11 julho, 2009

Psst, psst...!






Psst, psst…!

Sabem se estou vivo, se isto é tudo real e se ainda não entrei na espiral de loucura, que adivinho breve.... – dizia João Batatim.
Não é fácil viver com alguma sanidade nesta selva.
Aliás só alguns conseguem meter a cabeça de fora do pântano em que se sobrevive.
E esses são os tais…

Estava então...como se chegasse ao fim.
Sentia-se naufrago numa ilha com cacilheiros que desembocam nos lugares em volta.
Os dias misturam-se como nós de marinheiro e pandemias virais.

Faz um cerimonial de palavras desacertadas e procura geometria em frases sem nexo.
Pensa (?) na odisseia dos caminhos que percorreu e outros tantos para percorrer e não se encontra neles. Corre por entre o fio da navalha, o abismo que se aproxima, pelo meio dos carros em contramão e ele próprio em contra-circulo.

Dizia o João Batatim no Júlio de Matos, entre limpezas de vidros cuspidos entre dois dentes falhados,...
- Tenho um lança-chamas que não funciona…! O lança-chamas poluente, que diz trazer às costas e que tudo resolve.
João Batatim, o homem sem dentes e cuspidor sazonal.

Psst, psst!

Que tal estou?
Camisa branca com riscas fortes de azul, um galanteio no canto da boca e um tisnar no olho que o faz coçar até arder.

Junta-se à equipa.
Todos encostados ao parapeito do muro, olhares enviesados como corvos em quarto crescente.
Remoía as ideias entre corpos que se cruzam. Dois saltos entre a passadeira listada da Avenida da Igreja.
- Não posso tocar nas brancas, dizia.

As árvores dançavam em seu redor, os carros buzinavam, velhas pindéricas retocavam lábios de papel.
Canastrões gelosos até ao pescoço repenicavam unhas até ao sabugo.

Meio-dia-e- um-quarto no relógio da Igreja.
Numerações romanas que inverte a pretexto.
Abana as orelhas como ventoinhas e o nariz como a bruxa malvada.
Os semáforos não mudam faz um minuto e vinte, traz o Diário de Noticias de há quinze dias e o urinol é a parte de trás da árvore direita e a dianteira do Citroen Ax.

Um corpo que não cabe em nenhuma pele, uma alma com mil segredos por desvendar e um terço de gente a preceito com três quartos sem jeito nenhum.

Psst, psst!

Corre e faz peões, ziguezagues e cambalhotas, um pedaço de jornal e cuspidela directa no vidro dianteiro quando o semáforo estaciona no vermelho.
- Só dá moeda se quiser, senhor.
Cigarros sem cor e dedos cravejados de negro.

Treze horas.
Vai recolher e leva a equipa que sai do parapeito, enquanto velhas gaiteiras de base despejado na direcção desconexa das orelhas, pedem mais um galão e meia torrada.
Abana as orelhas e torce o nariz.

Os semáforos mudam de vez em quando e todos se acotovelam na direcção da primeira porta.
Saltita ao pé-coxinho e pisa degrau sim degrau não, enquanto a fluoxetina espreita, no contorno do corredor.

Coça o terceiro cabelo do risco ao lado e mergulha nos braços do sofá da sala.

Psst, Psst!
Façam silêncio por favor.

3 comentários:

Cocas disse...

Muito original, diferente dos anteriores...
E olha,... psst, psst...beijinho!

Maria A disse...

à deriva por entre os medos da vida. por entre a sociedade em luz tune, ou meia escuridão.
ninguem quer ver..

O Profeta disse...

Este mar de fresco azul
Estas pedras sentinelas constantes
Estas ondas que adormecem nelas
Vieram do mundo em formas navegantes

O amargo das uvas verdes
Cede ao sorriso do astro rei
O doce invade os sentidos
E a ternura impõe a sua lei


Boa semana


Abraço