28 novembro, 2009

PALAVRAS RABISCADAS


Queen - Bohemian Rhapsody


Prendes-te com atilhos e laços nos rebordos de mim e não desatas nós, nem por sombras...
Escreves papelinhos coloridos que espalhas pelos meus bolsos e desenhos vários colados com pedaços de baton nos espelhos em que me vejo.

Pintas com tinta da china e pastel, enrolas-te em telas açucaradas e deixas que te prove às colheradas.
Alinhas o teu no meu corpo e defines fronteiras de sabor em lábios sedentos de paixão.

Sorris nervosa a cada pedaço meu por cada pedaço teu e não te cansas quando te conduzes no meu olhar

Congelo memórias de sorrisos timidos na parcimónia quando te deitas em mim... e era eu o teu local de culto, o teu espaço preferido, faça chuva ou faça sol.

Afrouxo-te os impetos que considero desiguais e devoro a distância entre nós.
E todo eu pintor, todo eu arquitecto, todo eu engenheiro, contorno cordilheiras, cobrindo-te de papel cavalinho ou folhas A-4, como anjos disfarçados na neve.

Reconheço-te em sorrisos, discursos fluentes, em paradigmas que me fazem vibrar, umas olheiras inquietas e mal dormidas e uma ou outra ruga a mais.

E ontem, hoje e sempre quero-te mesclada entre o ser e a natureza, entre o dever e o divino e o mimetismo dócil que me faz criança em ti.

E no dia em que este voar terminar, as noites serão enormes, os dias imperfeitos,e passarei a oco de árvore velha, já sem ramos, já sem folhas, cobrindo de cinzas o arco-íris no teu olhar juvenil.

21 novembro, 2009

5 revelações













A Paula  do "Modos de Olhar" invadiu-me o espaço com o desafio de completar as 5 frases que se seguem...

Eu já tive... a ideia de que andava tudo louco, e ainda não perdi a esperança disso ser verdade... (lol)

Eu nunca... mais alinho nestas coisas... (lol)

Eu sei... que mais vale tarde que nunca, que a verdade vem sempre acima como o azeite, que confio demais nas pessoas e que me gasto em coisas que sei não valerem o esforço.

Eu quero ...ver os meus filhos bem, felizes e com saude, e homens bem formados .

Eu sonho ... com um mundo sem falsidades, sem cinismo, sem guerra e sem fome, e mais tolerante ... (sei que estou a pedir o impossivel... mas quem sabe se forçando...lol )


E... segundo diz, tenho que passar a 10, e estes valem a pena ...!
searas de versos

falamos depois sff

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Diabinhos fora

19 novembro, 2009

De novo Natal


Amy Macdonald - This Is The Life (Buenafuente)


E já me revejo no Natal.
O sapatinho de há quarenta anos no fogão, enquanto o senhor das barbas descia embrulhos vistosos pela boca da chaminé.
Brinquedos com chocolates dentro, como o meu pai adorava fazer.

Esta coisa do Natal outra vez. A data em si.
Eu Capricórnio, o meu pai também, aniversários próximos, o seu desaparecimento e o de minha mãe por esta altura, e a época, mais as luzinhas e os santinhos e os abracinhos e um "feliz natal" despido, prendinhas disto e daquilo, mais embrulhos e lacinhos, mais os que olham de lado rosnando... "festas felizes"...
...uma porra é que é.

E neste tempo, uma cadela com cio, frutos das árvores que apodrecem e os gulosos dos cães em fila.
A cadela vaporosa e saltitante com um corrupio de latidos e amantes ou clientes ou apenas conhecidos, de passagem... que amansam a fera.

E o frio que não chega, a chuva que tarda e um Novembro que adivinha pandemia de gripe e o texto que sai com dor, sofrido.

Se fosse financeiramente independente, saltava este mês.
Fechava literalmente para obras. Obras internas.
E no entanto dói. Vai doer sempre.

E parto. Parto de mim, fazendo pausas, navegando outras ondas, outros mundos, cheirando jacarandás, absorto, abstraído de tudo.
Esta dor que ninguém vê, dor fina e ardente.
E a mão que procura a caneta e os dedos enlaçados nela e no papel, tentando adornar escritos, frases.
Não necessariamente com sentido, mas que apaguem ou afaguem a memória.

E eu sozinho, nesta consulta interior.
Já me conheço a habitar estes espaços num adormecimento propositado.

E na época, eu e o meu irmão Artur. Um desassossego na espera, sapatinho no fogão...
- Ele vem ? sabe onde moramos ? Conhece a chaminé ?
Respostas não encontradas nesse dia, apenas uma noite sem dormir em congeminação de irmãos.

Agora não me apetece falar. Apetece-me estar assim, quieto nesta cadeira.
Apetece-me um cigarro e não fumo, mas apetece-me mais ainda o meu pai e o meu irmão e aquele tempo, nem que seja por uns minutos, as prendas no sapatinho e o homem das barbas a reboque de um trenó e as luzinhas que acendem a cada "feliz natal" rosnado por gente sem gente dentro.

Apetece-me que as cadelas desta vida cheguem ao lugar que pretendem, com ou sem cio. Que os cães marialvas abanem as patas e lancem corridas desenfreadas, que os jacarandás exalem perfume e o sapatinho sirva para no mínimo, aquecer o coração.

17 novembro, 2009

Rastos de gente por aí...!



O esqueleto de alguém que anda.
Esse corpo e alguém com ele.
Vou ter de entender isto...

Talvez janelas repletas de fantasmas que vão soltando por aí.
Saem do corpo, deixando-os pendurados – Vão chatear outro...

Permanecem em silêncio no meio dos silêncios. Talvez também fantasmas silenciosos.
Acham estranho… – Vão chatear outro...

Ela tão magra que os dentes lhe sobejam no sorriso, e as sete partidas de Lisboa vistas da ponte, luz e cor, vidas soltas, amarras de amantes em cacilheiros vadios.

Tragam-me serenidade em vez de bife do lombo, serenidade bem passada como o bife.
E a nostalgia das horas aqui e ali.

Rastos de gente entupida de ansíoliticos e anti-depressivos até ao “cocuruto”.
Esta palavra estranha a lembrar-me música bem mexida, solta e fresca, rastos de gente, cadáveres ambulantes a pedirem mais dança, mais corpo, mais amantes amarrados menos soporíferos.

Um cego na procura de sombra, uma luz ténue, um tactear na busca de caminho.
E sei dos teus olhos e do que não vês, mas outros olhos por trás destes.
Outros braços por trás desses, cansados, desamparados, sem poiso nem regaço, Um outro coração, um outro bater.

E os teus olhos onde ficam?

Outra metade de uma alma, metade de uma asa, espiral de solidão.
O esqueleto de alguém que anda. Esse corpo e alguém com ele.

Vislumbro casais ao longe e um manto de nevoeiro nas margens do rio e um beijo ardente. Ardente o beijo e o seu fumegar e baforadas juntas.

O esqueleto em pedaços de gente e a sua finitude e a finitude dos outros.
Um caminhar sem olhar e outros olhos por trás destes, uma outra metade de ti.

Rastos de gente por aí.
Porções de gente galopante, encharcadas de lavanda e sabão azul e branco.
Uns, cavernosos de cigarro embutido entre dentes desfeitos, outros com cardápios de perfume a tiracolo em cheiro adocicado e nuvens densas misturando odores e “baton” de mulher de vida fácil.

Somos cegos na vida que não queremos ver, que nos passa e trespassa como anexos de outra vida qualquer, paralela, inconveniente.

E vemos e revemos os mesmos gestos, os mesmos olhares incómodos, esqueletos abandonados, rastos de gente sem gente dentro.

O esqueleto de alguém que anda, esse corpo e alguém com ele…
Ainda não consigo entender isto.

11 novembro, 2009

A minha professora (psora!)



A minha professora primária, com uns braços nus, perna lengosa, apetitosa, peito firme de mulher quente e eu a gaguejar os rios, caminhos de ferro e cordilheiras.
Angola, Moçambique, Guiné, tudo na ponta da língua e o orgulho dela que inchava, e eu pasmado, trocando os afluentes.

As serras e as cercanias e as meias de vidro que ajeitava na barriga da perna, torneava a anca, o lápis que caía e um roçar de mãos na pele e o comboio que entra no rio, Angola que desagua em Espanha e nem uma planície quanto mais uma montanha.

Eu a segurar cotovelo na mesa, mão em concha na cara que repousa e um olhar difuso.
Ali, entre o ontem e o “qualquer-dia”.
Duas filas atrás de mim, o “Zafra” que relincha palavras sem nexo com sotaque acentuado do Porto.

Bandos de pássaros que circulam entre o telhado da escola e o alpendre próximo. Eu que os vejo e oiço do outro lado, vou desvanecendo o pensamento nela.

A minha “Psora” tamborilava os dedos na secretária vazia por trás de uma boca carmesim.
Vincos serenos dos lados da boca.

O Sérgio, todo dioptrias, aproveitava a falta de vista para um aligeirar de mãos nas miúdas, levando aqui e ali uns estalos que entendia como um adorno no marialvismo de tenra idade.

Olhos de gata incendiavam os mapas, e eu... distritos e províncias, cordilheiras e vales e sonhos e aulas de geografia a desoras.

E o seu modo lento de olhar. Não uma expressão absoluta antes um adocicar de almas e eu a voar para junto dos pássaros, todo eu asas, todo eu céu, todo eu nuvens.

E ela, meias de vidro, collant´s, perfume inebriante e depósitos de creme na cara como tulicreme para barrar.
Será ela actriz num cenário das nove ou apenas metrópoles, estações, rios e distritos?

A bandeira da nação, mais o mapa mundo, varinha e régua com olhos, as linhas de comboio que perdi, provincias que não encontro, o seu trejeito de pernas o cabelo esvoaçante e os mistérios reservados nas meias de vidro e o toque mágico num roçar de mãos, entre relinchos cavalares e as dioptrias mais a boca carmesim, com a imagem protectora do Presidente do Conselho e o crucifixo da esperança.

Valha-me Deus... “Psora”!

03 novembro, 2009

O teu calor que me coze o frio na barriga.
As copas das árvores e eu a sorver-te num fôlego e tu a escorregar por dentro de mim.
Gosto de te ter assim na minha boca… adocicada.

Existe em mim este semblante de tristeza que se reflecte como “néons” no escuro da vida.

E os teus espasmos em mim, e as minhas mãos enregeladas, curvadas, torcidas e retorcidas, enquanto desces na direcção do esófago.

Engoli-te como seria desejável entre as dez e as onze, para morrermos assim, enquanto te espalhas como ramos secos nas intersecções dos meus órgãos.

E o passado. Excesso de passado em ti, agora que te transportas em mim.

Aquele jeito de Princesa, feita boneca de porcelana com tiques firmes a adornar o cigarro.
Baforadas e gestos largos e sublimes a tocar os lábios depois da fumaça.

E um toque mais. Outro toque, e eu lânguido, absorvido pelos gestos, ensombrado pelo fumo que se ergue.

Lábios carmesins-os teus, e um cigarro

Eu e o teu calor que me coze o frio na barriga.
Eu e tu e um metro quadrado de elevador, os dois e a vizinha, mais o nosso ar.
O ar que respiramos os dois, a partilhá-lo com a vizinha.

Ela de sorriso trocista, imaginando que me habitavas mais por fora que por dentro, mas só nós sabíamos que por dentro me devoravas frenética, inquieta, degustando-me gulosa, entranhada.

E eu assim apunhalado, trucidado, remexido.
E foram assim, dois a três dias, de noite, na manhã seguinte, na noite do dia seguinte e outro dia também.
E era nessa luta interior que nos misturávamos que nos dividíamos apenas em nós.

Espasmos, o teu passado em mim, o jeito de Princesa com punhal no lugar do cigarro, e o gesto firme e quente e o meu “néon” psicadélico, desfalecido.

E eu com o teu sabor em mim, adocicado na minha boca, e o teu calor que me coze o frio na barriga.