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A mostrar mensagens de Setembro, 2009

As vezes o Amor...!

Belas as cartas que releio na premonição do tempo.

Seladas, lacradas, fechadas.

E foi ali naquele espaço, ao alcance dos meus dedos, da minha mão.

Fugiste-me.

Ainda guardo esse cheiro no canto superior esquerdo, o lado do remetente oposto ao selo. E a fita-cola e o carimbo e 20 anos já ali ao virar da esquina.

A esquina da saudade, o tempo e o passado, a distância e a lágrima que nos corre pela cara.

De saudade, de alegria de momentos, de bocados, pedaços de nós.

Por vezes passavas e nem levantavas a cabeça e eu ali, sereno, a vaguear com o olhar na direcção da tua sombra.

Fazia monólogos ensaiados no aproximar do cumprimento, do balbuciar o teu nome, trémulo, inquieto, quase remendado a fita-cola como as tuas cartas que releio.

Adorava ser sangue e circular nas tuas veias, percorrer-te os segredos, cantos e recantos. E pousar suavemente na tua mão.

Os dedos que percorrem o papel em que ensaio escritos para ti e quase te toco.

Quase te toco.

E escrevi, não dez mas quase certo, …

"Amiga negritude"

E chega uma altura em que passamos a ter mais uma amiga a rondar-nos a porta.
Sentada. Às vezes de pé, longe e perto, mas atenta.
Paciente.
Sabe que nos tem como certos.

Chega ao catálogo do dia e hora... escolhe... prepara as coisas ... e ...
E nós..- mas tem de ser já ? Nem um almocinho, um café, um copo ? Sente-se aqui, já agora, (nós a adiarmos a hora) e ela afoita, esperta como as raposas.

Olha de soslaio....

Passa a conviver connosco.
Nos hospitais... - Quem é aquela ali? Parece que conheço, mas não sei de onde...
Na rua, junto ao passeio, vestido comprido preto de cerimónia, sem cerimónias nenhumas. Ao nosso lado, como se fosse a nossa pele, colada a nós.
Nas filas intermináveis das repartições, passa-nos a mão-pelo-pêlo

Por vezes sentimos-lhe o cheiro, acre, pesadão, irrespirável.

E dorme connosco, como uma amante. Utiliza o nosso espelho, usa a nossa toalha, a nossa tosse, o coração, o corpo, como uma amante.
Pior que uma amante.

E no fundo sempre esteve connosco. Nas…

Não ponho açucar no café...

Acabou o verão e arrasto-me fatiado pelo Outono de cor roxo desmaiado.

As nuvens desenham-me o perfil e encosto-me pela sombra como pedaços ancorados no rebordo da janela.

Faço-me ver no lado esquerdo do vidro, pelo canto do olho e inquieto-me.

Transporto no meu interior a lâmina afiada do sabre e balanço-me entre a pacatez dos dias e o aterrorizar dos sentidos.

Não gosto de me sentir assim.

A meio canto, meio soturno, pela metade de mim, trago-me em bolandas numa dança estranha.

Não, não ponho açúcar no café. Porque insistes nisso?

E a praia com o sol que me afaga. O raio de um sol que tão bem me faz.
As moças que se pavoneiam em quadris bamboleantes e o brasileiro da bola de berlim... “ Só tem sem creme...”

Gosto do silêncio. Gosto de fazer silêncio e agradeço-te por isso.
Entranho, absorvo, encho, mastigo e dilacero para depois retornar mais forte mais solto e mais capaz, penso eu… ou não.
Os meus estados de alma, mais p´ra lá do que p´ra cá.

Uma ruga no lado esquerdo mais salie…
Anoiteço devagar e a tua musica feita de dó sustenido e o teu corpo que arqueia quando te toco.

A tua na minha voz e o som que exaltamos numa conjugação de dois verbos, em quase tudo ou quase nada.

O teu beijo sabor a sal que não pede perdão e o tempo que não abre nem se destapa.

Lanças-te em mim como letras num poema de “Brell”.

Vives como uma imagem, um poster, doze-por-doze, vinte-e-quatro-por-vinte-e-quatro, um relógio no pulso entediante, com cucos que te despertam para todo o lado menos para mim.

Não vives de abraços nem de beijos.
Tens um pé no estribo outro no sinal de partida.

Vives de retrato. O rímel colocado, rugas no esticar do sorriso, um olho aberto outro escondido pela franja, baton sedutor, caminhar perfeito no teu interior imperfeito pela graça dos Homens.

Olhas-me no teu caminho e não me vês.
Não é suposto veres-me. Sou apenas um traço comum, simples, abstracto, absorto em lembranças e senil como a gata que ronrona pelos três cantos e meio lá de casa.

Nada que…