Tanto ou quase nada...!





Tanto ou quase nada


Quantas vezes escrevo sem te escrever, por outras em que te vejo sem te olhar.
E quantas vezes um abraço um afago e o peito que me estala.
Saber dos meus olhos escuros que se espreitares consegues ler.

Vou desarrumando o passado e despenteando o presente e escrevo porque me apetece implodir, esquartejando o edifício das palavras, as frases e as pontuações, parágrafos imensos.
Caminho nelas inconsciente ou semi-cego.

Ensarilho os meus sentimentos com recordações e visões pessoalissimas das coisas.
Coisas tão minhas, coisas tão próprias. Conduzir, correr, ser abanado pela brisa marítima e sorrir, a adrenalina e a análise das expressões, os gestos e as feições, à laia de quem procura um dente são no labirinto de uma boca.

Os toques nas coisas, as pequenas coisas ou pequenos nadas.
Gosto de te ver e sentir nos pontos cardeais, preenchendo o milímetro quadrado por um quarto de meio metro de lado.
Um final de tarde de cor alaranjado ou arroxeado ou simplesmente um final de tarde ou noite.
A noite que me devora sono retemperador e pelo qual não luto - prefiro viver .
E esta noite de línguas doces que me engole secamente, namoradeira.

Gosto de te ver na névoa baixinha e fria que enfeita sonhos.
Gosto dos amigos, de um jantar com amigos, das gargalhadas deles e das minhas.
Gosto da minha voz quando me oiço porque por vezes os silêncios entopem-me.
Gosto de rostos e de olhos de mãos e lábios, como aqueles adocicados onde sobressai um travo de desejo.

Gosto de te ter entre cordilheiras de roupa atirada borda-fora e desamparos negligentes de mãos atiradas ao acaso, quando em lençóis de cetim sou posto e descomposto nas tessituras e quantas vezes me apetece arrepiar caminho por tantas vezes me sonhar fantasma, e vagueio numa geometria enfeitada por mim como sombras chinesas.

Gosto mesmo quando estou só e me espalho pelas paredes do quarto em juras sucessivas, e gosto quando me sais suavemente pelos poros, esfumada pelos dedos, nas narinas, nos ouvidos, mesmo quando me poluis o cérebro e te armazenas em mim até eu melhorar, na esperança que as saudades apertem e me afastes as pernas traiçoeiras nas curvas do desejo.

Gosto de um bom cheiro, um perfume, o inevitável levitar na cor, num arco-íris musical.

Gosto assim, holograma de prazer em jeito de lírica árdua, rompendo a placenta de ternura por rotas arquitectadas e desenhadas.

A leitura, o aperto de mão e o abraço, uma dança bem executada, um espectáculo, um bom livro num prenuncio de mais nada...

... Somos isso mesmo, quase nada.

Comentários

Delirius disse…
Sim, somos quase nada... ou tanto!
Gosto de ler-te! Desculpa quando me entusiasmo e me excedo!

Espero que essa tua loucura te acompanhe até muito para além de 2010!

Feliz ano novo!
ana disse…
Como sempre...delicioso! Há momentos em que somos tudo e nada nos escapa...
Que esses momentos sejam muitos em 2010..
bj
Lídia Borges disse…
O prazer das pequenas coisas, dito por ti ganha amplitude...

Um 2010 cheio de sonhos e realizações...

Um beijo!
antonia disse…
Oi Zé, continuas arrebentando!!
Que texto gostoso...
Ah, feliz aniversário e que em 2010o teu agir seja maior que o teu sonhar...
Bj Doce

Mensagens populares deste blogue

O MUNDO DE PERNAS PARA O AR

Deixa ficar assim…

DESEJOS E DEMÓNIOS