As vezes o Amor...!



Belas as cartas que releio na premonição do tempo.

Seladas, lacradas, fechadas.

E foi ali naquele espaço, ao alcance dos meus dedos, da minha mão.

Fugiste-me.

Ainda guardo esse cheiro no canto superior esquerdo, o lado do remetente oposto ao selo. E a fita-cola e o carimbo e 20 anos já ali ao virar da esquina.

A esquina da saudade, o tempo e o passado, a distância e a lágrima que nos corre pela cara.

De saudade, de alegria de momentos, de bocados, pedaços de nós.

Por vezes passavas e nem levantavas a cabeça e eu ali, sereno, a vaguear com o olhar na direcção da tua sombra.

Fazia monólogos ensaiados no aproximar do cumprimento, do balbuciar o teu nome, trémulo, inquieto, quase remendado a fita-cola como as tuas cartas que releio.

Adorava ser sangue e circular nas tuas veias, percorrer-te os segredos, cantos e recantos. E pousar suavemente na tua mão.

Os dedos que percorrem o papel em que ensaio escritos para ti e quase te toco.

Quase te toco.

E escrevi, não dez mas quase certo, um cento.

Escrevia e rasgava, voltava de novo e rodopiava na escrita e na lembrança.

Fazia poesia de olhares macerados, e canções de amor lançadas ao mar do cabedelo.

Era... já não lembro quem, que tocava nos discos de vinil.
Um selo, dois tostões.

E o cheiro, o teu cheiro na dobra final da carta. Selada, lacrada de ti, em pedaços de escrita, por mim.

O tempo correu voraz.

Serás agora um jardim, provavelmente já não flor, mas sim Jardim.

De mil cores e mil cheiros rasgados e abertos ao céu.

E imagino-me na dor de não me lembrar de te dizer isto…

Naquele dia, era mesmo eu.
Uma sombra colada a fita-cola com o teu cheiro em mim, e um selo de dois tostões no lado oposto ao remetente.

Comentários

Lídia Borges disse…
"Escrevia e rasgava, voltava de novo e rodopiava na escrita e na lembrança.
Fazia poesia de olhares macerados, e canções de amor lançadas ao mar do cabedelo."

Viajei no tempo...

Obrigada!
Delirius disse…
... na ressaca da raiva..., uma doce carta tão cheia de amor. E a melancolia da saudade!...

"Às vezes o amor", lindissima canção, lindissimo poema.

Adorei este post tão cheio de ternura.

Beijo.
paula disse…
E o carimbo dos correios com o mês em numeração romana que te escancara nos olhos que já passaram mais de vinte anos, e a memória que te atraiçoa e confunde as imagens que tentas descobrir no teu passado, e no espelho as marcas inequívocas e cruéis do teu corpo que te confirmam que realmente passou tempo demais. O cheiro, Pedro, é a mofo, de guardadas e a música de há mais de vinte anos…
As histórias repetem-se.
Pedro Viegas disse…
Obg amigas.
Obg Paula, esta musica arrepiou-me... já la vai tanto tempo... dos meus bailes de garagem, do vinil e dos amigos que perdi, dos que conquistei. Tanto tempo. O meu Porto... as festas do S. João. O Alexandre Herculano.. Que saudades.
Revi em espaços toda essa época. Bastou fechar os olhos.
...meu Deus como estou... gasto.

JP
paula disse…
é Pedro, o Porto, os bailes de garagem, as festa do colégio Alemão, o S.João...
não estás gasto - viveste, tens para viver. Isso tem que ser bom.
Anónimo disse…
"Adorava ser sangue e circular nas tuas veias, percorrer-te os segredos, cantos e recantos. E pousar suavemente na tua mão."

Tão bonito...texto e música.
Beijo
DIABINHOSFORA disse…
Uma vez li à minha filha um livro lindo que falava de um ratinho (Frederico) o qual vivia numa comunidade de ratinhos. Todos trabalhavam na recolha de alimentos para o Inverno menos ele...ele memorizava cores e raios de sol para lhes recordar a luz na escuridão! Era um artista este ratinho, que sabia viver na escuridão com alegria e esperança.
Tal como ele, devemos sempre saber recordar as coisas boas e belas que já vivemos, pois servem-nos de alimento no presente e no futuro.

Beijo
Marina-Emer disse…
En este texto tienes unos versos preciosos que yo en tu lengua leo correcta-mente.
un abrazo
Marina
Only Words disse…
É do passado que se fazem as memórias! Hoje recordamos-las com saudade, mas há que saber guardar esse tempo ido, para dar lugar a novos tempos ;)
Chris disse…
Cartas seladas, guardadas na premonição do tempo - impressionante o teu texto poético, onde palavras rodopiam numa dança passada, mas sempre presente.
Um abraço
Chris
JS disse…
agora só me dá vontade de te mandar músicas e músicas para que escrevas sobre elas...

Lindo.

Um abraço*
Chá das Cinco disse…
Saudade...
Muito bem colocada por você neste post.
Um abraço
Gemária Sampaio

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