07 agosto, 2009

OUTRO TEMPO

Estou para aqui sozinho
Quatro cadeiras e uma mesa, a secretaria e o caderno, mais a água que beberico como o médico informou.
Estou e não estou que da janela vejo o mundo.

Disse-te que não.
Hoje não.
Fico por aqui mesmo.

Estou para aqui sozinho, e a minha Avó Espanhola nas fotos a preto e branco mais os primos das beiras.
Um arrepio de letras e desvario de ideias e a minha avó que ditava e nós escrevíamos.
De vez em quando uma espanholada e nós delirávamos baixinho, rindo a desconcerto.
- Achas que algum dia vou saber escrever?

O vinho jorrava nos pipos do douro vinhateiro e o pessoal descia à quinta lançando entre muros frases vesgas que o meu avô escondia de uns senhores de fato escuro.

Exilavam-se em copos de quatro dedos e cúmplices, exaltavam Reis e Príncipes fidalgos, Padres, Senhores e Povo.
Eram imperadores por instantes.

O Douro gritava, enquanto as uvas fermentavam.
- Será que um dia aprendo a escrever?

Tenho em mim o cheiro a pó das amêndoas, das nozes por descascar, dos fumeiros e o sabor dos queijos embebidos num azeite puro e ancestral.
Tenho por aí o zimbro, o mel e o azeite.

Recebi o teu postal amarelecido como o tempo que corre lento e inquieto.
A caligrafia perfeita, desenhada e esquadrada na linha direita
Deixo-a no lugar das restantes. Empoleiradas na estante entre o Fevereiro e o Abril.
- “…espero que esta te vá encontrar de perfeita saúde….”
Uma folha seca anexada à escrita. De ti para mim.

Eu tinha vivido dentro de ti, só para ti.
Sempre próximo e longe. Inquieto e permanente, um contraponto de arco-íris e aurora boreal.

Continuo aqui.
Eu, as memórias da avó, o pessoal a retomar o caminho com três bem medidos da melhor uva alguma vez pisada, o mesmo cheiro, e as tuas cartas que me atormentam, na segunda fila da estante.

- “Avó, será que um dia aprendo a escrever?”
- “Por supuesto…”

3 comentários:

Only Words disse...

E o tempo, o tempo que passa, mas que jamais apagará as memórias que ficam de tempos idos, distantes, mas tão presentes, que se sentem, que se tocam e cheiram :)

Lídia Borges disse...

...E a avó tinha razão!
Aprendeu a escrever, sim! E de que maneira!


Um beijo

Cocas disse...

Os teus textos têm o poder de nos fazer viajar no tempo e no espaço, para o passado, para o futuro e de novo para o presente...
Lindo como sempre!

Beijo