17 novembro, 2009

Rastos de gente por aí...!



O esqueleto de alguém que anda.
Esse corpo e alguém com ele.
Vou ter de entender isto...

Talvez janelas repletas de fantasmas que vão soltando por aí.
Saem do corpo, deixando-os pendurados – Vão chatear outro...

Permanecem em silêncio no meio dos silêncios. Talvez também fantasmas silenciosos.
Acham estranho… – Vão chatear outro...

Ela tão magra que os dentes lhe sobejam no sorriso, e as sete partidas de Lisboa vistas da ponte, luz e cor, vidas soltas, amarras de amantes em cacilheiros vadios.

Tragam-me serenidade em vez de bife do lombo, serenidade bem passada como o bife.
E a nostalgia das horas aqui e ali.

Rastos de gente entupida de ansíoliticos e anti-depressivos até ao “cocuruto”.
Esta palavra estranha a lembrar-me música bem mexida, solta e fresca, rastos de gente, cadáveres ambulantes a pedirem mais dança, mais corpo, mais amantes amarrados menos soporíferos.

Um cego na procura de sombra, uma luz ténue, um tactear na busca de caminho.
E sei dos teus olhos e do que não vês, mas outros olhos por trás destes.
Outros braços por trás desses, cansados, desamparados, sem poiso nem regaço, Um outro coração, um outro bater.

E os teus olhos onde ficam?

Outra metade de uma alma, metade de uma asa, espiral de solidão.
O esqueleto de alguém que anda. Esse corpo e alguém com ele.

Vislumbro casais ao longe e um manto de nevoeiro nas margens do rio e um beijo ardente. Ardente o beijo e o seu fumegar e baforadas juntas.

O esqueleto em pedaços de gente e a sua finitude e a finitude dos outros.
Um caminhar sem olhar e outros olhos por trás destes, uma outra metade de ti.

Rastos de gente por aí.
Porções de gente galopante, encharcadas de lavanda e sabão azul e branco.
Uns, cavernosos de cigarro embutido entre dentes desfeitos, outros com cardápios de perfume a tiracolo em cheiro adocicado e nuvens densas misturando odores e “baton” de mulher de vida fácil.

Somos cegos na vida que não queremos ver, que nos passa e trespassa como anexos de outra vida qualquer, paralela, inconveniente.

E vemos e revemos os mesmos gestos, os mesmos olhares incómodos, esqueletos abandonados, rastos de gente sem gente dentro.

O esqueleto de alguém que anda, esse corpo e alguém com ele…
Ainda não consigo entender isto.

3 comentários:

Lídia Borges disse...

Realço:
"Somos cegos na vida que não queremos ver, que nos passa e trespassa como anexos de outra vida qualquer, paralela, inconveniente."

Silencio-me perante a distância que nos transforma em ilhas perdidas no oceano da solidão.


Um beijo

Arisca disse...

É muito bom sentirmo-nos tocados pelas palavras.
As deste texto tocaram-me.
Muito obrigada!

paula disse...

pedro, passa por lá, e responde se quiseres, mas olha que a culpa é do carlos!!!