30 dezembro, 2009

Tanto ou quase nada...!





Tanto ou quase nada


Quantas vezes escrevo sem te escrever, por outras em que te vejo sem te olhar.
E quantas vezes um abraço um afago e o peito que me estala.
Saber dos meus olhos escuros que se espreitares consegues ler.

Vou desarrumando o passado e despenteando o presente e escrevo porque me apetece implodir, esquartejando o edifício das palavras, as frases e as pontuações, parágrafos imensos.
Caminho nelas inconsciente ou semi-cego.

Ensarilho os meus sentimentos com recordações e visões pessoalissimas das coisas.
Coisas tão minhas, coisas tão próprias. Conduzir, correr, ser abanado pela brisa marítima e sorrir, a adrenalina e a análise das expressões, os gestos e as feições, à laia de quem procura um dente são no labirinto de uma boca.

Os toques nas coisas, as pequenas coisas ou pequenos nadas.
Gosto de te ver e sentir nos pontos cardeais, preenchendo o milímetro quadrado por um quarto de meio metro de lado.
Um final de tarde de cor alaranjado ou arroxeado ou simplesmente um final de tarde ou noite.
A noite que me devora sono retemperador e pelo qual não luto - prefiro viver .
E esta noite de línguas doces que me engole secamente, namoradeira.

Gosto de te ver na névoa baixinha e fria que enfeita sonhos.
Gosto dos amigos, de um jantar com amigos, das gargalhadas deles e das minhas.
Gosto da minha voz quando me oiço porque por vezes os silêncios entopem-me.
Gosto de rostos e de olhos de mãos e lábios, como aqueles adocicados onde sobressai um travo de desejo.

Gosto de te ter entre cordilheiras de roupa atirada borda-fora e desamparos negligentes de mãos atiradas ao acaso, quando em lençóis de cetim sou posto e descomposto nas tessituras e quantas vezes me apetece arrepiar caminho por tantas vezes me sonhar fantasma, e vagueio numa geometria enfeitada por mim como sombras chinesas.

Gosto mesmo quando estou só e me espalho pelas paredes do quarto em juras sucessivas, e gosto quando me sais suavemente pelos poros, esfumada pelos dedos, nas narinas, nos ouvidos, mesmo quando me poluis o cérebro e te armazenas em mim até eu melhorar, na esperança que as saudades apertem e me afastes as pernas traiçoeiras nas curvas do desejo.

Gosto de um bom cheiro, um perfume, o inevitável levitar na cor, num arco-íris musical.

Gosto assim, holograma de prazer em jeito de lírica árdua, rompendo a placenta de ternura por rotas arquitectadas e desenhadas.

A leitura, o aperto de mão e o abraço, uma dança bem executada, um espectáculo, um bom livro num prenuncio de mais nada...

... Somos isso mesmo, quase nada.

16 dezembro, 2009

Um dia, beijo-te a meio de uma frase...!




Um dia, beijo-te a meio de uma frase...


E é nestas teias de palavras que me solto, que sou mais "eu".

E escrevo nos gestos intimos dos meus sonhos, na alegria que sobra depois de arrastada a dor.

Mudou a hora

Independentemente disso, nada mais mudou. As mesmas caras, as mesmas casas, as luzes dos candeeiros toscos, os riscos do meu carro estacionado cem metros à frente.

A tua sombra pensada por mim inebriando os sentidos.

Um dia, beijo-te a meio de uma frase...

A voz que oiço, a tua voz que me canta, num açoite de memória. Quem diria que apenas uma voz pela calada da noite, tomando formas e gestos de fada.

Mudou a hora e nada mais...

Já passaram quinze minutos desde que comecei e apenas a voz, mais a minha caligrafia paciente de monge copista.

Um carreirinho de carros na direcção da Foz, o "Sétima Vaga" com esplanada aberta e um cenário de luz e cor.

Ris comigo, e eu gosto de "te rir", apesar das amarras que te esventram a casa e escancaram janelas e o espelho da vida.

O teu sorriso que não conheço, mas sinto, como a voz da rádio que me inquieta.

Um dia, beijo-te a meio de uma frase...

As nossas bocas que se encontram no trajecto nitido de uma palavra

Matriz dos dias, sonoridade absoluta, percursos seguros nas circunferências traçadas das nossas bocas.

E invento o mundo em aguarelas de cor e vento com sabor a sal.

Gotas de chuva misturadas com o teu suor no rosto em fotos " à la minute".

Não tenho ilusões, mas vontade de ti, e tantas vezes tão só, que tenho saudades de mim.

Falo redundâncias e escrevo este texto sem selo nem remetente.

Apeteces-me como nunca, nas formas e aromas dissolvidos em beijos nos teus musculos cansados de leituras nocturnas e sonetos de Chopin.

Um dia, beijo-te a meio de uma frase...

O resto é contigo...!

08 dezembro, 2009

Já me sinto muito grande para este corpo...!


Katie Melua

Já me sinto muito grande para este corpo, ou será a alma que se quer desprender?

Oiço longe o meu grito, e ele chega-me como "boomerang" em ondas aflitas.

Dobro a esquina neste empedrado que me amortece a alma, para fugir dele, mas acabo por o devorar no medo das noites silenciosas, sonhando sombras de rebuçados coloridos.

Baloiças suavemente por dentro de mim, como um brinquedo guardado na imaginação fértil que te povoa.

E é Novembro, e afinal tu não estás aqui.
Mentiste mais uma vez, preferindo mil vezes mais, viver na sombra do que em mim.

Já me sinto muito grande para este corpo e sinto a alma a desprender.

Cicatrizo as feridas abertas lambendo-as até à exaustão. Tenho a vida feita pânico com a tua ausência.
A minha língua forrada de palavras mas a boca adormecida. Eu não falo e tu não brincas baloiçando por dentro do meu corpo jovem que te ampara o desassossego.

Empecilhas-me o tédio e alteras inesperadamente a química do meu organismo, qual medicamento tomado a horas certas.

Sinto finar-me… a passar-me literalmente... e a alma a desprender.

Não sei como faço.
Se te rebusco e modifico metendo mãos enérgicas nas entranhas e virando do avesso órgãos harmoniosos mas aprisionados, se te confronte e aprisione à minha boca numa sonoridade tangível, para perdurar como bruma e matriz dos dias.

Termino café na baixa, a noite vinha apressada e a luz da estação do rossio a cair em catadupa, relevando orquestras de músicas natalícias.

E apareces do nada…inquieta, fumegante e a minha boca aprisionada numa língua adormecida sem sonoridade.
Tocas-me na mão e muito suavemente deslizas com ela sobre o teu peito arfante, deslizando de novo até ao umbigo, morrendo aí.

Não sei como faço.
Se invento mil e uma formas de me implodir se aguardo o retorno do grito que me apavora meninges cansadas.

E no teu sorriso nervoso,
no teu olhar como pétala de um Outono florido em odes madrigais perco-me, fechando os olhos e sentindo o meu corpo dissolver-se em nada.

Já me sinto muito grande para este corpo, e não sei se a alma ainda se quer desprender.