09 julho, 2009

Chiclete de morango





Há coisas que fazem muito mais sentido juntas.
Tom e Jerry, Bucha e Estica, Bugs Bunny e Duffy Duck, tu e eu.
Sozinhos somos como encenação trágica, juntos, um explosivo.

Éramos acordes musicais nos bailes de cave, "slows" na garagem, beijos com sabor a chiclete gorila de morango, musica “tecno” que desafinava nas colunas “marantz”.

Luzes que se apagam em cada mudança de tempo. Tempo que se definia em cada salto da agulha no vinil.

Tempo de espera entre as horas e as desoras na esquina da rua e avenida da vida, entre os travões de um carro e o chamamento da minha avó.

- Pedrinho.... Zé Pedrinho.... ...(Já vou Avó, estou quase a acabar este texto..)
E passava do beijo da chiclete para o abraço chocolate e um encosto de gelado que nos adoçava a alma e refrescava o coração.

Éramos uno e indivisíveis aos olhos da esperança.
Matavas-me com o teu olhar e ressuscitava entre um jogo de bola e fisgas atiradas a pássaros no quintal vizinho.

Rasguei calções e esfolei joelhos, fazia cavalinhos na bicicleta de volante em régua e espreitava-te no olho da rua pelo canto do mesmo.

- Pedrinho.... Zé Pedrinho... (...já vou Avó, está quase...)

Fui para ti como um segredo ou a reposição da tintura de iodo na ferida por sarar.
Saltavas do 78 em andamento com acrobacias doidas que fazias com a chiclete gorila na tua boca.

Os dias passavam lentamente e o sufoco de te ter acalmava com a chegada repentina e o cheiro de fragrâncias no ar.
Recolocamos ordem no inferno e despejamos diabinhos, borda-fora no encontro funesto com a tua partida.

O degredo que tiveste, já não te permitiu voltar.

Bolas enormes saídas da boca após sopro na pastilha de morango.

- Pedrinho..... Zé Pedrinho...( ...Avó... já está, vou agora...).

6 comentários:

Cocas disse...

"Há coisas que fazem muito mais sentido juntas.
Tom e Jerry, Bucha e Estica, Bugs Bunny e Duffy Duck, tu e eu."

E eu acrescento: Tu e um livrito editado...vá lá! Quem lê os teus textos parece que está a ver um filme.
Parabéns, mais uma vez.
Beijinho

Lídia Borges disse...

Tão criativo como os demais que já li.
Um dizer a vida próprio de quem gosta de viver e gosta do que já viveu.

Esse chamar da avó... delicioso!

L.B.

Joana Brito disse...

Dá prazer vir aqui...

Parabéns pelo fantástico trabalho!

paula disse...

o 78... para a Foz ou hospital de S. João... que saudades, que tempos soltos...

parabéns pela escrita

Pedro Viegas disse...

Era esse o autocarro. 78 para a Foz ou Hospital de S. João, com paragem na Av Fernão Magalhães. Dois pisos de autocarro e uma saudade eterna.

paula disse...

e o A com traço até ao mercado da foz e o A sem traço até ao castelo do queijo........

obrigada, recuei no tempo, andámos pelos mesmos lados