23 setembro, 2009

As vezes o Amor...!



Belas as cartas que releio na premonição do tempo.

Seladas, lacradas, fechadas.

E foi ali naquele espaço, ao alcance dos meus dedos, da minha mão.

Fugiste-me.

Ainda guardo esse cheiro no canto superior esquerdo, o lado do remetente oposto ao selo. E a fita-cola e o carimbo e 20 anos já ali ao virar da esquina.

A esquina da saudade, o tempo e o passado, a distância e a lágrima que nos corre pela cara.

De saudade, de alegria de momentos, de bocados, pedaços de nós.

Por vezes passavas e nem levantavas a cabeça e eu ali, sereno, a vaguear com o olhar na direcção da tua sombra.

Fazia monólogos ensaiados no aproximar do cumprimento, do balbuciar o teu nome, trémulo, inquieto, quase remendado a fita-cola como as tuas cartas que releio.

Adorava ser sangue e circular nas tuas veias, percorrer-te os segredos, cantos e recantos. E pousar suavemente na tua mão.

Os dedos que percorrem o papel em que ensaio escritos para ti e quase te toco.

Quase te toco.

E escrevi, não dez mas quase certo, um cento.

Escrevia e rasgava, voltava de novo e rodopiava na escrita e na lembrança.

Fazia poesia de olhares macerados, e canções de amor lançadas ao mar do cabedelo.

Era... já não lembro quem, que tocava nos discos de vinil.
Um selo, dois tostões.

E o cheiro, o teu cheiro na dobra final da carta. Selada, lacrada de ti, em pedaços de escrita, por mim.

O tempo correu voraz.

Serás agora um jardim, provavelmente já não flor, mas sim Jardim.

De mil cores e mil cheiros rasgados e abertos ao céu.

E imagino-me na dor de não me lembrar de te dizer isto…

Naquele dia, era mesmo eu.
Uma sombra colada a fita-cola com o teu cheiro em mim, e um selo de dois tostões no lado oposto ao remetente.

21 setembro, 2009

"Amiga negritude"



E chega uma altura em que passamos a ter mais uma amiga a rondar-nos a porta.
Sentada. Às vezes de pé, longe e perto, mas atenta.
Paciente.
Sabe que nos tem como certos.

Chega ao catálogo do dia e hora... escolhe... prepara as coisas ... e ...
E nós..- mas tem de ser já ? Nem um almocinho, um café, um copo ? Sente-se aqui, já agora, (nós a adiarmos a hora) e ela afoita, esperta como as raposas.

Olha de soslaio....

Passa a conviver connosco.
Nos hospitais... - Quem é aquela ali? Parece que conheço, mas não sei de onde...
Na rua, junto ao passeio, vestido comprido preto de cerimónia, sem cerimónias nenhumas. Ao nosso lado, como se fosse a nossa pele, colada a nós.
Nas filas intermináveis das repartições, passa-nos a mão-pelo-pêlo

Por vezes sentimos-lhe o cheiro, acre, pesadão, irrespirável.

E dorme connosco, como uma amante. Utiliza o nosso espelho, usa a nossa toalha, a nossa tosse, o coração, o corpo, como uma amante.
Pior que uma amante.

E no fundo sempre esteve connosco. Nas análises ao sangue, à urina, as ultrapassagens na estrada, na guerra colonial, o colesterol, a arritmia, o fígado, ao espelho - quem é aquela que está atrás de mim??
Como uma amante.

Pior que uma amante
- Veste o casaco que vamos sair. Traz trocos para o autocarro (já ninguém anda de autocarro, muito menos com uma amante).

Aconchega-nos o cachecol ao peito. As rugas que nos cobrem o rosto, os joelhos que tremem, a mão que não para, as pálpebras que não abrem, a respiração que não se ouve.

E chega a altura em que a olhamos sem ver, com olhos mortiços, sem razão e sem sentido, como uma amante.

E depois somos nós na fotografia da estante, afastada, sobre o náperon às rodinhas que a tua avó fez já lá vão 85 anos.
É de renda e valiosa, uma relíquia, como tudo o que ela fazia.
E o vazio, não da presença dela, mas do retrato, na cómoda, encostado à bíblia e ao espelho.

O corpo que se afasta e que não é de ninguém, o carro que não pega a casa que se foi e a tua Avó Esmeralda, importante como o nome, e a dentadura a boiar no copo e ele à janela com ela ao lado e o vizinho que insiste em urinar contra a serventia do lado do portão. Quase como os cães, de perna alçada, um pingo bem sacudido, como os cães.

E a corrida contra o tempo, um tempo sem corrida e sem espaço, um pingo de soro, a máquina que apita, a injecção que ela acompanha de pé.
Pé-coxinho.

A ver se vale a pena... um-dois-três, vou nascer outra vez ... começar de novo... a ver se vale a pena

E ela ri e dá-nos a mão, afastamo-nos, longe. Lá longe.

E a foto a preto e branco encostada, a televisão na novela das cinco, e a tua Avó Esmeralda sem dentadura na moldura ao lado.

Raio de sorte a minha.
Logo a tua Avó Esmeralda, importante como o nome, e o meu Benfica que perdeu com o Manchester, mais o Zé Águas e o Coluna, Bobby Charlton e uns Beatles a caminho de Liverpol.

Mas a tua Avó Esmeralda ?

18 setembro, 2009

Não ponho açucar no café...




Acabou o verão e arrasto-me fatiado pelo Outono de cor roxo desmaiado.

As nuvens desenham-me o perfil e encosto-me pela sombra como pedaços ancorados no rebordo da janela.

Faço-me ver no lado esquerdo do vidro, pelo canto do olho e inquieto-me.

Transporto no meu interior a lâmina afiada do sabre e balanço-me entre a pacatez dos dias e o aterrorizar dos sentidos.

Não gosto de me sentir assim.

A meio canto, meio soturno, pela metade de mim, trago-me em bolandas numa dança estranha.

Não, não ponho açúcar no café. Porque insistes nisso?

E a praia com o sol que me afaga. O raio de um sol que tão bem me faz.
As moças que se pavoneiam em quadris bamboleantes e o brasileiro da bola de berlim... “ Só tem sem creme...”

Gosto do silêncio. Gosto de fazer silêncio e agradeço-te por isso.
Entranho, absorvo, encho, mastigo e dilacero para depois retornar mais forte mais solto e mais capaz, penso eu… ou não.
Os meus estados de alma, mais p´ra lá do que p´ra cá.

Uma ruga no lado esquerdo mais saliente. Mas eu não tinha rugas aqui.
Não. Não ponho açúcar no café mas tenho rugas por aqui.
E a bola de Berlim sem creme numa praia bamboleante, a meio canto, bolandas numa dança estranha.

Afasta-se o sol e nuvens que me atiçam a alma deixam a memória num pranto.

Passam ciganas de olhos de mar e cabelo negro, caixinhas de madeira com medalhas e botões de punho dourado, leituras de linhas cruzadas na mão, destino fechado a sete-chaves ou um sete de copas numa “bisca lambida”.

Custa-me pensar, dói-me fazer, as consoantes saltam nas vogais e estas embrulham-se sem sentido. Estou embalsamado de tempo e parei no momento, naquele instante do café.
Não, não ponho açúcar no café e estou bem assim.

E este pedaço de idade que me chega em Dezembro, a distância que guardo do mês e da época, pelas lembranças e inquietudes.

Queria que as estações não me pesassem tanto na pele, para ser possível não estar fatiado no Outono.

Ciganas de olhos de mar numa leitura de linhas de vida e ritmos sedutores

Mas tu não pões açúcar no café.

Mas porque insistem nisto?

15 setembro, 2009




Anoiteço devagar e a tua musica feita de dó sustenido e o teu corpo que arqueia quando te toco.

A tua na minha voz e o som que exaltamos numa conjugação de dois verbos, em quase tudo ou quase nada.

O teu beijo sabor a sal que não pede perdão e o tempo que não abre nem se destapa.

Lanças-te em mim como letras num poema de “Brell”.

Vives como uma imagem, um poster, doze-por-doze, vinte-e-quatro-por-vinte-e-quatro, um relógio no pulso entediante, com cucos que te despertam para todo o lado menos para mim.

Não vives de abraços nem de beijos.
Tens um pé no estribo outro no sinal de partida.

Vives de retrato. O rímel colocado, rugas no esticar do sorriso, um olho aberto outro escondido pela franja, baton sedutor, caminhar perfeito no teu interior imperfeito pela graça dos Homens.

Olhas-me no teu caminho e não me vês.
Não é suposto veres-me. Sou apenas um traço comum, simples, abstracto, absorto em lembranças e senil como a gata que ronrona pelos três cantos e meio lá de casa.

Nada que se pareça.
Os meus saltos são terrenos e a metade do meu rosto é mesmo minha... já está paga.

Tiras monstros dos sonhos que te embalam e eu embalo-me como no verão, festas de aldeia e a minha Tia-Avó, com aforismos, silogismos e significados.
Não te encaixas nesse jeito, Carlinhos...

E eu sonho com a tua dança, a tua figura cinematográfica, num póster de vinte-e-quatro e um relógio no pulso.

Cu-cu-cu-cu, salta o cuco mais o gato e a minha Tia-Avó sem jeito nem cuidado.

Estás desarticulada em tom pastel, pés tortos e difusos e eu...

... anoiteço devagar como anoiteço todos os dias.