28 agosto, 2009

Braços como pendentes



As mãos que não mexem e os braços como pendentes.
Não sei se acordado, se a dormir, se apenas sonhos ou pesadelos.
Tenho receio do que sonho, do que vejo e não descortino.

O crescimento tem coisas difíceis, muito difíceis.
De repente tudo muda. Os locais, os amigos, namoradas, familiares que desaparecem.
Deixamo-los espalhados por aí, como os braços pendentes.
Alguns pelas escolas, outros nas ruas em brincadeiras, pelos bailes de garagem, nos clubes, em cima de bicicletas ou rodopios de mota, alguns outros que perdemos nas esquinas da vida.

Amigos que construímos e estruturamos na nossa medida.
Mudamos nós, mudam eles.
A tal mudança inquietante da vida que enrola e desenrola.

Tomamos como certo este silêncio que se arrasta.
E eu arrasto silêncios.

E se não tivesse os braços pendentes ?
Se não houvesse dedos, fosse mudo, desarticulado, disléxico... e se não encaixasse em nada disto que escrevo?
Eu, com esta celulite, analfabeto, ignorante, bronco e incapaz, braços pendentes e as mãos que não mexem.

Feitiços e talismãs que adorno ao pescoço e nos pulsos com preces ao Pai de Santo.
Logo eu que não conheço África nem Brasil, calibro redenções entre silêncios e meias palavras.
Um exagero é o que é.

E as tuas cartas à maneira antiga, empertigadas num selo e lembranças interiores, um calor de vozes salgadas.
Vejo por lá o teu indicador e o perfume que se alastra.
Tu não queres o meu bem.... o teu perfume....

Palavras que escreves, encriptadas, rasuradas e truncadas.
E eu como um soldado no regresso da missão, cabeça cheia de sonhos e revoltas, sem peso nem medida.
Um feito defeito, essas tuas palavras ancoradas no limar doce.

Um segundo. Espera um segundo, tenho os braços como pendentes e as mãos que não mexem...

8 comentários:

DIABINHOSFORA disse...

"E se não tivesse os braços pendentes ?"

Aqui está uma boa questão!
De uma forma ou de outra, todos temos as mãos atadas em certas alturas da vida, é apenas uma questão de as desatarmos. Ás vezes é mais fácil do que parece...outras nem por isso...

Beijos

Delirius disse...

"Um segundo. Espera um segundo, tenho os braços como pendentes e as mãos que não mexem..."

... e as palavras trancadas na garganta!

És fabuloso, estou sempre a repetir-me, né?! É que sinto-me pobrezinha de letras sempre que te leio, mas..., adoro vir aqui!

Pedro, um beijo.

Lídia Borges disse...

Às vezes é a própria vontade que não tem vontade de pôr os braços e as mãos em movimento e quando assim é, ficamos a "arrastar silêncios".
Mais um bom texto. Este em tons de melancolia a lembrar o outono que já se aproxima.

Um beijo!

Only Words disse...

Por vezes mais vale deixar-mo-nos levar, assim, sem pensar, apenas sentido o que a vida nos vai dando!

Simone Klaus disse...

OI Pedro!! LIndo texto!! Adorei!


Beijos com desejo de paz no seu coração!!

Anónimo disse...

Oi Pedro!! Amei seu texto! Muito lindo!! Adoro textos!

Beijos!

Flor da palavra disse...

Precisamos de mudanças..
Belo texto.
Uma ótima semana.
Beijos

Marina-Emer disse...

BUENO DE MOMENTO YA SOY SEGUIDORA DE TUS BLOGS ...ME GUSTAN MUCHO Y VOLVERE CON MAS CALMA QUE AHORA HE DE SALIR ...
UN ABRAZO
MARINA