08 dezembro, 2009

Já me sinto muito grande para este corpo...!


Katie Melua

Já me sinto muito grande para este corpo, ou será a alma que se quer desprender?

Oiço longe o meu grito, e ele chega-me como "boomerang" em ondas aflitas.

Dobro a esquina neste empedrado que me amortece a alma, para fugir dele, mas acabo por o devorar no medo das noites silenciosas, sonhando sombras de rebuçados coloridos.

Baloiças suavemente por dentro de mim, como um brinquedo guardado na imaginação fértil que te povoa.

E é Novembro, e afinal tu não estás aqui.
Mentiste mais uma vez, preferindo mil vezes mais, viver na sombra do que em mim.

Já me sinto muito grande para este corpo e sinto a alma a desprender.

Cicatrizo as feridas abertas lambendo-as até à exaustão. Tenho a vida feita pânico com a tua ausência.
A minha língua forrada de palavras mas a boca adormecida. Eu não falo e tu não brincas baloiçando por dentro do meu corpo jovem que te ampara o desassossego.

Empecilhas-me o tédio e alteras inesperadamente a química do meu organismo, qual medicamento tomado a horas certas.

Sinto finar-me… a passar-me literalmente... e a alma a desprender.

Não sei como faço.
Se te rebusco e modifico metendo mãos enérgicas nas entranhas e virando do avesso órgãos harmoniosos mas aprisionados, se te confronte e aprisione à minha boca numa sonoridade tangível, para perdurar como bruma e matriz dos dias.

Termino café na baixa, a noite vinha apressada e a luz da estação do rossio a cair em catadupa, relevando orquestras de músicas natalícias.

E apareces do nada…inquieta, fumegante e a minha boca aprisionada numa língua adormecida sem sonoridade.
Tocas-me na mão e muito suavemente deslizas com ela sobre o teu peito arfante, deslizando de novo até ao umbigo, morrendo aí.

Não sei como faço.
Se invento mil e uma formas de me implodir se aguardo o retorno do grito que me apavora meninges cansadas.

E no teu sorriso nervoso,
no teu olhar como pétala de um Outono florido em odes madrigais perco-me, fechando os olhos e sentindo o meu corpo dissolver-se em nada.

Já me sinto muito grande para este corpo, e não sei se a alma ainda se quer desprender.

1 comentário:

Lídia Borges disse...

Hoje reparei numa característica visível em alguns dos teus texto. Tem a ver com a oposição entre imagens fortes,a roçar a agressividade e outras de extrema ternura, numa simbiose quase perfeita com revolta e sensibilidade do sujeito(personagem ou narrador)?
De resto... Que dizer? Gosto do que aqui leio.

Um beijo.