17 agosto, 2009


















Adoro pintar-te como num restauro firme.
Peça a peça. Minuciosamente.

Entrar dentro de ti e esculpir-te órgão, um após o outro e dar-te a firmeza necessária para um funcionamento sereno e seguro.
Uma hora após a outra, um momento após o outro.
Afinando tudo em concreto e nada ao desacerto.

Uma cópia perfeita, esculpida, pintada, adornada, envolvida e definida.
Gosto da cicatriz a meio do corpo quando cais a pique numa página escrita por mim.

Escrevo e gravo e guardo e surgem “grafittis” alaranjados no prédio em frente do meu, coberto de frases minhas.
Cais em cadência lenta e não fujo de ti nem deixo de escrever na folha onde pousas corpo e cicatriz.

Folhas de silêncio em que desalinho a inquietude, folhas com tanto de mim, como as telas com tanto de ti.

E nesses momentos tento pintar-te como num restauro firme.
Por vezes sem tela nem tinta, apenas de pensamento.
Seguro e firme, como se em cada linha e em cada tonalidade fosse eu. De memória, mas eu.

E se algum espaço estiver mal preenchido, algum orgão a descoberto ou fora do lugar, dar-lhe-ei um toque sereno e subtil, como se nada fosse, mas tudo contasse, como se não quisesse, mas tudo fizesse parte.

E nesse funcionamento sereno e seguro, como as mãos mágicas do obstetra no acto mágico do nascimento, uma cópia perfeita, uma hora após a outra, um momento após o outro.
Como num restauro firme.

6 comentários:

DIABINHOSFORA disse...

Todos tentamos funcionar de uma forma serena e segura, porém nem sempre o conseguimos, por mais que o queiramos.
Lindas frases que aqui se juntaram para formar um texto de grande beleza,...como sempre.

Beijinho

Only Words disse...

Bonito, gostei ;)

Delirius disse...

"... Como num restauro firme..."
Amei esse recado de amor!

Um beijo, Pedro.

Lídia Borges disse...

A (re)construção à medida dos nossos sonhos... Perfeição imperfeita.

Um beijo

Paula disse...

A maior parte das vezes, quando o leio, vejo um poema onde sentimentos humanos se abraçam e se tocam de forma terna.
Quando as palavras se transformam em melodia, voamos inevitavelmente num mundo de luz, que nos aquece a alma.

Eva Gonçalves disse...

Realmente, muito bonito...