15 outubro, 2009

Às vezes um Anjo



Às vezes um Anjo
E eu a trocar-me todo entre o Senhor de olhar distante, circunspecto, ao miúdo que saltita entre espaços no jogo da macaca, que chuta a bola e que salta a corda.

Às vezes não oiço
Tolhe-me o pensamento e a surdez que me obriga a esforço de entendimento.
- O quê? Sim?

E o lado esquerdo mais enquadrado inclinando-se para a voz que me fala.
(Porquê o lado esquerdo se oiço mal dos dois?)

Às vezes um anjo
E eu por aí.
Não perdido, mas fora de mim. Fora de tudo, noutra dimensão.
O meu corpo aqui. O sorriso ali, e eu fora.

Longe, muito longe, tão longe que nem eu sei.
Vagueio por aí em sombras, minhas e dos outros, mas apenas sombras.
Estou por lá um tempo.

Daqui por umas horas, muitos anos depois, sou eu a olhar para ela.
Apenas os dois no café. Um sorriso tímido.
Bigode fininho, bem aconchegado ao lábio, risca ao meio, fatiota aprumada e uma xícara de chá.
Ela, boca de chocolate, cabelo elevado e sentimentos em pratas de bombons a saírem-lhe dos olhos.
Mindinho esticado a baloiçar o chá na porcelana francesa, um biquinho, um beicinho, e o fumegar da planta na água quente.

Vai nos oitenta e nem uma ruga, nem expressão fora do lugar
Eu, ritmado pelo seu dizer, saliento espaço para levantar o sobrolho e apreciá-la avidamente como se a visse ontem pela primeira vez.
Estou recheado de vincos, como uma camisa mal passada, enrugada.
Mas prefiro assim, vê-la assim.

E tenho a imagem ali, a cabeça aqui e o sorriso corpo fora.
Retrocedo então, pequenos passos e regresso a mim.

Às vezes um Anjo.

Por vezes receio.
O dedo indicador na sala de espera do consultório dos aflitos.
O dedo na minha direcção e o embate.
- Você! Os seus exames chegaram…. Lamento.

Assim. Só assim. Simples, curto, conciso e um segundo.
Um mísero segundo e tudo muda. Entre o tempo antes e o tempo depois do segundo, tudo muda.
O dedo indicador, o desígnio, o destino.

Às vezes um Anjo

Que me traz estes pensamentos e lembra a finitude.
E a infância em desenhos, uma corrida na adolescência e a finitude.
Este Anjo que me rodeia e que sinto quando bate as asas. O pó mágico que delas cai.

O meu vizinho, muito velho, a mulher muito doente, e muito tempo a visionar a rua, do peitoral da casa.

Prometi escrever-te, mas não podia ser inverno. Nem podia ter secado.
As mãos não mexem, os dedos não agitam, a alma vai congelando e o cérebro num espera-desespera.
Como um monstro cinzento feito nuvem que me engole e de cujas entranhas retiro sombras para chegar a ti.

Olho para trás e parece que toda a vida foi um sonho, perfeito ou imperfeito, mas um sonho. Um sonho de sentimentos e emoções escavadas.

E eu a trocar-me todo entre o Homem e o miúdo, o dedo indicador esticado, o destino, memórias e o Anjo com asas.

Às vezes, mesmo assim

Um Anjo

3 comentários:

JS disse...

Eu adoro esta musica.

Sintonia perfeita entre o som e as palavras.

Bravo.

tcl disse...

não conhecia esta versão de Beatriz, que gira... Conhecia a de Milton e a de Ana Carolina, muito bonitas também, aliás eta música é um espanto, sempre

Only Words disse...

O passado, sempre o passado e as recordações que nos aguçam a subtileza nas palavras :)