16 outubro, 2009

Ser Gato




Quero viver contigo e em ti
Enrolar-me num lençol de cetim
E de quatro fazer dois.

Quero ronronar por ti, afagar-me em ti e arranhar-te naquele momento próprio do desejo.

Quero subir aos sofás, rasgar cortinados e enrolar-me nas tuas pernas largando pêlo no teu regaço.

Quero ser gato em ti
Gosto quando me sorves em parágrafos, quando me lês de uma vez e ficas sedenta de mais das minhas historias das minhas palavras e dos meus silêncios

Entre um afago e o aconchego, um ronronar e pêlo eriçado, as tuas bradicardias que me pedem café.

Quero ser gato em ti.
De manhã enquanto acordas e me passeio pelo teu corpo num despertar siamês e todo o tempo em que espreguiças os teus braços e te mordo os dedos e pulsos, sentindo o sangue quente que te envolve.

Os meus olhos faiscantes nos teus de princesa, o meu bigode de gato das botas, as orelhas pontiagudas, e as unhas penetrantes, enquanto franqueias espaços de guerra para um encontro de paz.

Quero viver num lençol de cetim, com coleira anti-pulga, entre as dez e as onze, num quarto arejado a escorregar de loucura, entre corridas atrás do novelo, até que me faças parar.

E subas paredes comigo
Para seres
gata em mim.

15 outubro, 2009

Às vezes um Anjo



Às vezes um Anjo
E eu a trocar-me todo entre o Senhor de olhar distante, circunspecto, ao miúdo que saltita entre espaços no jogo da macaca, que chuta a bola e que salta a corda.

Às vezes não oiço
Tolhe-me o pensamento e a surdez que me obriga a esforço de entendimento.
- O quê? Sim?

E o lado esquerdo mais enquadrado inclinando-se para a voz que me fala.
(Porquê o lado esquerdo se oiço mal dos dois?)

Às vezes um anjo
E eu por aí.
Não perdido, mas fora de mim. Fora de tudo, noutra dimensão.
O meu corpo aqui. O sorriso ali, e eu fora.

Longe, muito longe, tão longe que nem eu sei.
Vagueio por aí em sombras, minhas e dos outros, mas apenas sombras.
Estou por lá um tempo.

Daqui por umas horas, muitos anos depois, sou eu a olhar para ela.
Apenas os dois no café. Um sorriso tímido.
Bigode fininho, bem aconchegado ao lábio, risca ao meio, fatiota aprumada e uma xícara de chá.
Ela, boca de chocolate, cabelo elevado e sentimentos em pratas de bombons a saírem-lhe dos olhos.
Mindinho esticado a baloiçar o chá na porcelana francesa, um biquinho, um beicinho, e o fumegar da planta na água quente.

Vai nos oitenta e nem uma ruga, nem expressão fora do lugar
Eu, ritmado pelo seu dizer, saliento espaço para levantar o sobrolho e apreciá-la avidamente como se a visse ontem pela primeira vez.
Estou recheado de vincos, como uma camisa mal passada, enrugada.
Mas prefiro assim, vê-la assim.

E tenho a imagem ali, a cabeça aqui e o sorriso corpo fora.
Retrocedo então, pequenos passos e regresso a mim.

Às vezes um Anjo.

Por vezes receio.
O dedo indicador na sala de espera do consultório dos aflitos.
O dedo na minha direcção e o embate.
- Você! Os seus exames chegaram…. Lamento.

Assim. Só assim. Simples, curto, conciso e um segundo.
Um mísero segundo e tudo muda. Entre o tempo antes e o tempo depois do segundo, tudo muda.
O dedo indicador, o desígnio, o destino.

Às vezes um Anjo

Que me traz estes pensamentos e lembra a finitude.
E a infância em desenhos, uma corrida na adolescência e a finitude.
Este Anjo que me rodeia e que sinto quando bate as asas. O pó mágico que delas cai.

O meu vizinho, muito velho, a mulher muito doente, e muito tempo a visionar a rua, do peitoral da casa.

Prometi escrever-te, mas não podia ser inverno. Nem podia ter secado.
As mãos não mexem, os dedos não agitam, a alma vai congelando e o cérebro num espera-desespera.
Como um monstro cinzento feito nuvem que me engole e de cujas entranhas retiro sombras para chegar a ti.

Olho para trás e parece que toda a vida foi um sonho, perfeito ou imperfeito, mas um sonho. Um sonho de sentimentos e emoções escavadas.

E eu a trocar-me todo entre o Homem e o miúdo, o dedo indicador esticado, o destino, memórias e o Anjo com asas.

Às vezes, mesmo assim

Um Anjo

11 outubro, 2009




Gosto de rir
Sempre gostei de rir, de pregar partidas, de jogar com as palavras.

Detesto cinzentismos. Já me chega a vida e o inverno com os seus ares de trovoada e diabinhos à solta pontapeando a nossa existência.
Veio-me à memória o “homem das castanhas”, um saco de serapilheira.

Elas todas juntas, ainda quentes, ele, mãos grandes, enegrecidas.
Faz um cone com jornal e vende uma-dúzia-cinco-tostões.
Está cara a vida… uma-dúzia-cinco-tostões.

Há coisas que se pegam a nós, não nos largam.
A Ribeira num crepúsculo, o Inverno em Trás-os-Montes, o verde do Minho, as ondas desérticas da areia do Sahara, e a figura “Maria das gravatas” que corria Porto fora, desatinando tudo o que era gente.

Por vezes também me apetece fazer isso, desatinar toda a gente.
E no entanto gosto de rir.

Ainda tenho um “gato de botas” um “zorro invencível”, um “Homem aranha” avassalador, um pássaro que fala comigo, uma galinha que me pisca o olho e quatro namoradas na escola, e no entanto uma-dúzia-cinco-tostões.
Está cara a vida.

Já despachei racionalmente o “Gato” mais o “Zorro” e o “Homem-Aranha”. O “Velho-das-barbas” vai depois, com o Homem das castanhas e o saco de serapilheira mais as quatro namoradas da escola.

Ainda gosto de rir, mas uma-dúzia-cinco-tostões ??
Está cara a vida.

05 outubro, 2009

Cinco de Outubro na memória...




Num Cinco de Outubro, saltamos portões, agitamos a quinta, trepamos arvores, devoramos fruta, corremos como lebres e refastelamo-nos à porta do Ricky, ensopados em suor com Bolas de Berlim do "Cunha".

Um dia, mais tarde, abandonei a infância, a adolescência ficou amarrada a projectos desportivos.
De repente, vejo-me longe das conversas dos amigos, das brincadeiras vividas, dos risos e choros, das desordens ordenadas, de partilhas, de namoros, de jogos, de festas, dos bailaricos com Pink Floyd e o “Dark Side of the Moon” que abrasava o gira discos do Barbosa.

O Veloso e o “Chico Fininho” saíam à rua com a “Rapariguinha do Shopping” e o Augusto aparecia de MGB descapotável, lançando inveja nas garotas da avenida.
E eramos nós, a malta, da “Ribeira até à Foz”, com os "Já fumega" e os "Minipop"...
E durante anos, fui desatando os nós.

Pensava ser amanhã o reencontro, ser outro dia o abraço, ser novamente ontem, para nos rirmos e brincarmos como sempre.
Mas, o destino trocou-nos os caminhos da vida.

O telefone já não toca como tocava. Os reencontros vão-se tornando raros.

O Figui advoga com o tempo contado. O Ricky, anda a saltar do Porto para Esmoriz, o João controla as corridas dos seus atletas e os cabelos brancos surgem em catadupa.
O Amado desapareceu, dele nem rasto.
O Pedro, Paulo, Costa, Leonor, Paula, Fátima, Laura, Beta, Sérgio, Zé, Carlos, Nanda, tantos, tantos que eramos. Um grupo excelente.

Enchiamos o comboio para Esmoriz de alegria vivida. Cerveja com groselha em pequenos almoços mirabolantes com rabanadas de molho divinal.

Francesinhas da Tí Alice, regadas com o verde do Monteiro, que dizia sempre: - “este é dos bons, já cá canta...”.

A Tia do Amado, suspirava pelas noticias que lhe levávamos, com ele a conta gotas espreitando da esquina em frente.
O "S. João" com filas de 60, numerados em saltos de fogueira, as corridas pela Boavista e o dormir na praia da Foz.
Dizíamos: - “Três dias e três noites sem ir à cama, seus morcões”.
O jogo do "pilha" e a “sameirinha”, a “patela” e os jogos de bola no Velasquez.
Chumbadas nas calças de ganga, de “assaltos” à fruta na Quinta do Monte Aventino,...

Quando nos encontramos, tudo parece ontem.
Saltamos e brincamos e falamos tanto e tanto em tão pouco tempo, que sofregamente, enchemos Santa Catarina.
No retorno a casa, fazemos promessas de encontros frequentes... e o telefone.. e o E.mail...

... e a vida volta, e o tempo alonga a distância, e o Inverno passa, o Verão volta, e amanhece de novo.
E mais cabelos brancos e rugas espantadas em espelhos de jovem.
E contamos aos filhos como era bom, como nos divertíamos, o que era a “verdadeira amizade”, as partilhas, o jogo da “casquinha”, o “porta a porta”, a “esmolinha p´ro St. António e "P´ro S. João”, e a sopa de couve na casa da Avó.

E virámos o 25 de 74, de mochila às costas na Praça D. João I, a ver chaimites e “magalas” de sorriso largo olhando as moças que passam.
... E como hoje é diferente.
Como a “Playstation” e a “Net” e o “Pokemon” e a TV Fox, subtrai a amizade a potências de solidão.

Vá lá pessoal, só mais um copo.

Não, o último não.
Passaremos pelo Oliveira Martins ou o Alexandre Herculano e esperamos as miúdas às cinco da tarde no Rainha Santa.

Depois embarcamos na paz do tempo e algum tempo depois encontramo-nos a caminho...
de novo... até um dia, quem sabe ... ?

Não sem antes secar esta que aqui enrola e espreita num canto do olho na vã esperança de vos ter de novo, todos juntos, como ontem.