A minha professora (psora!)



A minha professora primária, com uns braços nus, perna lengosa, apetitosa, peito firme de mulher quente e eu a gaguejar os rios, caminhos de ferro e cordilheiras.
Angola, Moçambique, Guiné, tudo na ponta da língua e o orgulho dela que inchava, e eu pasmado, trocando os afluentes.

As serras e as cercanias e as meias de vidro que ajeitava na barriga da perna, torneava a anca, o lápis que caía e um roçar de mãos na pele e o comboio que entra no rio, Angola que desagua em Espanha e nem uma planície quanto mais uma montanha.

Eu a segurar cotovelo na mesa, mão em concha na cara que repousa e um olhar difuso.
Ali, entre o ontem e o “qualquer-dia”.
Duas filas atrás de mim, o “Zafra” que relincha palavras sem nexo com sotaque acentuado do Porto.

Bandos de pássaros que circulam entre o telhado da escola e o alpendre próximo. Eu que os vejo e oiço do outro lado, vou desvanecendo o pensamento nela.

A minha “Psora” tamborilava os dedos na secretária vazia por trás de uma boca carmesim.
Vincos serenos dos lados da boca.

O Sérgio, todo dioptrias, aproveitava a falta de vista para um aligeirar de mãos nas miúdas, levando aqui e ali uns estalos que entendia como um adorno no marialvismo de tenra idade.

Olhos de gata incendiavam os mapas, e eu... distritos e províncias, cordilheiras e vales e sonhos e aulas de geografia a desoras.

E o seu modo lento de olhar. Não uma expressão absoluta antes um adocicar de almas e eu a voar para junto dos pássaros, todo eu asas, todo eu céu, todo eu nuvens.

E ela, meias de vidro, collant´s, perfume inebriante e depósitos de creme na cara como tulicreme para barrar.
Será ela actriz num cenário das nove ou apenas metrópoles, estações, rios e distritos?

A bandeira da nação, mais o mapa mundo, varinha e régua com olhos, as linhas de comboio que perdi, provincias que não encontro, o seu trejeito de pernas o cabelo esvoaçante e os mistérios reservados nas meias de vidro e o toque mágico num roçar de mãos, entre relinchos cavalares e as dioptrias mais a boca carmesim, com a imagem protectora do Presidente do Conselho e o crucifixo da esperança.

Valha-me Deus... “Psora”!

Comentários

Lídia Borges disse…
E eu que, enquanto professora, só vejo inocências imensas nas cabecinhas dos meninos. :)

O texto é uma delícia!
O vaguear entre as matérias de aprendizagem e os "atributos" da professora é apresentado de forma magnífica.

Um beijo
Sónia disse…
Escreves lindamente...ao ponto de se sentir o cheiro nas tuas palavras...

Beijinho grade!
paula disse…
pedro, que delicia de texto!
e a música, remédio santo para mim!! uma das minhas preferidas...

(malandrote, heim???)
Ca Delicious disse…
Amei o texto (: vivo as tuas palavras!

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