20 agosto, 2009

Claro que se lê.

Lê-se. Aquilo que escrevo, lê-se. Apenas.
Naturalmente não sou escritor.

Vai-se lendo como uma receita passada pelo senhor doutor de medicina interna, com aqueles hieróglifos escabrosos, que o João da Farmácia não entende, e respinga...

- Zé Manel, percebes o que o doutor passou aqui na receita ?

- Esta letra de médico que não se percebe... “raios partam estes gajos, mais o trabalho que dão”, dizia ele entredentes, daqueles amarelecidos pelo tabaco fumado às escondidas.

Escrevo como um anuncio de jornal, com um sorriso enorme que me atravessa a face e não como um Eça de óculo no olho direito e um bigode que se retorce enquanto lança letras e frases subtis mas relampejantes, um verdadeiro doutor de letras.

E eu preocupado com a falta de pontuação, as virgulas no seu lugar, a loucura que lhe transmito, o tédio que não quero passar, os meus e os nossos pecadilhos, a entoação que dou às frases lendo em voz alta para ficar afinado como uma Maria Callas.

E no entanto o meu medo, era da tua loucura, que ela subjugasse a minha. E como eu gostava entre letras e livros que me apertasses forte e o teu beijo queimasse a minha boca, quando deixavas a língua e os lábios amolecerem até se perderem, como se rastejassem comigo, baixinho, muito baixinho, quase perdidos.

E era nesse instante de olho penetrante que me queimavas a pele, na ânsia de me quereres bem juntinho, já quase derretido, desfeito em pó.

E era esse beijo misterioso que me fazia ver por dentro de ti, carótidas, pulmões, um rim, uma vesícula, a tonalidade do teu corpo, e a consistência feroz em ti, que me levava repleto nessa união.

E nasciam assim ideias envoltas em bolas de sabão, nos sonhos que desfiava e que me permitiam escritas. Algumas pigmentadas de purpurina.

Aquilo que escrevo, lê-se.

Sobretudo nos teus lábios quando me entoas, ou nos teus dedos quando me sublinhas, tal como fazes no meu corpo, estreitando abraços, amachucando desejos.

Não entendo esta escrita, letra com hieróglifos em papel amarelecido pelo tempo, como os óculos do Eça, e os teus beijos humedecidos que me fazem um corpo afinado como Maria Callas.

Mas lê-se, claro que se lê.

8 comentários:

Lídia Borges disse...

Hummm!
Esse "lê-se, claro que se lê" parece-me, irónico!

O que escreves lê-se, claro que se lê... Falta acrescentar o envolvimento emocional da tua escrita, a profundidade e clareza das imagens criadas, as ambivalências dos personagens e dos sentimentos, o encanto de deixar ao leitor margem para a imaginação.

Parabéns!!!

Um beijo

Delirius disse...

"Aquilo que escrevo, lê-se.

Sobretudo nos teus lábios quando me entoas, ou nos teus dedos quando me sublinhas, tal como fazes no meu corpo, estreitando abraços, amachucando desejos."

Aquilo que escreves, Pedro, sobretudo sente-se!

E eu adoro ler-te, e reler-te, e reler-te, e ...., por aí fora...:)

Beijo.

PKB disse...

Eu sou uma desnaturada como não há igual. Devia ler mais. A ti e a outros que escrevem coisas de que gosto.

Aconselho-te um blog cuja escrita me encanta, embora também não vá lá há imenso tempo. Chama-se Novos Voos e o autor é o Yardbird. No google encontras num instante. É escrita que, como a tua, se lê. E lê-se bem.

Um beijinho grande!

p.s. Se te aconselhei aquele blog, foi porque vos achei algo parecidos.

JS disse...

Lê-se e relê-se,porque é escrito com emoção,com sentimentos fortes, com garra e ternura.

E às vezes é tão bonito que não consigo comentar, parece que estragamos e não há nada a acrescentar.

Por aqui o que escreves lê-se com imenso prazer. Obrigada.

Um abraço*

Marta Sousa disse...

Vim hoje cá a primeira vez, fiquei fã do espaço. Muitos parabéns! Escrevo.

http://omphalosdementia.blogspot.com

DIABINHOSFORA disse...

Olá Pedro

É óbvio que se lê! Com o óculo do Eça ou sem o óculo, com bigode e sem bigode...essencialmente sem bigode:))
Os teus textos tocam o coração de quem os lê, porque são cheios de intensidade e sentimento.

Parabéns e um beijo.

Tens prémio para ti no diabinhos:)

paula disse...

«Aquilo que escrevo, lê-se. Apenas.».......hmmmmmmmm - humildade de anzol...
muito mais do que «lê-se. Apenas», sente-se, cheira-se, ouve-se, vê-se... muito mais do que «lê-se. Apenas.»

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Pedrinho

Claro que se lê. É bom que assim seja. É bom que haja mais cidadãos que pensem assim. É bom que afirmes que «aquilo que escrevo, lê-se».

E tem de se ler - porque escreves muito bem. Veja-se. «...Sobretudo nos teus lábios quando me entoas, ou nos teus dedos quando me sublinhas, tal como fazes no meu corpo, estreitando abraços, amachucando desejos».

Para um bom escritor - um bom blogue. É o caso. Por isso já te estou a seguir, por isso também estou «sastifeito» pela tua visita. Também te agradeço o cumentário (com o) que é «esmaziado». Mas que me fez bem ao ego - se é que o tenho. Tenho.

Volta quando te der na bolha, ou seja oito dias por semana. E conta aos teus capangas - para que o façam também. Porque, está claro que se lê...

Abs