09 agosto, 2009

Perfeito



Moravas no terceiro frente do prédio cinza na rua direita.
Vivias como um mito. Linda e sedutora.

Não te sabia voz nem olhar, apenas passos e vultos ocasionais.
Sabia-te dali pelo som nocturno de oboés. Sabia-te pelo doce cheiro que largavas na rua direita, prédio cinza.

Lia-te as crónicas periódicas e os postais que enviesadamente recebia. Escrevias e eu lia.
Com amor e desespero.

Falavas de beijos e abraços. Beijos dados como quem morre. Cabeça para o lado, língua de fora.
Fosse a morte assim…!

A cidade dorme e perscruto o som que invade os céus. Trovões de partida.
Ainda vivo com muita gente dentro de mim. Não são anjos nem demónios. Apenas saudades, verdades, angustias, desejos.

Dos que amei fica o amargo doce da saudade.
Inquietante.
Tempos passados, apertados por laços e verbos.

A minha concha sem portas nem janelas. Irrespirável.
Sinto-me preso por fios de aço na loucura que vivo em mim.
O amor é sequioso. O labirinto concavo, imperfeito como o teu olhar que não vejo e os passos que distingo.

Depressão outonal a minha que me impede saídas, desculpas envoltas em pequenos colapsos nervosos, perturbação emocional.
Porquê esta concha que me arrepela fígados, estômago, cérebro. Concha envolta em mim e eu nela embrulhado como no útero de mulher.
E as cartas e os postais que recebo numa encruzilhada perfeita, que sei me fazes chegar de forma transviada.

E eu, sem te ver o rosto, soube de ti, antes de ti, mesmo.
Habitas o prédio cinza na rua direita e só te conheço da janela e dos teus textos que recebo enviesados.

Creio que os sabes para mim.
As palavras constroem pontes, meia palavra escrita, um quarto de frase.
Coisas tuas. Perguntas e respostas que se colam aos olhos, aos ouvidos e na pele.
Sim. Na pele como um desejo.
No teu começo está o meu fim, mas vou-te ler até à última virgula da última frase, num último esforço de alma sem chegar ao ponto final.

Quero ainda mais.

10 comentários:

paula disse...

os seus textos lêem-se devagarinho, como quem saboreia, onde tudo é importante, as virgulas, os pontos, os vocábulos, os paragrafos, os sentimentos.
só sentindo se pode escrever assim. parabéns!

Delirius disse...

Pronto... chego aqui e fico a olhar para este espaço branco, numa luta tremenda do bem contra o mal... ou vice versa..., nem sei bem..., porque aparece sem pre outro adversário... aquele que sempre diz: shiu..., não fales, pensa apenas..., loll isto não é nada fácil!... Tou sorrindo Pedro!
... é que eu adoro esta tua maneira de dizer as coisas, és de facto fantástico!
Gosto e costumo vir aqui muitas vezes :)
Beijo.
p.s.- a canção... das que mais gosto, desde sempre, cantada por outros claro, esta versão não conhecia. Apeteceu-me levá-la comigo...:)

Lídia Borges disse...

Ui!!!
Sente-se o teu sentir como se as palavras soassem rentes ao tacto.



Um beijo

DIABINHOSFORA disse...

Pois, não sei que mais diga que já não tenha dito, nos comentários que sempre faço nos teus textos.
Acho que me fico pelo final deste texto maravilhoso..."Quero ainda mais." Eu também quero ainda mais textos teus, porque são muito intensos.

Beijos

Anónimo disse...

Textos que nos ficam na alma e na pele. Textos que nos tocam e que vivemos em cada frase. Tens um jeito para nos fazer elevar e sorrir como uma coisa boa.
PARABÉNS, pela oportunidade que nos dás de te lermos.

ACC

lagrima disse...

... não te leio..., ouço-te!...
na tua voz a doçura e a raiva!...
"...soube de ti, antes de ti..."
"...a minha concha sem portas nem janelas, irespirável..."
"...perguntas e respostas que se colam aos olhos, nos ouvidos e na pele... sim, como um desejo..."

Queremos sempre mais, não é?!

Discurso poético fabuloso!

Beijo, Pedro.

Joana Brito disse...

"Perfeito", como o texo.

Chris disse...

Uma escrita com um ritmo muito peculiar, que me agrada pela mistura de metáforas a tocar cores de diversas possibilidades.
É um prazer passar por aqui...
bj
Chris

Delirius disse...

... pois.... também quero mais!
Ler-te passou a ser viciante :))
Beijo.

iNêS SiLvA disse...

amo essa música, fui ver um concerto e adorei.