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A mostrar mensagens de Agosto, 2009

Braços como pendentes

As mãos que não mexem e os braços como pendentes.
Não sei se acordado, se a dormir, se apenas sonhos ou pesadelos.
Tenho receio do que sonho, do que vejo e não descortino.

O crescimento tem coisas difíceis, muito difíceis.
De repente tudo muda. Os locais, os amigos, namoradas, familiares que desaparecem.
Deixamo-los espalhados por aí, como os braços pendentes.
Alguns pelas escolas, outros nas ruas em brincadeiras, pelos bailes de garagem, nos clubes, em cima de bicicletas ou rodopios de mota, alguns outros que perdemos nas esquinas da vida.

Amigos que construímos e estruturamos na nossa medida.
Mudamos nós, mudam eles.
A tal mudança inquietante da vida que enrola e desenrola.

Tomamos como certo este silêncio que se arrasta.
E eu arrasto silêncios.

E se não tivesse os braços pendentes ?
Se não houvesse dedos, fosse mudo, desarticulado, disléxico... e se não encaixasse em nada disto que escrevo?
Eu, com esta celulite, analfabeto, ignorante, bronco e incapaz, braços pendentes e as …

Coisas da pele

Afinal foste embora. Esfumaste-te.
Escoaste dos meus braços. Tinhas vindo agarrada a saudades. Fados cantados por Amália, lágrimas que nasciam como ondas.

Saías aos poucos,
Primeiro o braço, depois as pernas, o sorriso.
Tu completa, inteira. Mas o sorriso era absoluto.
O sorriso

Escorrias-me pela pele, pelos poros, um aroma salgado que me entontece.
Um escorregar por ti, por dentro de ti.
Remexer no teu interior e tirar de dentro algumas peças desarrumadas que ancoram por lá.

Coisas agarradas à pele, como os beijos.
Beijos que se dão e se recebem. Beijos na pele, melosos, vertiginosos, repenicados, inquietos, roubados. De língua e lábios. Doces de açúcar mesclado ou de morango.

Afinal foste embora.
Escorreste-me por completo, uma fuga inquieta e demorada com um sorriso rasteiro sem entusiasmo.

Cólera que transportas contigo, por isso saíste de mim. Como se a boca me comesse de um trago e a vida acontecesse.

Espaços na vida, espaços na pele, escorregadelas vitais como surfista ging…

Ponto de Luz

Agradecimento

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Obrigado ao "Diabinhos Fora" pela simpatia nestas palavras que aqui transcrevo.

"Ao Pedro Viegas, porque o 1000 conversas é o blog mais lindo que conheço"

Fiquei sensibilizado e feliz por esse alento.

A ti, a todos vós, que me acompanham e têm o trabalho de me espreitar, e que deixam palavras de incentivo, o meu obrigado.

Deixo aqui as sábias palavras de um Grande Senhor recentemente desaparecido, chamado Raul Solnado.

"FAÇAM O FAVOR DE SER FELIZES!"

JP

Claro que se lê.

Lê-se. Aquilo que escrevo, lê-se. Apenas.
Naturalmente não sou escritor.

Vai-se lendo como uma receita passada pelo senhor doutor de medicina interna, com aqueles hieróglifos escabrosos, que o João da Farmácia não entende, e respinga...

- Zé Manel, percebes o que o doutor passou aqui na receita ?

- Esta letra de médico que não se percebe... “raios partam estes gajos, mais o trabalho que dão”, dizia ele entredentes, daqueles amarelecidos pelo tabaco fumado às escondidas.

Escrevo como um anuncio de jornal, com um sorriso enorme que me atravessa a face e não como um Eça de óculo no olho direito e um bigode que se retorce enquanto lança letras e frases subtis mas relampejantes, um verdadeiro doutor de letras.

E eu preocupado com a falta de pontuação, as virgulas no seu lugar, a loucura que lhe transmito, o tédio que não quero passar, os meus e os nossos pecadilhos, a entoação que dou às frases lendo em voz alta para ficar afinado como uma Maria Callas.

E no entanto o meu medo, era da tua loucu…
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Adoro pintar-te como num restauro firme.
Peça a peça. Minuciosamente.

Entrar dentro de ti e esculpir-te órgão, um após o outro e dar-te a firmeza necessária para um funcionamento sereno e seguro.
Uma hora após a outra, um momento após o outro.
Afinando tudo em concreto e nada ao desacerto.

Uma cópia perfeita, esculpida, pintada, adornada, envolvida e definida.
Gosto da cicatriz a meio do corpo quando cais a pique numa página escrita por mim.

Escrevo e gravo e guardo e surgem “grafittis” alaranjados no prédio em frente do meu, coberto de frases minhas.
Cais em cadência lenta e não fujo de ti nem deixo de escrever na folha onde pousas corpo e cicatriz.

Folhas de silêncio em que desalinho a inquietude, folhas com tanto de mim, como as telas com tanto de ti.

E nesses momentos tento pintar-te como num restauro firme.
Por vezes sem tela nem tinta, apenas de pensamento.
Seguro e firme, como se em cada linha e em cada tonalidade fosse eu. De memória, mas eu.

E se algum espaço estiver mal preenchido, algu…

Perfeito

Moravas no terceiro frente do prédio cinza na rua direita.
Vivias como um mito. Linda e sedutora.

Não te sabia voz nem olhar, apenas passos e vultos ocasionais.
Sabia-te dali pelo som nocturno de oboés. Sabia-te pelo doce cheiro que largavas na rua direita, prédio cinza.

Lia-te as crónicas periódicas e os postais que enviesadamente recebia. Escrevias e eu lia.
Com amor e desespero.

Falavas de beijos e abraços. Beijos dados como quem morre. Cabeça para o lado, língua de fora.
Fosse a morte assim…!

A cidade dorme e perscruto o som que invade os céus. Trovões de partida.
Ainda vivo com muita gente dentro de mim. Não são anjos nem demónios. Apenas saudades, verdades, angustias, desejos.

Dos que amei fica o amargo doce da saudade.
Inquietante.
Tempos passados, apertados por laços e verbos.

A minha concha sem portas nem janelas. Irrespirável.
Sinto-me preso por fios de aço na loucura que vivo em mim.
O amor é sequioso. O labirinto concavo, imperfeito como o teu olhar que não vejo e os passos que disti…

OUTRO TEMPO

Estou para aqui sozinho
Quatro cadeiras e uma mesa, a secretaria e o caderno, mais a água que beberico como o médico informou.
Estou e não estou que da janela vejo o mundo.

Disse-te que não.
Hoje não.
Fico por aqui mesmo.

Estou para aqui sozinho, e a minha Avó Espanhola nas fotos a preto e branco mais os primos das beiras.
Um arrepio de letras e desvario de ideias e a minha avó que ditava e nós escrevíamos.
De vez em quando uma espanholada e nós delirávamos baixinho, rindo a desconcerto.
- Achas que algum dia vou saber escrever?

O vinho jorrava nos pipos do douro vinhateiro e o pessoal descia à quinta lançando entre muros frases vesgas que o meu avô escondia de uns senhores de fato escuro.

Exilavam-se em copos de quatro dedos e cúmplices, exaltavam Reis e Príncipes fidalgos, Padres, Senhores e Povo.
Eram imperadores por instantes.

O Douro gritava, enquanto as uvas fermentavam.
- Será que um dia aprendo a escrever?

Tenho em mim o cheiro a pó das amêndoas, das nozes por descascar, dos fumeiros e o …

I don’t understand you. So what’s the matter with that?

Agora amanha-te…
E eu, amanho-me, está visto.
Viro-me sozinha, e amanho-me.

O mesmo tecido verde, que conheço faz anos.
As flores na janela. O cão, de cabeça a abanar em permanência no vidro de trás do carro em cima de um “naperon”
Quando as coisas não estavam bem interiormente, fazia uma pausa e mudava de rota…três quartos para a esquerda, meia-volta.

Espreguiça-se como uma criança.
Tenta ver onde não vê, atingir o que não alcança, distinguir.
Criar espaços de lugar nenhum, de fronteiras ilimitadas onde infantiliza a vida.

-“Agora estou velha, mais velha que gasta”.
Faço então o quê?
Amanho-me é o que é.

Era muito bonita, uma princesa.
Tinha os homens todos atrás de mim.
Sim, que a minha mãe não me deixava dançar com qualquer um, nem me largava um minuto.
Agora é diferente. Nem sabem o nome e já se beijam.
Perdição é o que é.

Mas eu ainda vou ser bonita. E namoradeira.
Três passos ao lado, dois em frente, uma dança vertical, um tango aprumado,
“et voilá”…

Irei morrer.
Um dia terá de ser, tudo tem …

Concerteza que és tu

Tu e o narizinho do costume.
Não é a cara nem as orelhas, muito menos o riso.
É o teu narizinho do costume.

-“quem não tem maçadas põe o dedo no ar…”
- “Pim, pam, pum, cada bola…”


Reparo em ti. Estás na mesma.
Seca, gostosa, cheirosa, dengosa… sua vaidosa.
Mesmo essa covinha quando sorris e que te pertence como a tela ao pintor.
Não passam por ti os anos, nem os dias.

E eles? Passam por ti ao menos?
Vai passar um século e tu… linda, esbelta, vaporosa.


“… para a galinha e para o peru, quem se livra és tu…”

Tu e o teu narizinho do costume

Tu assim e eu um trapo. Farrapo de gente.
Rugas e rugas e sardas e a pele que se encolhe.
Esta papeira, o inchaço dos olhos, o canto da boca esquisito a curva nas costas e o peito sem elasticidade.
E tu assim, diferente.

“… o ultimo a chegar perde o lugar…”

Amontoados de gente que te rodeia qual figura principal da telenovela das oito.
E Lisboa que se esconde e desenha coloridos em sombras e pontos de luz amarelos e vermelhos como um lençol que se estend…