21 setembro, 2009

"Amiga negritude"



E chega uma altura em que passamos a ter mais uma amiga a rondar-nos a porta.
Sentada. Às vezes de pé, longe e perto, mas atenta.
Paciente.
Sabe que nos tem como certos.

Chega ao catálogo do dia e hora... escolhe... prepara as coisas ... e ...
E nós..- mas tem de ser já ? Nem um almocinho, um café, um copo ? Sente-se aqui, já agora, (nós a adiarmos a hora) e ela afoita, esperta como as raposas.

Olha de soslaio....

Passa a conviver connosco.
Nos hospitais... - Quem é aquela ali? Parece que conheço, mas não sei de onde...
Na rua, junto ao passeio, vestido comprido preto de cerimónia, sem cerimónias nenhumas. Ao nosso lado, como se fosse a nossa pele, colada a nós.
Nas filas intermináveis das repartições, passa-nos a mão-pelo-pêlo

Por vezes sentimos-lhe o cheiro, acre, pesadão, irrespirável.

E dorme connosco, como uma amante. Utiliza o nosso espelho, usa a nossa toalha, a nossa tosse, o coração, o corpo, como uma amante.
Pior que uma amante.

E no fundo sempre esteve connosco. Nas análises ao sangue, à urina, as ultrapassagens na estrada, na guerra colonial, o colesterol, a arritmia, o fígado, ao espelho - quem é aquela que está atrás de mim??
Como uma amante.

Pior que uma amante
- Veste o casaco que vamos sair. Traz trocos para o autocarro (já ninguém anda de autocarro, muito menos com uma amante).

Aconchega-nos o cachecol ao peito. As rugas que nos cobrem o rosto, os joelhos que tremem, a mão que não para, as pálpebras que não abrem, a respiração que não se ouve.

E chega a altura em que a olhamos sem ver, com olhos mortiços, sem razão e sem sentido, como uma amante.

E depois somos nós na fotografia da estante, afastada, sobre o náperon às rodinhas que a tua avó fez já lá vão 85 anos.
É de renda e valiosa, uma relíquia, como tudo o que ela fazia.
E o vazio, não da presença dela, mas do retrato, na cómoda, encostado à bíblia e ao espelho.

O corpo que se afasta e que não é de ninguém, o carro que não pega a casa que se foi e a tua Avó Esmeralda, importante como o nome, e a dentadura a boiar no copo e ele à janela com ela ao lado e o vizinho que insiste em urinar contra a serventia do lado do portão. Quase como os cães, de perna alçada, um pingo bem sacudido, como os cães.

E a corrida contra o tempo, um tempo sem corrida e sem espaço, um pingo de soro, a máquina que apita, a injecção que ela acompanha de pé.
Pé-coxinho.

A ver se vale a pena... um-dois-três, vou nascer outra vez ... começar de novo... a ver se vale a pena

E ela ri e dá-nos a mão, afastamo-nos, longe. Lá longe.

E a foto a preto e branco encostada, a televisão na novela das cinco, e a tua Avó Esmeralda sem dentadura na moldura ao lado.

Raio de sorte a minha.
Logo a tua Avó Esmeralda, importante como o nome, e o meu Benfica que perdeu com o Manchester, mais o Zé Águas e o Coluna, Bobby Charlton e uns Beatles a caminho de Liverpol.

Mas a tua Avó Esmeralda ?

5 comentários:

Delirius disse...

Fantástico retrato, adorei!
Parabéns.

Lídia Borges disse...

Detesto essa presença.
Há tempos dizia-a acampada no meu jardim, mas penso que foi embora... ou talvez não!
Certamente, fui eu que deixei de a ver, de lhe dar atenção...

O teu texto é intenso, duro... Uma "overdose" de realismo!

Anónimo disse...

Começo a dar as primeiras passadas neste blogue, simplesmente inebriante!

Margarida

PKB disse...

1.2.3 vou nascer outra vez...

paula disse...

e a respiração fica sempre suspensa do principio ao fim dos teus textos