04 julho, 2009

A PRETO E BRANCO












Fotos à “Lá minute”, a preto e branco.
Radiografias de nós.

Chapéu com dois bicos que o protege do sol e um pano preto onde se refugia na busca do melhor retrato

O cavalinho malhado com o menino sentado na garupa. Sorriso traquina e um “muito bem” atirado pela mãe….
"Click-clack".

Puxa o filme, qual raio-x articulado.
Os traços começam a adquirir uma fisionomia familiar, é um preto e branco perfeito. Uma chapa bem tirada.

Vinha com o vestido aos folhos, chapéu de aba larga e uma “pouchette” na mão.
Coloca-se em pose de estrela defronte da câmara pontiaguda e planta rouge, rimel e baton, enquanto as batidas cardíacas perdiam ritmo próprio.

No cimo das escadas, agarrada ao corrimão que engolia o jardim em pedaços, corria desenfreada com os olhos brilhantes, duas bolas de gelado e um cone de bolacha.

Falava com pálpebras semicerradas e mel grudado no céu-da-boca.

O vinho escorria nas pipas, a dez escudos o copo, nas caves do Porto numa Gaia ainda vila, com Rabelos dançantes nas margens do Douro.

Em conjunto percorriam as entranhas da Sé, e perdiam-se nas suas vísceras, trocando os Vês pelos Bês.

Em cada canto, volúpia de sombras numa simbiose de corpos e marés.

Noite de festa engalanada e o corpo do velho permanece inerte, preso pelas raízes que já criou no chão.
Ecos de palavras trocadas, um “cimbalino” e uma torrada, por favor.

Vem agora a criança birrenta soprada pelos gritos da mãe que o manda na direcção do senhor da fotografia. - Fotos à "Lá Minute" respinga ele.

Puxa do negro do pano, pede sorriso no choro da criança e dispara a máquina que estremece o cavalinho desengonçado.

Fotos a preto e branco, radiografias de nós.

Quando o tempo tingir o encanto da vida e permanecer pano de fundo, abrimos o cofre-forte das recordações e assumimos o velho cavalinho malhado e o senhor do “clik-clack” estridente após chapa massacrada na face da criança que já não és.

E fica esse como o espelho da alma.
Fotos à “Lá-Minute

6 comentários:

Cocas disse...

Que giro este texto! Lê-lo, é como dar um mergulho na época do preto e branco.
E não é que eu até tenho uma fotografia dessas, montada no cavalinho e tudo?! Ainda existem cavalinhos desses com os respectivos fotógrafos os quais parecem ter parado nessa época. Acho que só se vêem mesmo "a preto e branco", de tal forma pararam no tempo!
Beijinho.

JS disse...

Quem não tem uma dessas?!?

Adorei!

KOTTA disse...

Sou do tempo do preto e branco, que agora já se vê bastante outra vez.Fez-me recordar um vizinho que andava com o cavalo dentro do carro
por tudo quanto era romaria a tirar fotografias,nos dias de hoje o único que conheço é em Viana do Castelo. Um abraço

Chris disse...

As eternas fotos a preto e branco, fezem sentido no tempo da transparência da cor.
bj
Chris

Stella Tavares disse...

Um lindo poema! De encher os olhos de sensível beleza! Parabéns!!

Stella Tavares disse...

Um lindo poema! De encher os olhos de sensível beleza! Parabéns!!