18 setembro, 2009

Não ponho açucar no café...




Acabou o verão e arrasto-me fatiado pelo Outono de cor roxo desmaiado.

As nuvens desenham-me o perfil e encosto-me pela sombra como pedaços ancorados no rebordo da janela.

Faço-me ver no lado esquerdo do vidro, pelo canto do olho e inquieto-me.

Transporto no meu interior a lâmina afiada do sabre e balanço-me entre a pacatez dos dias e o aterrorizar dos sentidos.

Não gosto de me sentir assim.

A meio canto, meio soturno, pela metade de mim, trago-me em bolandas numa dança estranha.

Não, não ponho açúcar no café. Porque insistes nisso?

E a praia com o sol que me afaga. O raio de um sol que tão bem me faz.
As moças que se pavoneiam em quadris bamboleantes e o brasileiro da bola de berlim... “ Só tem sem creme...”

Gosto do silêncio. Gosto de fazer silêncio e agradeço-te por isso.
Entranho, absorvo, encho, mastigo e dilacero para depois retornar mais forte mais solto e mais capaz, penso eu… ou não.
Os meus estados de alma, mais p´ra lá do que p´ra cá.

Uma ruga no lado esquerdo mais saliente. Mas eu não tinha rugas aqui.
Não. Não ponho açúcar no café mas tenho rugas por aqui.
E a bola de Berlim sem creme numa praia bamboleante, a meio canto, bolandas numa dança estranha.

Afasta-se o sol e nuvens que me atiçam a alma deixam a memória num pranto.

Passam ciganas de olhos de mar e cabelo negro, caixinhas de madeira com medalhas e botões de punho dourado, leituras de linhas cruzadas na mão, destino fechado a sete-chaves ou um sete de copas numa “bisca lambida”.

Custa-me pensar, dói-me fazer, as consoantes saltam nas vogais e estas embrulham-se sem sentido. Estou embalsamado de tempo e parei no momento, naquele instante do café.
Não, não ponho açúcar no café e estou bem assim.

E este pedaço de idade que me chega em Dezembro, a distância que guardo do mês e da época, pelas lembranças e inquietudes.

Queria que as estações não me pesassem tanto na pele, para ser possível não estar fatiado no Outono.

Ciganas de olhos de mar numa leitura de linhas de vida e ritmos sedutores

Mas tu não pões açúcar no café.

Mas porque insistem nisto?

5 comentários:

paula disse...

somos tantos os que estamos fatiados no outono, nos outonos.
mas eu deito açucar no café. não gosto de café mas o corpo pede-o, com açucar :))

para escreveres tão bem, só te pode sair de dentro, do fundo de ti.
só pode

Paula disse...

Também há momentos em que o silêncio me dá uma energia aconchegante...
Também não ponho açúcar no café...
E por incrível que pareça também tenho uma ruga de expressão mais saliente do lado esquerdo...costumo pensar que as marcas do tempo,dos sorrisos e da dores imprimem-se mais rápido do lado do coração...

Continuo simplesmente apaixonada pela tua escrita.

Abraço

Lídia Borges disse...

Se eu tivesse uma fórmula mágica para fazer com que as estações não pesassem tanto na pele, poderia revelar-ta, mas não tenho e assim fico "fatiada" no Outono, presa numa janela aberta sobre o nada.

Um beijo

Only Words disse...

É assim, quando estamos mais "Outonias" teimam em romper a nossa mutação com perguntas descabidas! Eu coloco açucar, mas muito pouco, porque gosto do sabor do café! ;)

DIABINHOSFORA disse...

Com açúcar, ou sem açúcar, o texto é lindo e...qualquer dia estamos na Primavera :)

Beijo