15 setembro, 2009




Anoiteço devagar e a tua musica feita de dó sustenido e o teu corpo que arqueia quando te toco.

A tua na minha voz e o som que exaltamos numa conjugação de dois verbos, em quase tudo ou quase nada.

O teu beijo sabor a sal que não pede perdão e o tempo que não abre nem se destapa.

Lanças-te em mim como letras num poema de “Brell”.

Vives como uma imagem, um poster, doze-por-doze, vinte-e-quatro-por-vinte-e-quatro, um relógio no pulso entediante, com cucos que te despertam para todo o lado menos para mim.

Não vives de abraços nem de beijos.
Tens um pé no estribo outro no sinal de partida.

Vives de retrato. O rímel colocado, rugas no esticar do sorriso, um olho aberto outro escondido pela franja, baton sedutor, caminhar perfeito no teu interior imperfeito pela graça dos Homens.

Olhas-me no teu caminho e não me vês.
Não é suposto veres-me. Sou apenas um traço comum, simples, abstracto, absorto em lembranças e senil como a gata que ronrona pelos três cantos e meio lá de casa.

Nada que se pareça.
Os meus saltos são terrenos e a metade do meu rosto é mesmo minha... já está paga.

Tiras monstros dos sonhos que te embalam e eu embalo-me como no verão, festas de aldeia e a minha Tia-Avó, com aforismos, silogismos e significados.
Não te encaixas nesse jeito, Carlinhos...

E eu sonho com a tua dança, a tua figura cinematográfica, num póster de vinte-e-quatro e um relógio no pulso.

Cu-cu-cu-cu, salta o cuco mais o gato e a minha Tia-Avó sem jeito nem cuidado.

Estás desarticulada em tom pastel, pés tortos e difusos e eu...

... anoiteço devagar como anoiteço todos os dias.

2 comentários:

lagrima disse...

Missiva dura Pedro(?!), será que é justa?!

Beijo.

JS disse...

Belissimo.