De novo Natal


Amy Macdonald - This Is The Life (Buenafuente)


E já me revejo no Natal.
O sapatinho de há quarenta anos no fogão, enquanto o senhor das barbas descia embrulhos vistosos pela boca da chaminé.
Brinquedos com chocolates dentro, como o meu pai adorava fazer.

Esta coisa do Natal outra vez. A data em si.
Eu Capricórnio, o meu pai também, aniversários próximos, o seu desaparecimento e o de minha mãe por esta altura, e a época, mais as luzinhas e os santinhos e os abracinhos e um "feliz natal" despido, prendinhas disto e daquilo, mais embrulhos e lacinhos, mais os que olham de lado rosnando... "festas felizes"...
...uma porra é que é.

E neste tempo, uma cadela com cio, frutos das árvores que apodrecem e os gulosos dos cães em fila.
A cadela vaporosa e saltitante com um corrupio de latidos e amantes ou clientes ou apenas conhecidos, de passagem... que amansam a fera.

E o frio que não chega, a chuva que tarda e um Novembro que adivinha pandemia de gripe e o texto que sai com dor, sofrido.

Se fosse financeiramente independente, saltava este mês.
Fechava literalmente para obras. Obras internas.
E no entanto dói. Vai doer sempre.

E parto. Parto de mim, fazendo pausas, navegando outras ondas, outros mundos, cheirando jacarandás, absorto, abstraído de tudo.
Esta dor que ninguém vê, dor fina e ardente.
E a mão que procura a caneta e os dedos enlaçados nela e no papel, tentando adornar escritos, frases.
Não necessariamente com sentido, mas que apaguem ou afaguem a memória.

E eu sozinho, nesta consulta interior.
Já me conheço a habitar estes espaços num adormecimento propositado.

E na época, eu e o meu irmão Artur. Um desassossego na espera, sapatinho no fogão...
- Ele vem ? sabe onde moramos ? Conhece a chaminé ?
Respostas não encontradas nesse dia, apenas uma noite sem dormir em congeminação de irmãos.

Agora não me apetece falar. Apetece-me estar assim, quieto nesta cadeira.
Apetece-me um cigarro e não fumo, mas apetece-me mais ainda o meu pai e o meu irmão e aquele tempo, nem que seja por uns minutos, as prendas no sapatinho e o homem das barbas a reboque de um trenó e as luzinhas que acendem a cada "feliz natal" rosnado por gente sem gente dentro.

Apetece-me que as cadelas desta vida cheguem ao lugar que pretendem, com ou sem cio. Que os cães marialvas abanem as patas e lancem corridas desenfreadas, que os jacarandás exalem perfume e o sapatinho sirva para no mínimo, aquecer o coração.

Comentários

Lídia Borges disse…
"Esta dor que ninguém vê, dor fina e ardente.
E a mão que procura a caneta e os dedos enlaçados nela e no papel, tentando adornar escritos, frases.
Não necessariamente com sentido, mas que apaguem ou afaguem a memória".

Que não se apague a memória, que ela nos afague ainda que seja Natal!

Um beijo
Arisca disse…
Não vou (nem posso) dizer que sei do que falas.
Mas também já vivi Natais bem mais felizes do que os últimos. Já soube o que era não dormir por causa da excitação dos presentes no dia 25. Já conheci o sabor do Natal em casa dos meus avós, em Serpa, passado à volta de uma chaminé que me parecia enorme, assustadora, e, no entanto, mágica. Já soube o que era o Natal sem árvore nem presépio, mas com o sabor a canela com que a minha avó polvilhava doçuras.
Hoje, o meu Natal é menos puro, menos mágico. Mas tento não o deixar morrer.

*um abraço
chico disse…
.... mais um membro para o clube...
se me apanho em Janeiro até julgo que é mentira. Efectivamente esta altura dá-me a volta a tudo, até a coisas que nem sonhava que tinha.
Apenas um ponto positivo : a alegria de algumas pessoas a quem a atenção e o carinho que dispenso trazem alguns momentos de felicidade por saberem que alguém se lembraa delas.
Chris disse…
Texto entre o realismo e a metáfora que o Outono (re)escreve neste mês de Novembro. Memórias parecidas com as minhas, há quatro décadas o senhor das barbas também descia pela chaminé e os sapatinhos dormiam junto dela...
Um abraço
Chris
xitilina disse…
Perfeitamente compreendido porque há imagens nas tuas palavras.

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