Sozinhos somos como encenação trágica, juntos, um explosivo.

Éramos acordes musicais nos bailes de cave, "slows" na garagem, beijos com sabor a chiclete gorila de morango, musica “tecno” que desafinava nas colunas “marantz”.

Luzes que se apagam em cada mudança de tempo. Tempo que se definia em cada salto da agulha no vinil.

Tempo de espera entre as horas e as desoras na esquina da rua e avenida da vida, entre os travões de um carro e o chamamento da minha avó.

- Pedrinho.... Zé Pedrinho.... ...(Já vou Avó, estou quase a acabar este texto..)
E passava do beijo da chiclete para o abraço chocolate e um encosto de gelado que nos adoçava a alma e refrescava o coração.

Éramos uno e indivisíveis aos olhos da esperança.
Matavas-me com o teu olhar e ressuscitava entre um jogo de bola e fisgas atiradas a pássaros no quintal vizinho.

Rasguei calções e esfolei joelhos, fazia cavalinhos na bicicleta de volante em régua e espreitava-te no olho da rua pelo canto do mesmo.

- Pedrinho.... Zé Pedrinho... (...já vou Avó, está quase...)

Fui para ti como um segredo ou a reposição da tintura de iodo na ferida por sarar.
Saltavas do 78 em andamento com acrobacias doidas que fazias com a chiclete gorila na tua boca.

Os dias passavam lentamente e o sufoco de te ter acalmava com a chegada repentina e o cheiro de fragrâncias no ar.
Recolocamos ordem no inferno e despejamos diabinhos, borda-fora no encontro funesto com a tua partida.

O degredo que tiveste, já não te permitiu voltar.

Bolas enormes saídas da boca após sopro na pastilha de morango.

- Pedrinho..... Zé Pedrinho...( ...Avó... já está, vou agora...).

04 julho, 2009

A PRETO E BRANCO












Fotos à “Lá minute”, a preto e branco.
Radiografias de nós.

Chapéu com dois bicos que o protege do sol e um pano preto onde se refugia na busca do melhor retrato

O cavalinho malhado com o menino sentado na garupa. Sorriso traquina e um “muito bem” atirado pela mãe….
"Click-clack".

Puxa o filme, qual raio-x articulado.
Os traços começam a adquirir uma fisionomia familiar, é um preto e branco perfeito. Uma chapa bem tirada.

Vinha com o vestido aos folhos, chapéu de aba larga e uma “pouchette” na mão.
Coloca-se em pose de estrela defronte da câmara pontiaguda e planta rouge, rimel e baton, enquanto as batidas cardíacas perdiam ritmo próprio.

No cimo das escadas, agarrada ao corrimão que engolia o jardim em pedaços, corria desenfreada com os olhos brilhantes, duas bolas de gelado e um cone de bolacha.

Falava com pálpebras semicerradas e mel grudado no céu-da-boca.

O vinho escorria nas pipas, a dez escudos o copo, nas caves do Porto numa Gaia ainda vila, com Rabelos dançantes nas margens do Douro.

Em conjunto percorriam as entranhas da Sé, e perdiam-se nas suas vísceras, trocando os Vês pelos Bês.

Em cada canto, volúpia de sombras numa simbiose de corpos e marés.

Noite de festa engalanada e o corpo do velho permanece inerte, preso pelas raízes que já criou no chão.
Ecos de palavras trocadas, um “cimbalino” e uma torrada, por favor.

Vem agora a criança birrenta soprada pelos gritos da mãe que o manda na direcção do senhor da fotografia. - Fotos à "Lá Minute" respinga ele.

Puxa do negro do pano, pede sorriso no choro da criança e dispara a máquina que estremece o cavalinho desengonçado.

Fotos a preto e branco, radiografias de nós.

Quando o tempo tingir o encanto da vida e permanecer pano de fundo, abrimos o cofre-forte das recordações e assumimos o velho cavalinho malhado e o senhor do “clik-clack” estridente após chapa massacrada na face da criança que já não és.

E fica esse como o espelho da alma.
Fotos à “Lá-Minute

03 julho, 2009

Por dentro de mim...!




Entraste suavemente como doce melodia e adornaste a minha alma com fragrância de framboesa.

Tens ritmos desenfreados em ti, que tentas libertar na minha direcção.
Refreias o passo, hesitas num “tem-te não caias” incómodo.

Queres-me de qualquer modo e jeito, sem pecado, constante e tenebroso, eficaz e permanente.
Percorres-me de cima a baixo, de fio a pavio, numa procura intensa e inquietante.

Saltas entre espaços e defines-me por entre órgãos que percorres como esquiador em gelo deslizante.
Sentes um marulhar nas ondas do meu corpo e reténs o ímpeto. Há medida que te mexes, o coração galopa ritmos vertiginosos

Basta-te um toque, lábios inquietos, sangue que circula como lava ardente

Ecos que se arrastam por dentro de mim, que procuram um espaço entre o beijo e a partida, no momento em que usas o meu interior como quem aluga a sala próxima.

Insistes em aparecer por entre letras numa dança envolvente e sinto-te por dentro de mim nos silêncios que faço quando o vento não está de maré.

Sabes-me bem, mexeriqueira, e o conforto de te sentir ali, ora deitada ora sentada num cruzar de pernas voluptuoso

E sorvo-te feitiços de algas marinhas, macumbas de rapapé, amuletos e milongas, talismã de águas turvas nas entranhas que vês.

Porque me queres ver e queres sentir, porque desejas mas afastas névoas que te ensombram e tiram o brilho do olhar mesmo quando coras.

Um peito ardente, um misterioso “malmequer” pelo “bem-me-quer”.

Atravessas o meu interior como atravessas a vida, intensa, escrevendo um diário de bordo.

Um beijo e uma partida.

Encosto o queixo ao peito e concentro-me no teu rodopiar em mim, procurando-te como a Águia a presa.

Sopro-te de mansinho e assobio-te com junção de lábios e língua, alimentando a candeia do amor antes que o fio se apague e nos afaste dos caminhos da luz.

Um beijo e uma partida

... por dentro de mim.