05 outubro, 2009

Cinco de Outubro na memória...




Num Cinco de Outubro, saltamos portões, agitamos a quinta, trepamos arvores, devoramos fruta, corremos como lebres e refastelamo-nos à porta do Ricky, ensopados em suor com Bolas de Berlim do "Cunha".

Um dia, mais tarde, abandonei a infância, a adolescência ficou amarrada a projectos desportivos.
De repente, vejo-me longe das conversas dos amigos, das brincadeiras vividas, dos risos e choros, das desordens ordenadas, de partilhas, de namoros, de jogos, de festas, dos bailaricos com Pink Floyd e o “Dark Side of the Moon” que abrasava o gira discos do Barbosa.

O Veloso e o “Chico Fininho” saíam à rua com a “Rapariguinha do Shopping” e o Augusto aparecia de MGB descapotável, lançando inveja nas garotas da avenida.
E eramos nós, a malta, da “Ribeira até à Foz”, com os "Já fumega" e os "Minipop"...
E durante anos, fui desatando os nós.

Pensava ser amanhã o reencontro, ser outro dia o abraço, ser novamente ontem, para nos rirmos e brincarmos como sempre.
Mas, o destino trocou-nos os caminhos da vida.

O telefone já não toca como tocava. Os reencontros vão-se tornando raros.

O Figui advoga com o tempo contado. O Ricky, anda a saltar do Porto para Esmoriz, o João controla as corridas dos seus atletas e os cabelos brancos surgem em catadupa.
O Amado desapareceu, dele nem rasto.
O Pedro, Paulo, Costa, Leonor, Paula, Fátima, Laura, Beta, Sérgio, Zé, Carlos, Nanda, tantos, tantos que eramos. Um grupo excelente.

Enchiamos o comboio para Esmoriz de alegria vivida. Cerveja com groselha em pequenos almoços mirabolantes com rabanadas de molho divinal.

Francesinhas da Tí Alice, regadas com o verde do Monteiro, que dizia sempre: - “este é dos bons, já cá canta...”.

A Tia do Amado, suspirava pelas noticias que lhe levávamos, com ele a conta gotas espreitando da esquina em frente.
O "S. João" com filas de 60, numerados em saltos de fogueira, as corridas pela Boavista e o dormir na praia da Foz.
Dizíamos: - “Três dias e três noites sem ir à cama, seus morcões”.
O jogo do "pilha" e a “sameirinha”, a “patela” e os jogos de bola no Velasquez.
Chumbadas nas calças de ganga, de “assaltos” à fruta na Quinta do Monte Aventino,...

Quando nos encontramos, tudo parece ontem.
Saltamos e brincamos e falamos tanto e tanto em tão pouco tempo, que sofregamente, enchemos Santa Catarina.
No retorno a casa, fazemos promessas de encontros frequentes... e o telefone.. e o E.mail...

... e a vida volta, e o tempo alonga a distância, e o Inverno passa, o Verão volta, e amanhece de novo.
E mais cabelos brancos e rugas espantadas em espelhos de jovem.
E contamos aos filhos como era bom, como nos divertíamos, o que era a “verdadeira amizade”, as partilhas, o jogo da “casquinha”, o “porta a porta”, a “esmolinha p´ro St. António e "P´ro S. João”, e a sopa de couve na casa da Avó.

E virámos o 25 de 74, de mochila às costas na Praça D. João I, a ver chaimites e “magalas” de sorriso largo olhando as moças que passam.
... E como hoje é diferente.
Como a “Playstation” e a “Net” e o “Pokemon” e a TV Fox, subtrai a amizade a potências de solidão.

Vá lá pessoal, só mais um copo.

Não, o último não.
Passaremos pelo Oliveira Martins ou o Alexandre Herculano e esperamos as miúdas às cinco da tarde no Rainha Santa.

Depois embarcamos na paz do tempo e algum tempo depois encontramo-nos a caminho...
de novo... até um dia, quem sabe ... ?

Não sem antes secar esta que aqui enrola e espreita num canto do olho na vã esperança de vos ter de novo, todos juntos, como ontem.

5 comentários:

Delirius disse...

Recordar é sem dúvida viver!...
...e eu que vivi tantos anos no Porto, revivi contigo (não te conhecendo)as minhas aventuras e todos esses recantos e encantos que tanto me dizem.
Este é, como não podia deixar de ser, um texto fabuloso.
Era outra maneira de viver, outra forma de sentir.
Sabes que eu acho que nesse tempo a amizade era mais forte e sincera que hoje em dia?!
Era todos por um e um por todos!
É..., depois vem esta vida danada em que não há mais tempo para acertar os nós..., e quando damos por isso, meio mundo já desapareceu..., nem rasto!
Desculpa ter-me alongado tanto...
Foi muito bom passar aqui agora.
Beijo.

Lídia Borges disse...

Parece que somos todos iguais!

Mas uns sabem disso melhor do que os outros.


Um beijo

DIABINHOSFORA disse...

O texto podia adaptar-se às vivências da maioria de nós,...os amigos, as festas de garagem, as saudades desses tempos...quanto à música...chiça, tantas recordações lindas ao som desta música!

Beijos

paula disse...

Reavivas nostalgias de tempos que a memória insiste em recordar. O eterno conflito entre a vontade de fazer ressuscitar e a impossibilidade de reviver sem as marcas que a vida entretanto nos deixou.
Nunca nada é como dantes, nem será. É a vida…
Nos rostos dos jovens está escancarado o tempo que nos passou, foi muito mais do que os anos que vivemos, nada é comparável, são dimensões diferentes.
Temos que estar sempre a aprender a viver, e por vezes cansa.

Only Words disse...

É o tempo que nos leva e traz, que nos faz ser mais nós, mais diferentes, mas sempre iguais ao que um dia fomos. Somos o ontem, o hoje e o amanhã, assim, a recordar e a desejar o que de bom tivemos e gostaríamos de continuar a ter :)