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A mostrar mensagens de Outubro, 2009

Ser Gato

Quero viver contigo e em ti
Enrolar-me num lençol de cetim
E de quatro fazer dois.

Quero ronronar por ti, afagar-me em ti e arranhar-te naquele momento próprio do desejo.

Quero subir aos sofás, rasgar cortinados e enrolar-me nas tuas pernas largando pêlo no teu regaço.

Quero ser gato em ti
Gosto quando me sorves em parágrafos, quando me lês de uma vez e ficas sedenta de mais das minhas historias das minhas palavras e dos meus silêncios

Entre um afago e o aconchego, um ronronar e pêlo eriçado, as tuas bradicardias que me pedem café.

Quero ser gato em ti.
De manhã enquanto acordas e me passeio pelo teu corpo num despertar siamês e todo o tempo em que espreguiças os teus braços e te mordo os dedos e pulsos, sentindo o sangue quente que te envolve.

Os meus olhos faiscantes nos teus de princesa, o meu bigode de gato das botas, as orelhas pontiagudas, e as unhas penetrantes, enquanto franqueias espaços de guerra para um encontro de paz.

Quero viver num lençol de cetim, com coleira anti-pu…

Às vezes um Anjo

Às vezes um Anjo
E eu a trocar-me todo entre o Senhor de olhar distante, circunspecto, ao miúdo que saltita entre espaços no jogo da macaca, que chuta a bola e que salta a corda.

Às vezes não oiço
Tolhe-me o pensamento e a surdez que me obriga a esforço de entendimento.
- O quê? Sim?

E o lado esquerdo mais enquadrado inclinando-se para a voz que me fala.
(Porquê o lado esquerdo se oiço mal dos dois?)

Às vezes um anjo
E eu por aí.
Não perdido, mas fora de mim. Fora de tudo, noutra dimensão.
O meu corpo aqui. O sorriso ali, e eu fora.

Longe, muito longe, tão longe que nem eu sei.
Vagueio por aí em sombras, minhas e dos outros, mas apenas sombras.
Estou por lá um tempo.

Daqui por umas horas, muitos anos depois, sou eu a olhar para ela.
Apenas os dois no café. Um sorriso tímido.
Bigode fininho, bem aconchegado ao lábio, risca ao meio, fatiota aprumada e uma xícara de chá.
Ela, boca de chocolate, cabelo elevado e sentimentos em pratas de bombons a saírem-lhe dos olhos.
Mindinho esticado a…
Gosto de rir
Sempre gostei de rir, de pregar partidas, de jogar com as palavras.

Detesto cinzentismos. Já me chega a vida e o inverno com os seus ares de trovoada e diabinhos à solta pontapeando a nossa existência.
Veio-me à memória o “homem das castanhas”, um saco de serapilheira.

Elas todas juntas, ainda quentes, ele, mãos grandes, enegrecidas.
Faz um cone com jornal e vende uma-dúzia-cinco-tostões.
Está cara a vida… uma-dúzia-cinco-tostões.

Há coisas que se pegam a nós, não nos largam.
A Ribeira num crepúsculo, o Inverno em Trás-os-Montes, o verde do Minho, as ondas desérticas da areia do Sahara, e a figura “Maria das gravatas” que corria Porto fora, desatinando tudo o que era gente.

Por vezes também me apetece fazer isso, desatinar toda a gente.
E no entanto gosto de rir.

Ainda tenho um “gato de botas” um “zorro invencível”, um “Homem aranha” avassalador, um pássaro que fala comigo, uma galinha que me pisca o olho e quatro namoradas na escola, e no entanto uma-dúzia-cinco-tost…

Cinco de Outubro na memória...

Num Cinco de Outubro, saltamos portões, agitamos a quinta, trepamos arvores, devoramos fruta, corremos como lebres e refastelamo-nos à porta do Ricky, ensopados em suor com Bolas de Berlim do "Cunha".

Um dia, mais tarde, abandonei a infância, a adolescência ficou amarrada a projectos desportivos.
De repente, vejo-me longe das conversas dos amigos, das brincadeiras vividas, dos risos e choros, das desordens ordenadas, de partilhas, de namoros, de jogos, de festas, dos bailaricos com Pink Floyd e o “Dark Side of the Moon” que abrasava o gira discos do Barbosa.

O Veloso e o “Chico Fininho” saíam à rua com a “Rapariguinha do Shopping” e o Augusto aparecia de MGB descapotável, lançando inveja nas garotas da avenida.
E eramos nós, a malta, da “Ribeira até à Foz”, com os "Já fumega" e os "Minipop"...
E durante anos, fui desatando os nós.

Pensava ser amanhã o reencontro, ser outro dia o abraço, ser novamente ontem, para nos rirmos e brincarmos como sempre.
Mas, …