06 agosto, 2009

I don’t understand you. So what’s the matter with that?



Agora amanha-te…
E eu, amanho-me, está visto.
Viro-me sozinha, e amanho-me.

O mesmo tecido verde, que conheço faz anos.
As flores na janela. O cão, de cabeça a abanar em permanência no vidro de trás do carro em cima de um “naperon”
Quando as coisas não estavam bem interiormente, fazia uma pausa e mudava de rota…três quartos para a esquerda, meia-volta.

Espreguiça-se como uma criança.
Tenta ver onde não vê, atingir o que não alcança, distinguir.
Criar espaços de lugar nenhum, de fronteiras ilimitadas onde infantiliza a vida.

-“Agora estou velha, mais velha que gasta”.
Faço então o quê?
Amanho-me é o que é.

Era muito bonita, uma princesa.
Tinha os homens todos atrás de mim.
Sim, que a minha mãe não me deixava dançar com qualquer um, nem me largava um minuto.
Agora é diferente. Nem sabem o nome e já se beijam.
Perdição é o que é.

Mas eu ainda vou ser bonita. E namoradeira.
Três passos ao lado, dois em frente, uma dança vertical, um tango aprumado,
“et voilá”…

Irei morrer.
Um dia terá de ser, tudo tem o seu tempo e o meu já lá vai, mas ainda não estou interessada.
Não marquei data, nem me preocupa tal coisa.
Tenho muito espelho para olhar, muito creme a deslizar.
Eles que se amanhem, ora.

Até lá ainda sou capaz de fazer coisas, muitas coisas.
Já cresceram os filhos. As árvores que plantei e os livros que escrevi, estão por aí.
Um dia destes faço outro…
…livro, claro.

Já não se deitam labaredas de paixão, não se tratam senhoras como garbosas flores, é tudo mais artificial. Não existem cuidados como naquele tempo. O cumprimento, a palavra dada, o gesto, o envolvimento... esta cabeça que não para.

O mesmo tecido verde, a cabeça do cão pendente.

Eu era nova e linda. Uma princesa.
Tinha laçarotes e rendas nas saias. Um espartilho que me adelgaçava a cintura.
Peito firme e boca de rubi.
E os olhares… Ai os olhares.
Agora amanhem-se….

Perdi o meu amor nas vielas de uma vida feita de equívocos.
Deitava-se dentro de mim durante tempos e o céu voava em desatino.
Contava-me histórias de longe, dos confins, onde ele andou.
E ficava horas baloiçando suavemente comigo assim.

Um dia sei que vou perder o Inverno e não ver a Primavera que se aproxima
E ele dentro de mim como borboleta num casulo…
E linda que eu era… mas ainda não é tarde, não é tarde para mim que ainda vou ser linda como uma princesa

Resta-me manter a respiração.
Que se amanhem…!

2 comentários:

Lídia Borges disse...

Sabes "ver" as pessoas e ler-lhes a alma e revolver-lhes as memórias...
Esse cãozinho a abanar a cabeça de um lado para o outro (por exemplo) era mágico para mim, prendia e encantava o meu olhar de criança.

"Já cresceram os filhos. As árvores que plantei e os livros que escrevi, estão por aí.
Um dia destes faço outro…
…livro, claro."
A nostalgia e o inconformismo de mãos dadas...Mas, por outro lado a confiança, ainda, no futuro mais mascarada do que real, mas ainda assim: Confiança.

Obrigada pelos teus textos!

Um beijo

cocas disse...

Este texto traduz a realidade de muita gente, que de uma forma ou de outra perde o comboio para o futuro.
Depois sobram as tentativas de escapar à solidão, às vezes ténues, outras completamente alucinadas...enfim, tal como dizes, lá se amanham como podem!

Beijo